Culture

Eu queria servir a Deus e a Mamom

Um amigo me pediu dinheiro para pagar o aluguel e isso me fez questionar minha dupla lealdade.

Um carrinho de bebê dourado.
Christianity Today April 14, 2026
Edição: CT / Imagem original: Unsplash

Um grande amigo certa vez me pediu ajuda para pagar o aluguel. Ele me explicou que sua família estava passando por um momento difícil. Será que eu e meu marido estaríamos dispostos a cobrir essa única despesa, até que eles superassem isso?

Eu não soube como responder. Tínhamos acabado de ter nosso segundo filho e eu havia pedido demissão recentemente. Antes disso, vivíamos com o que ganhávamos em nossos empregos em ONGs e na área da educação, quantias que eram consideradas baixas, até mesmo pelos padrões de nossos próprios setores, e gastávamos da forma mais moderada possível, para que nossos contracheques não fossem engolidos por inteiro pelo custo de vida do lugar em que morávamos, na região da Baía de São Francisco. Interrompi meu amigo antes que a conversa pudesse ir mais longe e lhe disse que precisávamos de tempo para pensar a respeito.

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“Tenham mão aberta”, diz o Livro de Deuteronômio, em um dos muitos versículos que indicam o quão decididamente Deus espera que seu povo siga seu exemplo de generosidade (15.8).

As instruções abrangentes do Antigo Testamento englobam tanto doações individuais quanto movimentos sistêmicos voltados para a redistribuição de terras, o perdão de dívidas e esmolas. O Novo Testamento é igualmente insistente no sentido de que honremos a Deus demonstrando cuidado material para com o outro. “Porque tive fome, e destes-me de comer”, diz Cristo; “tive sede, e destes-me de beber”. No próprio relato de Cristo, aquilo que fazemos pelos necessitados é por ele que o fazemos (Mateus 25.35, 40).

À medida que a igreja primitiva se estabelece, comandos semelhantes são dados ao povo de Deus, mesmo enquanto eles lutam para sobreviver sob ocupação estrangeira. Paulo, elogiando a igreja de Corinto por sua profundidade e maturidade espiritual, conclui lembrando seus membros de praticarem uma generosidade radical para “provar que o vosso amor também é genuíno” (2Coríntios 8.8).

Seu comando vem acompanhado de uma pequena e concisa conclusão, surpreendente para qualquer pessoa acostumada com o consumismo da vida contemporânea. Se os corintos dividirem o que têm com aqueles que precisam, diz Paulo, terão a garantia de que “Ao que muito colheu, nada sobrou; e ao que pouco colheu, nada faltou” (v. 15).

A suposição aqui é a seguinte: ter demais é um problema a ser resolvido e o povo de Deus pode ajudar aqueles que lutam com esse problema específico por meio do redirecionamento de seus recursos. Qualquer um que tenha muito pouco — mesmo que seja, provocativamente falando, por consequência de ter “juntado” ou planejado ou economizado de forma insuficiente para si próprio — pode ser cuidado e protegido por seus próximos mais abastados.

Esta é uma maneira revolucionária de pensar sobre nossos pertences e como eles devem ser administrados. A narrativa das Escrituras, que nos identifica a todos como portadores da imagem de Deus e, portanto, como possuidores de valor inalienável, nos dá a identificação correlata de guardiões uns dos outros. O que fazemos com nossos bens deve estar alinhado com o amor que compartilhamos e que nos é inerente.

Acho que a visão bíblica sobre o dinheiro é bela, mas pouco convincente. Abordo seus ensinamentos com a admiração e a inquietação de um visitante em terra estrangeira: apreciando o que estou testemunhando, e agudamente consciente de que meu lar é em outro lugar.

Assim que eu e meu marido terminamos de conversar com nosso amigo, comecei a pensar em todos os versículos sobre dinheiro que tinha decorado, mas sem internalizá-los totalmente. Eu me insiro em outra narrativa sobre a riqueza, uma narrativa que vem da economia de mercado.

O mercado e seus ensinamentos são tão convincentes que, em várias ocasiões, já me levaram às lágrimas. Quando tivemos nosso primeiro filho, percebi que havia carrinhos de bebê deslumbrantes à venda, modelos com etiquetas de preço estratosféricos que poderiam conduzir meu bebê em estruturas metálicas elegantes, que mais pareciam tronos escandinavos ergonômicos. Todos os anúncios que eu via sugeriam que ter condições de comprar um carrinho desses era o próximo passo em nossa progressão como pais, para provar que éramos capazes de prover para nossa descendência.

O modesto carrinho de plástico da nossa filha parecia uma afronta à sua beleza e um testemunho da insuficiência do meu amor. O que todos esses outros pais fizeram, eu me perguntava, para conseguir pagar por aquele carrinho? Por que eu não tinha descoberto uma maneira de fazer o mesmo? Eu queria a mesma coisa que os anúncios queriam para mim, que era me tornar o tipo de pessoa que pudesse oferecer à nossa filha o melhor de tudo. E esse desejo era potente o bastante para me fazer chorar.

Assim que minha filha começou a expressar um interesse maior pelo que a cercava, surgiram perguntas diferentes. Por que eu não conseguia comprar para ela brinquedos aprovados pela pedagogia Waldorf, com cores e texturas naturais? Por que a matrícula na aula de ginástica para bebês parecia tão exorbitante? Havia algum benefício real nas aulas de pilates para mães e bebês? Por que eu não estava conseguindo pagar todas essas coisas? A história que existe na minha imaginação, a linha narrativa que quero seguir, apresenta uma mulher cujo poder aquisitivo é proporcional ao seu amor.

Essas ideias não parecem questionáveis: eu quero dinheiro para poder assumir as responsabilidades que Deus me deu como mulher adulta. No entanto, elas também não explicam o instinto protetor que sinto em relação às minhas posses ou a minha relutância em atender ao pedido de ajuda de um amigo. Quando considerava a perspectiva de pagar o aluguel de outra pessoa, tentava identificar razões pelas quais não poderíamos ajudar, e percebi que minha lógica não fazia sentido.

Eu estava me apegando ao dinheiro por medo de que faltasse? Verdade seja dita, eu e meu marido estávamos ganhando o suficiente para cobrir nossas necessidades básicas. Eu estava com medo de que doar dinheiro viria a comprometer o futuro da minha filha? Nossos salários já nos qualificavam para programas gratuitos para a pré-escola. Além disso, minha filha já tinha tudo de que precisaria para os primeiros cinco anos de vida, como a montanha de roupas infantis de segunda mão e os presentes que ganhou de familiares e amigos carinhosos.

Tomar decisões com base na prudência financeira tem aparência de sabedoria. No entanto, meus motivos para querer proteger meus recursos financeiros são surpreendentemente mal definidos e sugerem que cultivo crenças que dificilmente conseguiria articular. Minha relação com o dinheiro tem a clareza de uma imagem pontilhista — coerente à distância, mas desintegrada, quando inspecionada mais de perto.


Em seu livro The Age of Choice: A History of Freedom in Modern Life [A Era da Escolha: Uma História da Liberdade na Vida Moderna], a historiadora Sophia Rosenfeld sugere que a maioria de nossas questões morais são esclarecidas quando as compreendemos como desdobramentos de uma obsessão. Em um grau historicamente sem precedentes, estamos fixados na liberdade pessoal. Sempre que ponderamos sobre dinheiro, aborto, vacinas ou escolaridade nos debates contemporâneos, Rosenfeld diz que estamos realmente ponderando sobre argumentos relacionados à autonomia individual e a melhor forma de maximizá-la.

Como exemplo, Rosenfeld aponta para como o lema “meu corpo, minhas regras” tornou-se um grito de guerra tanto para ativistas do movimento pró-aborto quanto para ativistas do movimento antivacina. O fato de dois grupos associados a campos políticos opostos enquadrarem seu trabalho de forma tão semelhante — em defesa da tomada de decisão pessoal — ilustra bem nosso estado de espírito coletivo. Podemos discordar sobre como exercer nossas liberdades, mas raramente temos discordâncias significativas sobre se o fato de ter mais liberdade em si é realmente bom.

Rosenfeld vê evidências disso não apenas em nossa linguagem política, mas também em nossas práticas religiosas e românticas. Ela aponta para a ênfase relativamente recente nas experiências de conversão individual como evidência de autenticidade espiritual e para a mudança de casamentos arranjados para relações entre parceiros baseadas em companheirismo.

A virtude da tomada de decisão pessoal irrestrita tornou-se o que o sociólogo Pierre Bourdieu chama de doxa — uma ideia que define uma cultura. Sustentando essa doxa específica está a expansão contínua do capitalismo de mercado. “A transação baseada na escolha e na lógica do menu de opções”, escreve Rosenfeld, “tornaram-se tanto um estilo de vida quanto, como se assume amplamente, um meio de construir uma vida”.

Meu apego ao dinheiro assume uma forma preocupante diante do pano de fundo desses argumentos. Rosenfeld vê a democracia, o capitalismo e as sociedades liberais como coisas igualmente orientadas para a maximização da escolha. Contudo, à medida que governos democráticos e sociedades liberais tornam-se presas de interesses especiais, o mercado parece ser o único âmbito em que minhas escolhas ainda têm a garantia de significar alguma coisa.

Não estou convencida de que meu governo atenderá as minhas necessidades. As instituições presentes em meu bairro, que vão de lojas locais a escolas e igrejas, têm lutado para recuperar o vigor de antes da COVID. Sendo bem honesta, o dinheiro é o que oferece a promessa mais crível de uma boa vida. Ele oferece um dos poucos mecanismos restantes através dos quais posso exercer minha vontade e esperar ver algum resultado.

Rosenfeld apontaria que o controle que exerço como consumidora já é muito mais limitado do que penso. Embora nos vejamos como tomadores de decisão autônomos, diz ela, “raramente criamos as regras do jogo ou elaboramos o banquete de possibilidades”. Adultos de hoje têm uma liberdade comparativamente maior para namorar e casar conforme desejarem, mas não têm nenhum controle sobre a proliferação de aplicativos de namoro e a diminuição das oportunidades de conhecer presencialmente um potencial parceiro romântico. Eles têm escolhas, mas essas escolhas são moldadas pelas empresas que codificam seus algoritmos.

Podemos nos ver como indivíduos livres — Rosenfeld observa que grande parte do discurso contemporâneo sobre o casamento ainda se concentra no direito de escolhermos nosso parceiro —, enquanto vivemos envoltos por uma rede de condições que restringem fortemente nossa vontade. A liberdade pessoal torna-se uma experiência subjetiva, na melhor das hipóteses, e uma ilusão, na pior delas.

Então, quem, exatamente, está facilitando essa nossa relação complexa com o dinheiro? Os culpados mais óbvios são as empresas de tecnologia.

Por décadas, Shoshana Zuboff, da Harvard Business School, produziu pesquisas fundamentais que analisam os efeitos do avanço tecnológico e do domínio corporativo na formação da identidade. Sua obra-prima, A Era do Capitalismo de Vigilância, cunha o termo “economia da vigilância” para descrever o sistema em que vivemos atualmente, ao qual atribui o crédito, ou a culpa, tanto pelo conforto quanto pela dissonância da vida contemporânea.

Zuboff propõe que o capitalismo, depois de ter esgotado a competição por terras, recursos naturais, trabalho e atenção, evoluiu mais uma vez. As corporações mais agressivas não estão mais focadas nesses domínios de atividade relativamente tradicionais, mas em usar dados do consumidor para gerar “produtos de previsão que antecipam o que você fará agora, em breve e mais tarde”.

A inovação que define a era da Big Tech, diz Zuboff, é a compreensão de que estamos revelando informações sobre nós mesmos toda vez que interagimos com um dispositivo, e que essas informações podem ser usadas para manipular nossa relação com o nosso futuro. Clientes pagam empresas de tecnologia para criar “futuros comportamentais” — para afetar adolescentes emocionalmente vulneráveis antes do lançamento de um novo produto de bem-estar, talvez, ou para induzir formas corretas de indignação em eleitores de estados decisivos, antes de um ano eleitoral.

“Nós não somos os clientes do capitalismo de vigilância”, diz Zuboff.

Somos as fontes do excedente crucial do capitalismo de vigilância: os objetos de uma operação de extração de matéria-prima tecnologicamente avançada e cada vez mais inescapável. Os verdadeiros clientes do capitalismo de vigilância são as empresas que negociam em seus mercados por comportamento futuro.

Suas afirmações soariam exageradas, se não fossem acompanhadas por quase 700 páginas de documentação que expõem patentes, entrevistas, correspondências e litígios que as empresas de tecnologia geraram em suas tentativas de monetizar nosso comportamento. Ela oferece o infame “Experimento com 61 Milhões de Pessoas nas Áreas de Influência Social e Mobilização Política”, da Meta, como uma demonstração precoce de quão precisamente as empresas podem mover os usuários em direção a um resultado desejado, e o caso Gonzalez v. Google como um exemplo mais recente, e muito mais sombrio do que é possível.

Na visão de Zuboff, a vida sob o capitalismo de vigilância promete ser conveniente e divertida, uma utopia composta de entregas de produtos em dois dias e páginas “Para Você” surpreendentemente bem selecionadas. Mas esta vida exige uma extensa obediência em uma direção que não temos como compreender por completo. Para receber os confortos do capitalismo de vigilância, temos que abrir mão de nossa capacidade de imaginar uma vida independente de suas incursões. Zuboff acredita que estamos lutando pelo “direito a um tempo futuro” — pela capacidade de conceber nossa existência fora das prioridades do mercado.

Eu entendo isso de forma intuitiva. Em todos os meus dispositivos, meu futuro como mulher adulta foi claramente mapeado, exatamente da maneira que Zuboff descreve. Recebo anúncios sobre as férias em família tão desejadas, à medida que meus filhos crescem. Deparo-me com vídeos sobre a compra de pacotes de seguro para casa e carro, e sobre contas de poupança para a faculdade. Recebo regularmente conteúdo sobre decoração de interiores, assinaturas de sites voltados para o preparo de refeições, produtos de beleza antienvelhecimento e serviços de saúde de luxo, todos os quais, se eu for honesta, considero atraentes.

Para mim, o circuito fechado que Zuboff descreve — no qual as empresas plantam e cultivam nossos desejos, no qual podemos ser condicionados a salivar por tudo o que o mercado tem a oferecer, no qual nosso dinheiro obterá os itens exatos que fomos condicionados a querer — oferece uma maneira reconfortante de viver.

Ajudar aquele meu amigo, em resposta ao chamado bíblico à generosidade, apenas coloca em risco meu lugar neste ecossistema, praticamente garantindo que não haverá férias luxuosas no meu futuro, nem caixas enviadas por assinatura no correio. Ora, por que eu renunciaria a essas coisas?


Jesus notoriamente declarou que é impossível servir a Deus e a Mamom, apresentando-nos o dinheiro como uma presença espiritual à qual não podemos dedicar devoção parcial — mas somente uma fidelidade total. A agudeza de sua frase sempre me faz querer suavizar um pouco suas palavras, interpretar este ensinamento como um alerta genérico contra prioridades divididas, e não uma repreensão direta a essa obsessão persistente da humanidade por riquezas.

No entanto, mesmo uma breve consideração sobre o que o dinheiro promete e por que passamos a depender dele torna impossível ignorar o que significam as palavras de Cristo. Ele chama o dinheiro de divindade idólatra porque este visa saciar os apetites que, fosse outra a visão, colocaríamos diante do Senhor.

Todas as nossas interações com o dinheiro estão carregadas de consequências espirituais. A história sobre escolhas e individualidade de Rosenfeld é uma narrativa sobre o quão profundamente o capitalismo remodelou nosso conceito do “eu”; a análise de Zuboff sobre a economia da vigilância também funciona como um estudo sobre a insaciabilidade e a ganância humanas. Se a prática religiosa consiste em comportamentos regulares que gradualmente reconfiguram nossas afeições, então, nossa história com o dinheiro é claramente uma história de devoção.

Hoje, ninguém que esteja imerso na cultura do consumismo considerará as cartas de Paulo imediatamente compreensíveis. Para mim, a ideia de que “Ao que muito colheu, nada sobrou; e ao que pouco colheu, nada faltou” soa insana. O mesmo vale para a ideia de que os leitores de Paulo deveriam procurar imitar a igreja da Macedônia, que administrou suas circunstâncias de “extrema pobreza”, fazendo-as “transbordar em riqueza de generosidade” (2Coríntios 8.2). Por que alguém deveria, como questão prática, não reter “demais” do que ganhou ou responder, a partir de sua própria “extrema pobreza”, com atos de pródiga doação?

Talvez Paulo esteja sendo excessivamente superficial, quando elogia as pessoas por darem “segundo as suas posses e mesmo acima das suas posses” (v. 3). Sua carta, alegremente otimista em suas recomendações, indica total ignorância em relação ao terror e à necessidade que permeiam a relação entre as pessoas e seu dinheiro.

Contudo, para uma mente condicionada pelas Escrituras, Paulo não está iludido, mas sim sendo profunda e apropriadamente crítico. Sua escrita faz a ponte com uma vasta tradição, que há muito submetia o dinheiro à tarefa de honrar a Deus e às pessoas. Ele aborda a questão do dinheiro não porque este seja uma preocupação especial dele, mas por ser esta a preocupação de seu público. O objetivo de seu argumento é roubar do dinheiro sua primazia e lembrar a seus leitores a melhor forma de usá-lo — ser generosamente distribuído como uma expressão de amor. “Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo”, escreve Paulo, “que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos”.

Repercutindo a justaposição entre Deus e Mamom feita por Cristo, Paulo estabelece uma conexão entre dinheiro e adoração, argumentando que a escolha entre reter ou entregar nossos recursos é também a escolha entre limitar ou consumar nossa devoção a Deus. Podemos avaliar uns aos outros através dos olhos do mercado, ou através dos olhos do Senhor.

Mesmo passado muitos séculos, a crítica de Paulo continua verdadeira. O capitalismo de vigilância produziu estruturas que respondem rapidamente aos nossos desejos, mas essas estruturas priorizam apenas os consumidores viáveis. Aqueles de nós que ficam doentes demais, velhos demais ou empobrecidos demais para sustentar os próprios ganhos e gastos tornam-se irrelevantes com rapidez. Construímos um sistema de mercado que confere significado e conforto à vida humana e nos dá as ferramentas para cuidar uns dos outros. Mas este sistema recolhe seus serviços no momento em que entramos em um estado de vulnerabilidade real.

Bem ao contrário disso, Paulo descreve a generosidade de Cristo como um fenômeno que é ativado pelas circunstâncias que fazem falhar os sistemas feitos pelos seres humanos. Cristo, quando confrontado com nossa impotência, responde despojando-se voluntariamente de si mesmo, doando-se de forma tão extrema que não há possibilidade de que ele possa algum dia ser retribuído por isso.

Levar o exemplo de Cristo a sério, como Paulo pede a seus leitores que façam, tem um efeito vertiginoso, que remete aos momentos nas Escrituras que colocam pessoas diante de uma nova realidade resplandecente — Moisés e a voz de Deus em uma sarça ardente; Ezequiel avistando uma figura celestial em meio a uma tempestade. Esses homens ficam tão dominados pela perspectiva de um reino mais potente e profundo que o nosso, que sua única resposta é prostrarem-se no chão.

Devemos ler a carta de Paulo com o mesmo olhar que temos para esses encontros divinos, nas quais o brilho daquilo que é familiar logo se desfaz e nos expõe à imanência fascinante do sagrado. Como a chama que também é uma presença, como a tempestade que é uma visão da eternidade, a carta de Paulo é também um convite à comunhão com o Senhor. Ele apresenta nossos confrontos com a necessidade material como oportunidades para apreender uma generosidade cristocêntrica, tão destruidora de paradigmas quanto uma voz no deserto chamando meu nome, ou como uma visão que se desdobra no céu, diante de meus olhos.

Rosenfeld, ao final de seu livro, parece antecipar minha reação a Paulo. Toda doxa passa por um acerto de contas, diz ela, e a moralidade da liberdade pessoal, tão inquestionável e evidente quanto parecia ser em minha vida, está revelando suas limitações. A sociedade está vivendo um impasse, paralisada por conflitos que tratam cada disputa política como um jogo de soma zero por autonomia, endividada perante o capital de vigilância pelos prazeres desiguais do consumo otimizado. Ela sugere que aproveitemos esta oportunidade para “começar a nos perguntar, sem preconceitos, se a escolha, como nós a conhecemos, é realmente tudo o que a liberdade deveria ser”.

Em outras palavras, se estamos enxergando fissuras em nosso universo moral, talvez devêssemos olhar melhor para ver o que existe nelas. Se me sinto atraída pelas cartas de Paulo, é provavelmente porque elas se parecem com escritos de alguém que já vislumbrou o que está do outro lado.

Paulo, cuja ortodoxia o levou a perseguir violentamente a igreja, estava no caminho de Damasco, quando foi detido. Cristo perguntou a Paulo: “Saulo, Saulo, por que você me persegue? Resistir ao aguilhão só trará dor a você!” (Atos 26.14).

Com poucas palavras, Cristo abalou a compreensão que Paulo tinha de sua própria vida, apresentando-a não como uma história de piedade e certeza, mas como uma luta contra uma presença que Paulo percebe, mas não consegue aceitar.

Quando leio o relato desta conversão, também quero que seja um relato da minha própria vida. Eu também sou uma pessoa que tem sido obcecada e perturbada pela ética do evangelho sobre a generosidade. Eu também quero estar à beira de uma realidade que intuí, mas ainda assim hesitei em entrar. Quero, como Paulo, renunciar ao meu direito de resistir aos aguilhões.

No final, fui até meu marido. Ele já estava preparado para dar o dinheiro ao nosso amigo. E disse a ele que já tinha minha resposta.

Yi Ning Chiu escreve a newsletter Please Don’t Go [Por favor, não vá!]. Anteriormente, ela foi colunista do Inkwell, o projeto criativo NextGen da Christianity Today.

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