No ano passado, eu estava em uma conferência com pessoas que eu já “conhecia” há algum tempo pela internet, mas que acabara de encontrar pessoalmente, pela primeira vez. Em certo sentido, já éramos conhecidos — eu lia os textos deles, eles liam os meus — e foi exatamente isso que me colocou em apuros.
Todos nós somos pais, estamos na faixa dos 30 aos 40 anos, e temos filhos em idades que vão de adolescentes até bebês. Conversávamos sobre tecnologia digital. Todos sabiam qual é a minha posição sobre tecnologia em geral e sobre crianças em particular: mantenha a primeira longe das últimas, a todo custo. Onde quer que eu vá, sou um ludista de carteirinha. Quero igrejas sem telas, ministérios de jovens sem redes sociais, pais sem celulares nas mãos e crianças com livros nas mãos — de preferência ao ar livre.
E foi este o meu deslize. Quando falava do tema crianças e tecnologia, sugeri uma solução intermediária que minha esposa e eu havíamos adotado. Como não estávamos dispostos a deixar que nossos filhos, que estavam no ensino fundamental, tivessem smartphones, concordamos em comprar um iPad para eles. Antes mesmo de eu explicar meu raciocínio, meus novos amigos já estavam de queixo caído.
Você está falando sério?, eles perguntaram. Sim, respondi — mas agora já me sentia inseguro. Eles olharam para mim. Eu olhei de volta. De repente, me perguntei se estava em território inimigo.
Qualquer pai ou mãe está fadado a se sentir inadequado de tempos em tempos, temendo o julgamento de seus pares. Nesse caso, o julgamento sequer estava oculto. Aqueles irmãos na fé tinham me considerado um aliado na luta. Agora, eles viam minhas verdadeiras cores. Eu era um vira-casaca: alguém que falava com autoridade em seus escritos, mas, como descobriram, falhava na hora de colocar isso em prática. Que escândalo!
Para ser justo, assim que a poeira do choque baixou, eles me ouviram e escutaram com gentileza. Expliquei nossas circunstâncias e raciocínio: nossos filhos frequentam a escola pública. A maioria dos amigos deles tem smartphones, e eles têm tarefas de casa que precisam ser entregues online. Concluímos que um tablet bem básico — com apenas uns poucos aplicativos e toneladas de restrições, configurado para música, lição de casa e troca de mensagens com amigos — era uma concessão razoável.
Em um mundo ideal, talvez eles frequentassem uma escola cristã clássica, onde não existem telas; ou adorassem em uma igreja sem telas; ou vivessem em um bairro desprovido de telas e — bem, você entendeu o quadro. Mas esse não é o mundo deles, nem o nosso; por isso, estabelecemos algumas linhas rígidas, enquanto abríamos mão de alguns pontos com nossos adolescentes. Na idade deles, eu “trocava mensagens” com amigos via AOL Instant Messenger em um computador de mesa. É mais ou menos assim que tem funcionado no caso deles, e minha esposa e eu ficamos agradavelmente surpresos com os resultados.
O ponto não é que essa tenha sido a decisão “certa”. Não estou na defensiva em relação a isso (embora eu admita ter assumido certa atitude defensiva, quando fui colocado contra a parede!), nem considero que seja um ideal abstrato que outros devam seguir. Considero-a, em vez disso, a melhor decisão que conseguimos tomar em nossa situação específica — tentamos usar de sabedoria diante de detalhes particulares que diziam respeito unicamente a nós. Foi, em outras palavras, uma tentativa de prudência: de aplicar princípios a circunstâncias concretas que exigem julgamento prático. Outros podem divergir de mim, e, de fato, divergem.
Essa experiência me ensinou uma lição. Diante dos desafios extraordinários que se apresentam aos pais e aos cristãos em geral pela tecnologia digital, parece-me que precisamos de duas coisas acima de tudo.
Primeiro, precisamos de coragem e ousadia para enfrentar esses desafios de frente, especialmente por parte de instituições e líderes, dos maiores aos menores [níveis de liderança].
Segundo, e tão importante quanto o primeiro, precisamos de graça. Graça para com os outros, graça para com nossos filhos, graça para conosco mesmos. Precisamos de montanhas de graça, de graça sobre graça, porque vivemos tempos sem precedentes e a maioria de nós, na maior parte do tempo, está sinceramente tentando fazer o que acha melhor — ou, na falta disso, o que nos sentimos capazes de fazer em determinado momento.
Para deixar claro, não tenho em mente a tolerância fraca do tipo “viva e deixe viver”. Devemos estar dispostos e ansiosos para ter conversas difíceis sobre essas coisas. Uma política de silêncio não ajuda ninguém.
Em um ensaio recente, o jornalista católico Matthew Walther escreveu com eloquência e compaixão sobre o que ele chama de “pobreza tecnológica”. Ele se refere a famílias, pais solteiros e crianças pequenas cujos momentos em que estão acordados são totalmente dominados pelo reinado das telas e que, nesse sentido, foram roubados da realidade: do sol e do canto dos pássaros, dos jardins, de subir em árvores, dos joelhos ralados, das caminhadas sem monitoramento, dos passeios de bicicleta pelo bairro, dos consertos na garagem, de se perder na leitura de um romance.
Aqueles de nós que conseguiram, pelo menos até certo ponto, resistir ou escapar desse tipo de pobreza muitas vezes não sabem como ajudar os outros. Mas essa é indiscutivelmente a maior necessidade do nosso tempo.
Portanto, não, não vamos apenas viver e deixar viver. Em vez disso, vamos estender generosidade a amigos, familiares e vizinhos que cheguem a decisões diferentes das nossas. Sejamos falibilistas tecnológicos, admitindo a possibilidade de que nossa própria abordagem possa estar errada ou, no mínimo, possa não ser a resposta universal para todas as pessoas, sem exceção. E mesmo que tenhamos boas razões para acreditar que nossa política é a melhor — ou melhor do que a de outrem —, isso não nos livra da obrigação de continuar vendo e tratando os outros, bem como falando deles com caridade, cordialidade, misericórdia e graça.
As decisões dos pais sobre tecnologia, nos dias de hoje, lembram outros debates espinhosos entre cristãos. Considere a educação escolar. Cristãos “de verdade”, cristãos “sérios”, cristãos que se importam com a formação de seus filhos evitam a escola pública, optando pela escola particular. Para não ficar atrás, outros pais passam a ver que até a escola particular é uma solução paliativa. O negócio é homeschooling ou nada.
O mesmo tipo de dinâmica acontece com o entretenimento. O que você deixa seus filhos assistirem ou ouvirem? Com que idade? Por quê? O que acontece é que sempre há alguém mais restritivo do que você e alguém menos restritivo do que você. Você não consegue acreditar que um seja tão conservador, ao mesmo tempo que não consegue imaginar ser tão liberal quanto o outro. Felizmente, como no conto da Cachinhos Dourados, a sua posição é sempre “na medida certa”.
Meu propósito ao zombar dessas perspectivas não é propor uma resposta definitiva e correta. Isso minaria tudo o que estou tentando dizer. Pelo contrário, quero que vejamos que não existe tal coisa. Existem respostas melhores e respostas piores; existem respostas sábias e respostas insensatas; existem respostas específicas para cada situação — mas não existe uma resposta única que sirva para tudo. E mesmo que houvesse, a tentação à hipocrisia e à presunção é tão acentuada que precisaríamos de um remédio para nossos egos inflados e nossas inseguranças como pais e mães, independentemente de estarmos objetivamente certos.
O mesmo vale para a tecnologia. Chame de “graça tecnológica” — essa recusa de sentarmos em nosso pedestal digital e olhar de cima para qualquer pessoa que discorde de nós. Não importa se a tentação é julgar aqueles que são menos restritivos (“Nós deixamos nosso filho do fundamental ter um celular, mas eles deixam os deles baixarem o Instagram”) ou mais restritivos (“Nós não temos videogames, mas você acredita que os Jones nem têm sequer uma televisão em casa?”).
O que deve ser evitado é o julgamento moralista, aquele tipo de juízo autodeclarado que se atreve a sentar-se no lugar do Senhor e a condenar com autoridade. Fazer isso sem pecar é impossível, porque é ao mesmo tempo hipócrita e presunçoso. No fim, não passa de fofoca moralista. Como Jesus ensinou no Sermão do Monte: “Não julguem, e não serão julgados. Pois, da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; a medida com que medirem será usada como medida para vocês.” (Mateus 7.1-2).
Existem, porém, outros tipos de julgamento. Quando exercemos um julgamento ponderado, chegamos a conclusões ou formamos convicções com cuidado, com base em razão, argumentos e discernimento. Não podemos e não devemos abandonar esse tipo de julgamento, e eu sou cheio de julgamentos tecnológicos nesse sentido: as redes sociais são ruins para adolescentes. Smartphones são ruins para a alfabetização. Telas são ruins para a atenção.
Considero que esses julgamentos não são apenas verdadeiros, mas comprovadamente verdadeiros. Eu os faço regularmente em meus textos e fico sempre feliz em compartilhá-los com pessoas que estejam abertas a ouvi-los. Sou uma espécie de evangelista e não tenho vergonha de defender essa causa em público.
O segredo, portanto, é exercer julgamentos ponderados sem exercer julgamentos moralistas. Felizmente, isso é parte integrante da vida cristã de forma mais ampla. Acredito, como todos os cristãos, que o evangelho é uma notícia verdadeira e urgente para todas as pessoas, quer elas saibam disso ou não, quer compartilhem das minhas convicções ou não. Mas não acredito nisso por causa de algum mérito ou bondade que haja em mim. Acredito porque vim a perceber que sou um pecador necessitado. Portanto, quero que todos os meus companheiros pecadores recebam esse mesmo presente — que “provem e vejam que o Senhor é bom” (Salmos 34.8).
Individualmente, então, podemos e devemos buscar um equilíbrio com a tecnologia digital. O verdadeiro fardo recai sobre as instituições e sobre aqueles que ocupam posições de autoridade e de influência, para que exerçam uma liderança que tem um alto preço. As decisões desses líderes acabam definindo normas e práticas compartilhadas dentro de nossas comunidades. Mais do que indivíduos comuns, os líderes podem e devem tomar atitudes ousadas, defender posições fortes e estabelecer políticas firmes sem hipocrisia ou condenação. Longe de sobrecarregar os fracos, essa ousadia é um presente que facilita hábitos sábios e oferece libertação de compulsões que, de outra forma, poderiam parecer impossíveis de resistir.
Andy Crouch chama sua abordagem aos dispositivos digitais de “sábio-tecnológica” (tech-wise). Jay Kim a chama de “analógica”. Clare Morell a chama de “a saída tecnológica” (tech exit). Seja qual for o rótulo que dermos, a coalizão tem que ser ampla, marcada por diversidade. Não pode ser apenas para uma elite de poucos, para os eleitos que pegam “leve” em termos de tecnologia. Tem que incluir tantos quantos couberem — o que quer dizer, em outras palavras, tantos quantos estiverem buscando viver com sabedoria em uma era digital, e estiverem dispostos a se sacrificar para fazer isso.
Se vamos ter algum sucesso, se vamos expandir em vez de encolher, teremos que viver uns com os outros. E a única maneira de fazer isso é com graça.
Brad East é professor associado de teologia na Abilene Christian University. Ele é autor de quatro livros, entre eles The Church: A Guide to the People of God [A Igreja: Um Guia para o Povo de Deus] e Letters to a Future Saint [Cartas para um Futuro Santo].