Quem sou eu? E como posso descobrir quem sou?
Essas perguntas são tão velhas quanto a própria humanidade; eram feitas no mundo antigo tanto quanto são feitas hoje. Já no quarto século a.C., o mote “conhece-te a ti mesmo” estava inscrito em cima da entrada do templo de Apolo, em Delfos.
Séculos antes, o rei Davi fez uma pergunta semelhante sobre a importância humana: “Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes?” (Salmos 8.4). Baseando-se em Gênesis 1, ele respondeu:
Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos, e o coroaste com glória e com honra. Tu o fizeste dominar sobre as obras das tuas mãos; sob os seus pés tudo puseste (v. 5-6)
Embora a Bíblia tenha muito mais a dizer sobre o que significa ser humano, as palavras de Davi aqui nos alertam para algo fundamental: “Quem sou eu?” é algo inseparável das perguntas: “O que sou eu?” e “Qual é o meu propósito?”.
Não é possível, neste breve artigo, examinar tudo o que as Escrituras têm a dizer sobre essas questões. Meu objetivo aqui é bem mais modesto: destacar quatro abordagens diferentes para chegar a respostas — abordagens que competem entre si não apenas no mundo, mas também na igreja.
A abordagem tradicional (às vezes chamada de essencialismo) vê a identidade como algo que nos é dado para que seja recebido e para que vivamos em conformidade com ela. Há uma grande sabedoria nisso, pois não é preciso muita reflexão para perceber que quem e o que somos são coisas determinadas por uma série de fatores sobre os quais não temos controle, fatores como onde nascemos, de quem nascemos, de que sexo somos ou que nome nos deram.
De fato, identificar pessoas em termos dessas características é totalmente bíblico. Relembre o momento registrado em João 1, no qual Filipe diz a Natanael: “Achamos aquele sobre quem Moisés escreveu na Lei, e a respeito de quem os profetas também escreveram: Jesus de Nazaré, filho de José” (v. 45). Nome, lugar, sexo e relacionamento são elementos-chave da identidade — mesmo no caso de Jesus!
Essas características ainda são fundamentais para a forma como nos autoidentificamos hoje. Meu nome é X; nasci na cidade Y, no ano Z; sou filho de A e B; sou casado com C e sou pai de D. Em suma, a abordagem tradicional está bem viva e passa bem, obrigado.
No entanto, ela permanece em nítida tensão com uma abordagem mais contemporânea, conhecida como construcionismo. Nesta visão, a identidade é algo que nós criamos; é um projeto que empreendemos, e não um presente que recebemos. Consequentemente, muitos não perguntam mais “Quem sou eu?”, mas sim “Como eu me identifico?”.
Há uma dose de verdade aqui também, pois muitas coisas a nosso respeito não estão gravadas em pedra. É por isso que nós (devidamente) falamos de desenvolvimento da identidade em crianças. À medida que crescemos, temos todos os tipos de experiência e tomamos todos os tipos de decisão que ajudam na formação de quem somos e de como nos apresentamos no mundo. A identidade é, portanto, composta por elementos primários e secundários. Os elementos primários são aqueles que não podemos escolher nem mudar, enquanto os elementos secundários são mais superficiais, voluntários ou experienciais.
Mas esse tipo de distinção entra em conflito com o espírito autônomo de nossa era, que está determinado a substituir o recebimento [de uma identidade] pela construção [de uma identidade]. Muitos, portanto, afirmam que o que nos é dado pode ser substituído pela escolha. “Este corpo que temos nós recebemos ao nascer”, argumenta Juno Dawson, que se identifica como transgênero, mas “as mudanças estão ao nosso alcance. Podemos ir contra a corrente […] Nenhum de nós está preso ao próprio corpo”.
Em vez de escolher entre o essencialismo e o construcionismo, alguns optaram por uma via intermediária, que afirma partes de ambos. A abordagem de síntese (às vezes chamada de interacionismo) reconhece a diferença e a relação entre os elementos fixos e flexíveis da identidade. A abordagem tradicional nunca negou que existam coisas sobre nós que podem ser mudadas — nossos nomes, por exemplo, ou onde moramos — de modo que a distinção é realmente de detalhes e graus.
Em qualquer uma dessas abordagens, o desafio para o secularista é a questão do “Quem diz?”. Quem diz o que pode e o que não pode ser mudado? Quem diz o que é primário e o que é secundário? Quem diz que uma pessoa que nasceu com um corpo masculino não pode ser ou não pode vir a se tornar uma mulher (ou vice-versa)?
A resposta para a última pergunta é bem direta, do ponto de vista bíblico. Pois se há uma coisa que as Escrituras deixam abundantemente clara é que Deus leva nosso corpo muito a sério, pois nosso corpo é fundamental para quem somos e para o que somos. (Para mais detalhes, veja The Body God Gives [O Corpo que Deus Dá]). Mas, se abandonarmos essa cosmovisão — e particularmente se a substituirmos por uma perspectiva construcionista — a resposta pode não parecer tão óbvia.
Embora em alguns aspectos sejam menos confusas, até mesmo as abordagens à identidade conhecidas como tradicional e de síntese encontrarão problemas, se ignorarem a Deus. Não apenas por deixarem de reconhecer sua existência, mas — uma vez que fomos feitos por ele e para ele, como bem disse Agostinho — por não encontrarmos descanso (nem a nós mesmos) até que o encontremos e nos encontremos nele. Assim, nunca começaremos a saber quem somos até que primeiro saibamos de quem somos.
O teólogo Michael Horton expressa isso de forma sucinta: “O ‘self’ (o “eu”) — entendido como um indivíduo autônomo — não existe”. É por isso que o chamado paradoxo da identidade (o fato de que não encontramos a nós mesmos olhando para dentro de nós mesmos) não é realmente tão paradoxal. Nós não encontramos a nós mesmos olhando para dentro [de nós mesmos] porque não somos derivados de nós mesmos. Encontramo-nos apenas olhando para fora, para os outros e, em última análise, para cima, para o nosso Criador.
E assim como não criamos a nós mesmos, também não podemos redimir a nós mesmos. É por isso que nós, cristãos, afirmamos que encontramos a nossa identidade em Cristo. É de se admirar que Jesus tenha dito: “quem, por minha causa, perde a própria vida a encontrará” (Mateus 10.39)? Pois é somente ele, o Salvador dos pecadores, que pode nos ensinar a verdade sobre nós mesmos, transformar-nos em nosso verdadeiro eu e nos capacitar a cumprir o propósito que Deus nos deu.
Robert S. Smith é o autor de The Body God Gives: A Biblical Response to Transgender Theory [O Corpo que Deus Dá: Uma Resposta Bíblica à Teoria Transgênero], obra escolhida como Livro do Ano para o Prêmio de Mérito da CT.