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O TOC religioso e eu

A escrupulosidade se apega àquilo que mais prezamos — nosso relacionamento com Deus.

Uma borboleta brilhante presa dentro de um frasco.
Christianity Today April 22, 2026
Ilustração de Kate Petrik / Imagens: Wikimedia Commons

Eu não sabia o que era escrupulosidade até completar 23 anos e me ver sentado no consultório de um psiquiatra. Após meses de ataques de pânico prolongados, alguém em quem eu confiava me recomendou determinado psiquiatra, acrescentando que ele era um homem gentil e cristão. Então, marquei uma consulta e sentei-me em seu consultório, sem saber bem o que esperar.

Falei a ele sobre minha vergonha incessante pelo pecado e do esforço que eu fazia para ser perfeito para Cristo. Contei a ele que, já na segunda série do ensino fundamental, eu refletia seriamente sobre a minha salvação e se eu realmente havia sido salvo. Falei sobre as horas que passei memorizando a Bíblia no ensino médio, buscando de forma fugaz a paz e a alegria de que as Escrituras falam. Contei sobre as ligações que fazia duas vezes ao dia para meu pai, em busca de reafirmação de que eu era normal, de que meus medos espirituais irracionais não viriam a acontecer. E lhe disse sobre os ataques de pânico que eu estava tendo, sobre como todos eles se centravam em um grande e assustador medo espiritual.

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Ele me ouviu e, então, me disse casualmente que eu tinha algo chamado escrupulosidade, ou seja, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) religioso. Meu pai disse isso de forma tão singela, que era como se houvesse um letreiro de neon acima da minha cabeça piscando meu diagnóstico.

A escrupulosidade — um subtipo de TOC focado em obsessões e compulsões morais ou religiosas — vem da palavra em latim para designar uma pequena pedra, evocando a dor de quem tem uma pedra no sapato. É um pequeno pensamento que se aloja no cérebro da pessoa. De natureza intrusiva, ele atormenta, atormenta e atormenta, até que a vítima não consiga pensar em mais nada a não ser naquele pensamento, que frequentemente é algum medo espiritual. E esse medo pode vir à tona de muitas formas diferentes.

A Fundação Internacional do TOC lista muitos medos que podem ser categorizados como escrupulosidade: medo de cometer blasfêmia ou ofender/irar a Deus; medo de ter cometido um pecado ou de se comportar de forma excessivamente moral; medo de ir para o inferno ou de ser punido por Deus; medo de estar possuído; medo da morte; medo da perda de controle dos impulsos e uma necessidade obsessiva de ter certeza sobre crenças religiosas. Historiadores da igreja pensam que grandes nomes cristãos como Martinho Lutero, John Bunyan e Santa Teresinha de Lisieux lidaram com a questão da escrupulosidade.

Muitos deles são medos que qualquer pessoa “normal” poderia ter. Ora, isso não seria apenas outra maneira de descrever o legalismo? A maioria das pessoas, segundo presumo, não quer ir para o inferno nem ser punida por Deus. A diferença entre escrupulosidade e legalismo, entretanto, é que o cérebro escrupuloso não consegue se desapegar daquele determinado pensamento ou medo. Alguém que luta com o legalismo pode sentir um grande alívio após uma reunião com seu pastor ou pastora, mas para alguém que sofre com a escrupulosidade, esse medo irracional voltará. De novo e de novo, aquela determinada pergunta fica girando no cérebro escrupuloso: E se, e se, e se?

Então, lemos nossa Bíblia por horas a fio. Oramos o mesmo versículo repetidamente, de novo e de novo. Confessamos os mesmos pecados — tanto os reais quanto os que são frutos da nossa percepção (“apenas por precaução”). Encontramos alguém com quem desabafar sobre todos os nossos medos espirituais. Esses mecanismos de enfrentamento — essas compulsões — funcionam por um curto período de tempo, ao nos reafirmar. Mas, pouco depois, os medos retornam e o ciclo continua. De novo e de novo e de novo, sempre com medo.

Como nosso TOC se apega àquilo que mais prezamos — nosso relacionamento com Deus — o evangelho se distorce em uma doutrina de medo. Por fora, parecemos cristãos de elite, constantemente lendo nossa Bíblia e aparecendo na igreja, sempre que estiver de portas abertas; nossas motivações, porém, são movidas pelo medo, e não pela alegria. De alguma forma, perdemos conceitos como paz e alegria na equação da nossa fé. E precisamos de ajuda — tanto espiritual quanto psicológica — para recuperá-los.

Conheci pessoas que foram curadas espiritualmente do seu TOC. No entanto, minha história de cura não foi um momento milagroso único. Em vez disso, assim como o famoso título do livro de Eugene Peterson, tem sido “uma longa obediência na mesma direção”. Tenho travado essa batalha diariamente, por meio de relacionamentos profundos com a família, amigos, líderes religiosos, terapeutas confiáveis, psiquiatras gentis e — acima de tudo isso, em meio a tudo isso e orquestrando tudo isso — por meio da provisão e da graça de Deus.

No início da minha jornada de cura com a escrupulosidade, aprendi que não posso controlar o fato de meu cérebro ficar viciado em meu medo espiritual, mas posso controlar se luto ou não contra ele. Lutar contra ele é uma batalha perdida; quanto mais eu luto, maior o medo fica. Em vez disso, aprendi a reconhecer os pensamentos; e dizer: “Tudo bem, reconheço que este medo está aqui, mas não preciso fazer nada a respeito dele”. É como pegar uma folha e atirá-la em um riacho: aprendi (e continuo aprendendo) como reconhecer o medo e, depois, deixá-lo ir.

Salmos 131 coloca essa prática em termos espirituais:

Senhor, o meu coração não é orgulhoso,

e os meus olhos não são arrogantes.

Não me envolvo com coisas grandiosas

nem maravilhosas demais para mim.

Pelo contrário, acalmei e aquietei a minha alma.

Sou como uma criança desmamada pela sua mãe;

a minha alma é como essa criança.

Ponha a sua esperança no Senhor, ó Israel,

desde agora e para sempre!

Este salmo me lembra que posso entregar a Deus todos os meus grandes e assustadores medos espirituais; Deus é capaz de arcar com eles por mim. Não  preciso exaltar meu coração; não preciso levantar demais meus olhos. Há tantas “coisas grandiosas [e] maravilhosas demais para mim”. Em vez disso, posso acalmar e aquietar a minha alma nos braços de Deus — os braços de Deus são grandes o suficiente para segurar tudo isso.

E tenho que continuamente — a cada dia, a cada hora, às vezes a cada momento — lembrar-me disso. Não é como apertar um interruptor, uma única vez, mas sim um processo contínuo. Não estou “curado”. Ainda tomo medicação todas as noites e, ontem mesmo, sentei-me no consultório do meu psiquiatra para um check-up. Também entro na fila para receber o corpo e o sangue de Cristo a cada semana, algo que transcende minha medicação e me lembra da presença corpórea e do sacrifício de Cristo.

Faz dez anos desde o meu diagnóstico e descoberta do TOC — dez anos de participação na Ceia do Senhor, dez anos que tomo medicação e faço terapia. Desde então, percebi que existem muitos outros por aí como eu, religiosos ou não (um estudo fez uma estimativa conservadora de que existem pelo menos 1,5 milhão de americanos nessa situação). Também percebi que poucos pastores e mentores espirituais reconhecem ou sequer estão cientes da escrupulosidade.

Para aqueles que lutam com este diagnóstico, digo uma coisa apenas: que são profundamente amados por um Deus que anseia se aproximar de vocês. Apesar da dificuldade e da confusão, Deus é fiel. Acima e além de seus grandes e assustadores medos espirituais, existe a graça de Deus — uma realidade que existe mesmo quando não é sentida no momento. Cerque-se de pessoas que proclamem essa graça sobre a sua vida.

Uma palavra para quem é detentor de autoridade espiritual: saiba que aqueles que vivem com escrupulosidade estão sentados nos bancos da sua igreja. Nós [portadores de transtorno obsessivo-compulsivo] amamos a Deus, mas precisamos de palavras de paz que sejam proferidas sobre nossa alma exaurida e inquieta; precisamos de palavras de paz para quando o turbilhão das ondas se elevar acima da nossa cabeça.

Drew Brown é um escritor que atualmente cursa seu doutorado em ministério no Western Theological Seminary. Ele escreve em seu Substack, Slow Faith.

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