Tracey e eu embarcamos na aventura do casamento três décadas atrás, com um vento considerável soprando a nosso favor. Tínhamos namorado por quatro anos, participado de um curso sobre casamento, estudado vários livros sobre o tema e superado uma série de crises que poderiam ter acabado com nosso relacionamento, incluindo uma morte na família.
E tudo isso não foi suficiente para evitar a tempestade que quase nos tragou, logo depois da lua de mel.
Assistir à derrocada do relacionamento de um amigo, que era mais antigo do que o nosso, justamente quando o nosso passava por sua primeira grande correção de rota foi algo angustiante e assustador. Angustiante porque meu amigo não arrumou uma alternativa, quando os estudos de pós-graduação de sua esposa lhe apresentaram uma falsa dicotomia ou um falso dilema: ficar na cidade para cuidar de sua mãe ou ir atrás da própria esposa em outra cidade. Assustador porque a fé compartilhada, a disposição de serem felizes e cargos de ensino na mesma escola cristã não provaram ser proteção suficiente, para esse casal, contra as flechas de um Adversário implacável.
O fim triste do relacionamento deles solidificou a nossa determinação de priorizar nosso próprio casamento, independentemente do que o futuro nos reservasse, bem como a nossa determinação de reavaliar com regularidade a força do nosso vínculo, mesmo enquanto eu mergulhava de cabeça nos aspectos estressores da vida acadêmica. Também abraçamos a interdependência que Deus teceu na criação, buscando um relacionamento de trocas e prestação de contas com outros casais que pensavam como nós.
Seguem algumas das coisas que aprendemos — e colocamos em prática, mesmo que de forma imperfeita — ao longo de 30 anos de casamento. Cada observação é acompanhada de um par que elabora ou qualifica a outra, um lembrete de que nenhuma ideia deve ser tomada como algo absoluto.
Família de origem
- As pressões distintas para “deixar pai e mãe e unir-se à sua mulher” e para “honrar pai e mãe” nos convidam a uma tensão dinâmica e vitalícia. Cortar laços com os pais para se “autorrealizar” ou buscar mais facilmente nossos sonhos individuais — quaisquer que sejam eles — é algo tão preocupante quanto permitir que a opinião dos pais dite nossas grandes decisões.
- As questões da família de origem que são discutidas no aconselhamento pré-matrimonial reaparecem ao longo de uma vida inteira juntos. Oferecer um espaço seguro para que os cônjuges trabalhem novas manifestações dos mesmos velhos problemas é uma dádiva.
Mudanças
- O conselho que dei à minha irmã mais nova, anos atrás, em uma gravação filmada na recepção do casamento dela, é que a pessoa com quem você se casa não é a mesma com quem você acorda um ano depois: estamos sempre sendo entretecidos juntos, mesmo depois que saímos do útero. E comprometer-se a amar uma pessoa que está em constante evolução exige flexibilidade, uma disposição para aceitar reviravoltas inesperadas, não previstas pelo lema “na saúde e na doença”.
- Tirando o meu relacionamento com Cristo, há facetas da minha identidade que são negociáveis. A unidade pressupõe uma disposição para mudar, a fim de atender às necessidades do meu cônjuge.
Conflito
- O silêncio é prata, e não ouro. O Livro de Provérbios nos lembra que a sabedoria está ciente de quando deve morder a língua, sim (10.19); porém, recusar-se terminantemente a expressar sua perspectiva assemelha-se a uma humildade apenas de curto prazo. Estar abertos à divergência e à resolução de conflitos é mil vezes preferível do que alimentar ressentimentos ou depressão reprimidos e cada vez maiores. O ferro afia o ferro.
- Em nossos anos de namoro, Tracey me ensinou que o momento certo importa quando levantamos questões difíceis. Esperar algumas horas para discutir alguma preocupação — em vez de exigir um tête-à-tête e uma resolução imediatos — nos encoraja a abrir mão do controle, a confiar em Deus durante um processo potencialmente longo e a cobrir o assunto em oração.
Comunidade
- Todos se beneficiam de aconselhamento para relacionamentos, independentemente de sua saúde mental, e os terapeutas oferecem uma entre muitas opções viáveis. Pequenos grupos [onde podemos ser] vulneráveis, parceiros confiáveis para conversar e prestar contas e amigos próximos têm abençoado a Tracey e a mim com um apoio significativo, ao longo dos anos.
- Discutir com outras pessoas aspectos do relacionamento com base em obras de ficção proporciona uma maneira segura de abordar questões relacionais difíceis sem ter que apontar o dedo para ninguém nem revelar informações sensíveis. Clubes do livro e noites de cinema nos permitem falar indiretamente sobre questões tensas que impactam nossos relacionamentos, lançando as bases para um diálogo posterior.
Sexo
- Agendar momentos para sexo pode parecer pouco romântico para uma cultura que é condicionada pela televisão e pelo cinema a esperar encontros mutuamente satisfatórios e extasiantes, nascidos de um sentimento espontâneo. Descobrimos que reservar regularmente um tempo para a intimidade do casal nos ajuda a nos preparar para dar o nosso melhor, para ficarmos atentos e sermos pacientes e flexíveis — qualquer que seja nosso nível de energia atual.
- O ato de fazer amor que se caracteriza por prazer e honra — e não por ansiedade e vergonha — requer intencionalidade. Falar abertamente sobre sexo a cada poucos meses nos ajuda a recalibrar nossos esforços e nossas expectativas, para atender às necessidades um do outro, as quais vão mudando conforme nossas agendas e responsabilidades mudam.
Caminhadas
- Assim como dar uma caminhada estimula a criatividade de muitos que enfrentam um bloqueio criativo, sair para fazer longas caminhadas pode propiciar as condições ideais para a resolução de problemas ligados a dificuldades relacionais. Caminhar juntos exige encontrar um ritmo comum, exige uma sincronicidade que preserve a liberdade do movimento. É menos provável que nos sintamos encurralados quando estamos em movimento, o que sustenta o engajamento e desencoraja a fuga.
- Levou 20 anos para Tracey e eu percebermos que precisávamos reservar um tempo para discutir assuntos logísticos, entre eles, assuntos como nossas agendas, dinheiro e criação de filhos; mas esse tempo tinha de ser antes do nosso dia da semana em que saímos juntos, para que esses assuntos não surgissem no momento em que tentávamos relaxar juntos. Na última década, uma caminhada no meio da semana, antes do dia em que saímos juntos, preservou essas preciosas horas [de descanso] no fim de semana.
Aprofundamento
- Quando estávamos no quinto ano de casamento, e com nosso primeiro bebê a caminho, Deus revelou que nossas vidas ocupadas haviam se distanciado demais, transformando-se em trilhas separadas e paralelas. Reservar algumas horas para o casal, todo domingo à tarde, para um piquenique em que orávamos no início e no fim, algo que chamamos de “aprofundamento”, nos permitia ter momentos regulares de vulnerabilidade. E também lançou as bases para o nosso tempo em família, longe das demandas domésticas, depois que nossas filhas nasceram.
- Quando eu estava inseguro sobre se deveria me especializar em literatura renascentista ou vitoriana na pós-graduação, acabei escolhendo a última porque Tracey também adorava literatura vitoriana. Dois anos depois, meu campo secundário de interesse tornou-se a ficção irlandesa, após uma viagem a dois à Ilha Esmeralda. Mais recentemente, participamos juntos de conferências sobre cristianismo e literatura por todo o país. Cultivar interesses em comum, sempre que possível, constitui mais um elemento essencial para a solidez do casamento.
Aventura
- O romance nos faz cogitar passatempos com que não estamos acostumados, quando estes são coloridos pelo entusiasmo da pessoa amada, encorajando-nos a experimentar esportes, belas artes, jogos, espetáculos, atividades ao ar livre e outras aventuras que, de outra forma, jamais experimentaríamos. Uma disposição para ao menos experimentar — e, talvez, aprender a apreciar — algo que nosso cônjuge gosta enriquece nossa própria experiência e melhora nossa compreensão do que o motiva.
- Experimentar coisas novas juntos pode reacender um espírito de aventura. Comprar um caiaque durante o confinamento da COVID-19, começar a fazer aulas de salsa e bachata no ano passado e, recentemente, explorar um novo cantinho da Califórnia (a “vitoriana” Ferndale, altamente recomendada!) foram coisas que renovaram, cada uma à sua maneira, a [nossa] paixão romântica.
Serviço
- Convencidos de que nosso casamento é nosso ministério mais importante, Tracey e eu tentamos priorizar o tempo juntos. Antes de ministrar um curso sobre casamento, fazer aconselhamentos pré-matrimoniais, liderar um clube do livro, agendar uma série de filmes ou participar de um estudo bíblico, reajustamos nossas agendas para proteger nosso relacionamento. Se uma crise deixa claro que erramos o alvo, nós recalibramos.
- O serviço, da mesma forma que o trabalho, pode nos proporcionar um senso de afirmação vindo das pessoas que estamos ajudando. Tal atenção descomplicada pode, eventualmente, competir com a afeição mais complexa e temperada de nosso cônjuge. Lembrar-se de valorizar aquele que enxerga mais facetas do nosso caráter do que apenas as qualidades que cuidadosamente selecionamos para mostrar a um público externo e entusiasmado é uma proteção contra a devoção dividida e a infidelidade.
Conhecimento do outro
- Ser paciente e bondoso, duas qualidades que aparecem na abertura da famosa definição de amor feita pelo apóstolo Paulo (1Coríntios 13.4), exige escuta ativa e observação. Praticar a paciência é difícil, se sou continuamente surpreendido por padrões comportamentais que deixei de processar. Da mesma forma, é difícil antecipar o que nosso cônjuge verá como bondade, a menos que tenhamos uma compreensão rica de suas preferências.
- Experiências compartilhadas nos ensinam muito sobre o caráter de nosso cônjuge, mas presumir, a qualquer momento, que o compreendemos totalmente nos impede de aprender mais. Terminar as frases um do outro é menos romântico do que as comédias românticas sugerem e, muitas vezes, é fruto da impaciência. O melhor é permitir que haja espaço e tempo para sermos surpreendidos por novas revelações.
Tipos de personalidade
- A constância de Cristo (Hebreus 13.8) não exige de seus seguidores uma retidão uniforme. Em vez disso, ela nos liberta para exercer o mesmo princípio de maneiras diferentes. Expressões individuais de virtudes, como o domínio próprio, podem diferir radicalmente, ainda que permaneçam alinhadas com a vontade de Deus. Como não contamos com a telepatia, jamais saberemos as muitas escolhas que nosso cônjuge faz calado, para ser fiel a Deus e manter vivo o nosso casamento.
- A psique de ninguém pode ser destilada para caber nas categorias fornecidas por testes de personalidade, como o Indicador de Tipo Myers-Briggs ou o Eneagrama. Somos muito mais do que meras fórmulas. Tais ferramentas, no entanto, fornecem palavras e conceitos úteis para explicar nossas tendências a um cônjuge, particularmente quando acreditamos que esse instrumento revelou alguma verdade difícil de captar sobre nós mesmos.
Perdão
- Não manter uma “lista dos erros” (1Coríntios 13.5) cometidos pelo nosso cônjuge torna-se mais plausível quando consideramos a natureza tendenciosa e altamente seletiva da memória. Por mais dolorosa que tenha sido uma ofensa no passado, é muito provável que tenhamos contribuído em parte para que ela acontecesse — o que é uma verdade inconveniente, quando nos colocamos no papel de vítimas totalmente inocentes. Lembrar que cada pessoa processa de forma diferente a série de eventos que culminam em um erro pode diminuir a pressa em culpar o outro e pode facilitar o perdão.
- Perdoar a pessoa amada pode parecer mais difícil do que amar nossos inimigos; a proximidade de um cônjuge coloca sal na ferida aberta. Em circunstâncias raras, o perdão pode exigir espaço e tempo.
Autocuidado
- O mandamento de amar os outros como a nós mesmos implica uma reciprocidade vital entre o cuidado consigo mesmo e a bondade para com os outros. Um benefício frequentemente negligenciado do autocuidado (sono, exercícios, dieta, relaxamento) é que ele retarda a chegada do dia em que nosso cônjuge precisará despender recursos extras para cuidar de nós. Tal autodisciplina pode até prevenir o início de doenças neurodegenerativas, uma possibilidade para Tracey e para mim, dado os nossos históricos familiares.
- Não importa quão confortavelmente isolados nós dois possamos nos tornar, desenvolver e fortalecer outras amizades nos ajuda a cuidar de nós mesmos. Os seres humanos foram criados para viver em comunidade. Quando nossos ninhos ficaram vazios e a camaradagem construída sobre o relacionamento com nossos filhos desapareceu, Tracey e eu não apenas compramos mais jogos de tabuleiro para duas pessoas, mas também fomentamos novas amizades, organizando noites para jogar Wingspan com amigos duas vezes por mês.
Confiança
- O termo gaslighting sai com extrema facilidade da boca de jovens com pouca experiência de relacionamento e nenhuma consciência contextual dos dois filmes que deram origem ao conceito. Adultos também abusam do conceito, comportando-se como se cada mentira fosse uma tentativa maliciosa de sabotar sua saúde mental. A popularidade do termo, no entanto, ressalta uma verdade importante: a confiança concede poder, poder para nutrir o bem-estar emocional um do outro — ou para envenená-lo. Em grande medida, somos os guardiões do nosso cônjuge.
- Quando nosso parceiro pode confiar em nós para carregar seus fardos (Gálatas 6.2) e para orar por cura, após ter nos confessado seu pecado (Tiago 5.16), lhe oferecemos um lembrete tangível da misericórdia de Cristo. Como observou Elizabeth Barrett Browning: “O que é possível para Deus nos é ensinado pelo amor que Ele demonstra ao mundo”.
Sonhos
- A justiça é um ideal útil, mas imperfeito. Quando nossas filhas tinham idade suficiente para expressar suas preferências, nossa família consistentemente se revezava na escolha de jogos, filmes, restaurantes e excursões de fim de semana. No casamento, entretanto, uma mentalidade 50/50 pode significar um golpe mortal na paz e na felicidade. Exigir que tudo seja precisamente justo convida a uma contabilização infinita [de nossos atos], baseada na falsa suposição de que duas pessoas algum dia darão o mesmo peso às mesmas ações.
- Conversar abertamente sobre nossos sonhos individuais para o futuro mostra ser algo mais fácil nos dias áureos do começo do romance do que depois de viver anos juntos, anos em que se criam trilhas por um caminho que parece inevitável. Reconsiderar seriamente as metas de longo prazo um do outro, a cada poucos anos, pode alterar trajetórias e levar a uma realocação de recursos, mas também aumenta a probabilidade de realização mútua anos depois. O amor não busca seus próprios interesses.
Extra
- No momento da publicação deste artigo, Tracey e eu estávamos casados, na verdade, há 31 anos; então, deixarei uma sugestão extra e sucinta extraída de Um Vento na Porta, de Madeleine L’Engle: “Amor não é como você se sente. É o que você faz”.
Paul Marchbanks é professor de literatura e cinema na California Polytechnic State University. Seu canal no YouTube é “Digging in the Dirt” [Cavando a terra]. Ele e Tracey lecionam anualmente um curso de 10 semanas sobre casamento para casais locais.