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Cuba sofre com a falta de combustível, alimentos e energia. Cristãos oferecem ajuda e esperança.

O recente bloqueio de petróleo, imposto por Trump, agravou uma situação que já era desesperadora.

Membros da Iglesia Hermanos en Cristo Faro de Luz descarregam suprimentos que serão distribuídos para pessoas da igreja e da comunidade.

Membros da Iglesia Hermanos en Cristo Faro de Luz descarregam suprimentos que serão distribuídos para pessoas da igreja e da comunidade.

Christianity Today March 20, 2026
MCC / Fairpicture Photo / Alfredo Sarabia

Moisés Pérez Padrón, de 40 anos, viveu em Cuba a vida toda. Ele afirma nunca ter visto uma crise tão grave quanto a que o país enfrenta atualmente.

“As ruas estão cheias de lixo. Vemos crianças e idosos revirando o lixo à procura de comida ou de algo para vender”, disse Pérez Padrón, diretor do escritório da Rádio Trans Mundial (TWR, na sigla em inglês) em Cuba. “Os cortes de energia duram mais de 12 horas por dia, e as famílias estão destruindo os móveis da casa para usar a madeira para cozinhar.”

Nascido em um lar cristão, Pérez Padrón é filho do administrador do único asilo batista que existe no oeste de Cuba. Ele estudou no Seminário Teológico Batista de Havana, onde agora atua como vice-reitor. É também copastor da Igreja Batista de Salem, em Arroyo Apolo, um bairro na zona sul de Havana.

Diariamente, Pérez Padrón entra em um estúdio de gravação para produzir Mensagens de Fé e Esperança, um podcast devocional de cinco minutos que ele envia por meio de grupos do Facebook e do WhatsApp. Sua voz também pode ser ouvida no rádio, nas transmissões da TWR, na frequência 800 AM, a partir da ilha caribenha de Bonaire.

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Nas últimas semanas, suas mensagens têm se concentrado em depositar a esperança em Deus, e não em líderes políticos. Citando Isaías 28.16, ele enfatiza a firmeza, a solidez de Cristo, a preciosa pedra angular.

“Vamos construir sobre a rocha sólida”, disse ele. “Vamos confiar em Cristo e em sua Palavra — não em acordos políticos ou em falsas religiões, mas nele”.

Em 29 de janeiro, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva que ameaça impor tarifas ou sanções a qualquer país que envie petróleo para Cuba, numa tentativa de forçar a ilha, governada pelo Partido Comunista, a realizar reformas políticas e econômicas significativas. Quatro meses antes disso, o furacão Melissa devastou as cinco províncias de Cuba, desalojando mais de 735.000 pessoas e destruindo casas e infraestrutura básica. Além disso, Cuba enfrenta um acentuado declínio populacional, devido a baixas taxas de natalidade e ao êxodo em massa de jovens.

Em meio a todo esse caos, igrejas e ministérios cristãos têm se mobilizado para fornecer alimentos, roupas, produtos de higiene e, acima de tudo, consolo espiritual. Cerca de 85% da população cubana se identifica como cristã, segundo o World Christian Database [Banco de Dados Cristão Mundial]. A maioria da população é católica, enquanto cerca de 11% são evangélicos. Apesar de enfrentarem perseguição, que inclui detenções arbitrárias, ameaças e assédio (veja o quadro “Liberdade Religiosa em Cuba”, no fim do artigo), os cristãos conseguem, em grande parte, praticar sua fé livremente no país.

“Você pode ir às igrejas; elas estão abertas e o governo sabe onde estão. Não há impedimento para a realização de cultos nessas igrejas aos domingos”, disse Pérez Padrón. “Mas o verdadeiro problema em Cuba em relação à expressão religiosa é que… o espaço é limitado. Você não pode simplesmente decidir construir uma nova igreja.”

Um dos ministérios cristãos mais consistentes tem sido o Comitê Central Menonita (MCC), que atua em Cuba há 43 anos, e atualmente apoia cinco programas sociais que são tocados pelas igrejas da Associação dos Irmãos em Cristo (BIC) e pelo Centro Cristão de Reflexão e Diálogo, uma organização cristã que promove os direitos humanos e apoia populações em situação de vulnerabilidade.

No ano passado, o MCC enviou seis contêineres com ajuda humanitária para Cuba, incluindo produtos como carne em conserva, kits de primeiros socorros, produtos de higiene feminina, kits para bebês, material escolar, sabão líquido para lavar roupas e lençóis.

Jacob Lesniewski, que é codiretor regional do MCC para a América do Sul, México e Cuba, reside na Cidade do México, mas visita a ilha com frequência, tendo feito sua última visita em janeiro. O que ele viu o deixou com o coração partido.

“Quando você chega em Havana, percebe que algo está errado”, disse ele, referindo-se às ruas cheias de lixo, aos frequentes apagões e à falta de combustível nos postos de gasolina. “Mas isso não é nada, se comparado ao que você começa a ver à medida que viaja mais para o leste. Cidades inteiras parecem cidades-fantasmas. Vemos fábricas, escolas e hospitais que antes funcionavam, mas agora estão vazios e em estado de grave deterioração.”

Um surto de chikungunya infectou mais de 50.000 pessoas, desde novembro de 2025, e causou 55 mortes, devido à escassez de medicamentos.

Lesniewski reconhece os enormes desafios logísticos envolvidos na distribuição de ajuda. Desde que começou o embargo do petróleo, as congregações da BIC não puderam mais usar caminhões para distribuir suprimentos. Em vez disso, os suprimentos tiveram que ser transportados em carroças puxadas por cavalos subnutridos. Às vezes há gasolina disponível, mas precisa ser comprada em dólar, em vez de pesos cubanos, e é extremamente cara.

No entanto, o processo burocrático para trazer suprimentos para o país revelou-se surpreendentemente simples.

“Alguém poderia pensar que, em um país comunista, haveria obstáculos intermináveis”, disse ele. “Mas é exatamente o oposto — eles estão ansiosos para receber ajuda.”

Mayra Espino, 70 anos, socióloga e pesquisadora do Centro Cristão de Reflexão e Diálogo, teve inúmeras oportunidades de deixar Cuba, quando atuou como professora visitante na Espanha, em Honduras e nos Estados Unidos. No entanto, ela sempre optou por ficar.

Sua decisão reflete o que Lesniewski chama de “a resiliência obstinada dos cubanos”. Apesar de tudo, muitos amam sua ilha e continuam encontrando maneiras de lidar com a crise.

Como acadêmica, Espino identifica três causas principais por trás da situação atual.

“As dificuldades que estamos enfrentando começaram antes mesmo do bloqueio de petróleo imposto por Trump”, disse ela. “Primeiro, o êxodo de profissionais qualificados acelerou depois da pandemia. Segundo, o governo atual não conseguiu oferecer oportunidades à população. E terceiro, o bloqueio econômico levou muitos negócios — especialmente no setor de turismo — à falência.” 

Ela acrescenta que os cristãos evangélicos ganharam reputação por seu trabalho social em uma ilha frequentemente atingida por furacões. Depois que quatro furacões devastadores atingiram Cuba, em 2008, igrejas locais consertaram os telhados de seus vizinhos não cristãos antes mesmo de consertar os de seus próprios membros — um gesto que lhes rendeu respeito e boa reputação.

“Em um país onde o Estado não consegue mais fornecer serviços básicos, como saúde e educação, as igrejas cristãs se tornaram espaços essenciais para a sociedade — não apenas para receber ajuda humanitária ou consolo espiritual, mas também para construir comunidade”, disse Espino.

A escassez de combustível também levou a uma indignação pública com a corrupção. Uma investigação do jornal El Nuevo Herald, de Miami, revelou que Cuba revendeu para a China 60% do petróleo venezuelano que recebeu, e os lucros da transação supostamente foram parar nos bolsos dos líderes do Partido Comunista Cubano.

Em meio à frustração e ao desespero crescentes, Pérez Padrón se preocupa principalmente com a segurança de sua família. Ele e a esposa têm duas filhas, de 5 e 6 anos. Com o aumento da fome, a criminalidade também cresceu, principalmente em grandes cidades como Havana e Santiago, segundo ele.

Sua voz embarga, quando explica como contou às filhas por que a família escolheu permanecer em Cuba, em vez de partir.

“Não contamos todos os detalhes do que está acontecendo, para que elas não fiquem preocupadas”, diz ele. “Em meio às dificuldades que enfrentamos, mostramos a elas que ainda há motivos para agradecer a Deus. Eu tenho um emprego. Elas podem ir à escola. Deus é bom.”

Liberdade Religiosa em Cuba

Embora tenha sido educado por padres jesuítas, o ditador Fidel Castro estabeleceu um sistema comunista ateu em Cuba, após assumir o poder, em 1959. Seu governo perseguiu pastores cristãos e os enviou para campos de trabalho forçado, juntamente com homossexuais, comerciantes e opositores políticos do regime.

Muitos cristãos fugiram do país ou abandonaram a fé, e a igreja encolheu significativamente. Durante as décadas de 1970 e 1980, as comunidades cristãs sobreviveram, apesar da censura e da discriminação, por meio de grupos de fiéis, pequenos, porém resilientes.

Ao mesmo tempo, sob o governo de Castro, os índices de alfabetização em Cuba aumentaram drasticamente — 99% da população sabia ler e escrever aos 15 anos de idade — e a desnutrição tornou-se relativamente rara. Esses avanços sociais permitiram que Fidel Castro mantivesse um certo nível de popularidade.

As condições começaram a mudar na década de 1990, após o colapso da União Soviética desencadear tanto uma crise econômica quanto um renovado interesse pela fé. Em 1992, o Partido Comunista de Cuba emendou a Constituição, redefinindo Cuba, que passou de um Estado “ateu” para um Estado “laico”.

Grande parte do mérito dessa mudança é atribuída à Igreja Católica. As visitas papais à ilha tornaram-se uma prioridade para o Vaticano, a partir da histórica visita do Papa João Paulo II, em 1998. No dia seguinte ao seu encontro com Castro, o governo restabeleceu o Natal como feriado nacional.

O Papa Bento XVI visitou a ilha em 2012 e, pouco depois, o governo permitiu as celebrações da Sexta-Feira Santa. Em 2016, um evento religioso histórico ocorreu no aeroporto de Havana, quando o Papa Francisco se encontrou com o Patriarca Kirill da Igreja Ortodoxa Russa, marcando o primeiro encontro entre um primaz católico e um ortodoxo desde 1054.

O trabalho evangelístico também aumentou durante o governo Obama. Em 2015, o governo dos EUA incluiu a “atividade religiosa” entre os 12 motivos que autorizavam americanos a viajarem para Cuba. Naquele mesmo ano, os batistas enviaram seus primeiros missionários em tempo integral para a ilha, em 54 anos.

De acordo com o relatório mais recente do Departamento de Estado dos EUA sobre liberdade religiosa, os pentecostais e os batistas são provavelmente as maiores denominações protestantes do país, com cerca de 150.000 e 100.000 membros, respectivamente.

As igrejas domésticas — recentemente autorizadas pelo governo — representam outro segmento importante e frequentemente não registrado da comunidade cristã. Segundo a Associação para o Estudo da Economia Cubana (ASCE), entre 20.000 e 30.000 igrejas se reúnem nas casas, em todo o país.

Outros sistemas de crenças também permanecem influentes. Estima-se que 70% dos cubanos pratiquem religiões com raízes na África Ocidental — como a Santeria —, principalmente quando buscam ajuda imediata para questões como fertilidade, doenças ou negócios.

Apesar da recente abertura, a censura persiste. É proibida a circulação de jornais e revistas cristãs na ilha, e grupos religiosos são impedidos de possuir estações de rádio ou televisão. A criação de denominações religiosas que não existiam antes de 1959 também é restrita.

A organização Portas Abertas classificou Cuba como o país mais perigoso da América Latina para cristãos, em sua mais recente Lista Mundial da Perseguição, colocando o país em 24º lugar no ranking mundial. Enquanto isso, o Observatório Cubano de Direitos Humanos relatou pelo menos 873 violações à liberdade religiosa em 2025, incluindo detenções arbitrárias, vigilância invasiva, interrogatórios repetidos, ameaças, assédio e — em alguns casos — abuso físico ou verbal de menores em escolas, por causa de suas crenças religiosas.

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