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O verdadeiro valor do ser humano reside em seu trabalho?

Columnist; Contributor

O foco no trabalho e no sucesso profissional alimenta o pecado da parcialidade, contraria o Evangelho e prejudica mães, donas de casa e trabalhadores braçais.

A woman excluded from a group of people talking.
Christianity Today April 27, 2026
Illustration by Elizabeth Kaye / Source Images: Unsplash

Durante os primeiros anos de vida dos nossos filhos, minha esposa ficou em casa com eles por um tempo, cuidando, amamentando, educando e ensinando-os. Nossos filhos se beneficiaram imensamente disso, embora tenham sido também anos de sacrifício, solidão e estresse. Serei eternamente grato a ela por esse ato de amor à nossa família.

Brittany é uma pessoa profundamente interessante: ela se interessa por arte, ideias e pessoas. No entanto, quando saíamos socialmente, a maioria das pessoas não conseguia enxergá-la como alguém particularmente interessante. Assim que ela deixou o mercado de trabalho, sempre que estávamos em grupo, as pessoas tendiam a ignorá-la para falar comigo sobre o meu trabalho e os meus interesses. Eu (aparentemente!) era o inteligente e o perspicaz do casal; ela era apenas uma dona de casa. Infelizmente, esse padrão se estendeu à igreja. Se as pessoas lhe faziam perguntas, eram sempre sobre nossos filhos. O valor que as pessoas viam nela era definido pelo seu trabalho, mesmo dentro da igreja. E como o trabalho dela não gerava capital imediato, as pessoas não sabiam como conversar com ela.

Em Tiago 2, o irmão de Jesus adverte severamente contra a atitude de mostrar parcialidade para com os cristãos ricos — contra dar atenção especial a quem está vestido com roupas finas e fazer distinções entre eles mesmos (v. 3-4). Os cristãos ainda são cativos do pecado da parcialidade, da acepção de pessoas. Aqueles de nós que somos trabalhadores de colarinho branco [profissionais assalariados que realizam tarefas administrativas, gerenciais, técnicas ou intelectuais, geralmente em escritórios] ― e é para esse segmento que escrevo ― costumamos “prestar atenção” naqueles que atuam em carreiras que desfrutam de prestígio social, tipicamente as que ganham mais dinheiro, e negligenciamos aqueles cujo trabalho consideramos insignificante; com isso, fazemos distinção entre pessoas.

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Paradoxalmente, a igreja hoje elogia o papel das mães que ficam em casa, mas as trata como pessoas menos dignas de atenção. Isso coloca as mulheres em um complicado beco sem saída: se trabalham fora, estão indo contra as normas sociais de uma subcultura; porém, se elas seguirem essas normas e ficarem em casa, são tratadas como pessoas insignificantes. No entanto, a parcialidade não é algo que age contra as mães que ficam em casa apenas. Muitos homens que trabalham em empregos braçais são frequentemente tratados como pessoas menos importantes e menos interessantes do que aqueles que têm carreiras profissionais, como empresários, médicos, advogados, políticos e professores universitários. No entanto, o chamado da igreja é dar atenção amorosa a todos os seus membros, sem parcialidade.

Quando determinamos com base na produtividade econômica de uma pessoa a quem vamos dar a nossa atenção, alienamos grandes segmentos da população. Jornais e revistas populares já notaram a vergonha que as próprias pessoas sentem de ser “apenas” alguém que cuida de outras pessoas. Em uma espécie de experimento, conversei com várias mães que não trabalham fora. Ansiosas em relação a esse tipo de questionamento, elas sentiam um julgamento implícito: tudo o que você é resume-se ao seu trabalho, e seu trabalho resume-se a seus filhos e à sua casa.

As mães com quem falei queriam expressar mais coisas sobre si mesmas: seus interesses, suas paixões, suas histórias. Mas a pergunta sempre focada no trabalho, “O que você faz?”, limitava as opções do que elas poderiam compartilhar. Elas amam ser mães, mas também desejam ter conversas mais profundas do que as que são estreitamente definidas por sua ocupação ou seu papel.

Com o tempo — independentemente da profissão ou da função de alguém na sociedade — ser ignorado por irmãos na fé pode gerar solidão, alienação e amargura. Hoje, com o planejamento urbano moderno, a solidão está crescendo: pesquisadores descobriram que “viver em áreas superpovoadas parece levar ao isolamento social”. Os empreendimentos imobiliários nas periferias das cidades também costumam significar mais tempo no carro e menos tempo em atividades locais.

Somando-se a essas realidades modernas, tendências online, como conteúdos #tradwife, glamourizam as donas de casa. As tradwives [esposas tradicionais] são aquele subgrupo de influenciadoras que Kelsey Kramer McGinnis definiu como alguém que “faz da fidelidade a algum aspecto da feminilidade ‘tradicional’ um pilar central de sua marca e de sua identidade online”. Preocupa-me o fato de que, se esse movimento não vier acompanhado de uma compreensão renovada de que os dons, talentos, interesses e papéis das mulheres variam de pessoa para pessoa, muitas mães que ficam em casa correm o risco de sofrer um burnout. Elas podem se sentir isoladas, sozinhas e incapazes de corresponder a um ideal estético.

Além das mães que ficam em casa, muitos homens também sofrem com esse pecado da parcialidade. Posso propor um experimento mental? Para aqueles de nós que têm curso superior, trabalham em escritórios ou estão em uma faixa de renda mais alta: quando os membros se cumprimentam na igreja — seja durante o culto ou depois —, quem você cumprimenta primeiro? Frequentemente, gravitamos em direção aos ricos, aos que têm empregos socialmente mais respeitáveis e aos que são mais valorizados pelo mundo. É mais fácil fazer perguntas sobre o trabalho deles. Podemos até, secretamente, esperar que parte de sua influência nos beneficie.

Muitas vezes, o pecado da parcialidade domina quem, como nós, é trabalhador de colarinho branco, pois preferimos o que é mais fácil. Se nós cumprimentarmos um encanador ou um mecânico (como eram meu pai e meu avô), o que lhe diremos? Sobre o que lhes perguntaremos? Devemos nos esforçar para conhecê-los e entender suas realidades. (Presumo que isso também ocorra entre os trabalhadores braçais; é mais fácil permanecer em grupos homogêneos). Como diz Tiago, fazemos distinções entre nós mesmos. Para pessoas que são socioeconomicamente diferentes de nós, parece que só temos a oferecer amenidades, gentilezas superficiais.

A verdade é que aceitamos as categorias de valor e de mérito do mundo: uma combinação de geração de riqueza e capital social. Os seres humanos têm uma tendência em relação a algo que se chama “viés de prestígio”. Nós “prestamos atenção em quem todo mundo está prestando atenção” e tentamos imitá-los. E colocamos isso em prática na igreja, mesmo estando em oposição direta ao mandamento de Tiago.

Então, como podemos nos arrepender desse pecado? Como podemos praticar o amor, em vez da parcialidade, para com nossos irmãos e irmãs em Cristo?

Tiago oferece uma resposta: “Se vocês de fato obedecerem à lei do reino, conforme a Escritura afirma: ‘Ame ao seu próximo como a você mesmo’, agem corretamente” (2.8). Todo mundo deseja ser notado, cumprimentado, conhecido, acolhido e amado. Todo cristão deveria desejar que seu valor esteja em Cristo, e não no seu trabalho. Enfrentamos a parcialidade perguntando: como podemos tratar de forma justa a todos na igreja, e não apenas as pessoas que achamos interessantes? Em que consiste nosso valor — no trabalho pessoal ou na obra de Cristo em nosso favor?

Na prática, creio que isso se resume a Tiago 2.3, versículo em que o autor adverte contra aqueles que “dão atenção” aos cristãos bem vestidos na igreja. A atenção é o problema. Todo ser humano quer que lhe deem atenção, pois a atenção é uma dádiva de tempo e uma afirmação da nossa existência.

Andy Crouch escreve em The Life We’re Looking For [A vida que procuramos]: “Durante toda a nossa vida, o que realmente estivemos procurando é a bênção [de alguém]. No passado, deitados nos braços da nossa mãe, procurávamos um rosto. Não procurávamos nada mágico, porque não era disso que precisávamos. Tudo que precisávamos era de uma pessoa”. Todos nós ansiamos e precisamos desse tipo de atenção (um ponto que detalho em meu próximo livro, To Live Well [Para viver bem]).

Em última análise, a afirmação mais satisfatória vem de Deus; porém, através do seu corpo aqui na terra, a igreja, encorajamos e enxergamos uns aos outros. O encorajamento da igreja tornou-se real para mim quando, certo dia, alguém reservou um tempo após o culto para perguntar como eu realmente estava. Eu não precisava abrir todo o meu coração ali, naquele momento, mas precisava que alguém perguntasse isso, que me desse atenção. E ele deu. Isso é o oposto do pecado da parcialidade: dedicar tempo para estar com alguém, para fazer perguntas importantes, para considerar a pessoa valiosa, independentemente de seu trabalho ou de sua riqueza. Em uma frase: amar a pessoa.

O que nossa atenção diz sobre nossas prioridades? Um amigo meu diz que, nos momentos em que as pessoas se cumprimentam na igreja, os amigos podem sempre esperar. Em vez de nos concentrar em nossos amigos, para não demonstrarmos parcialidade devemos focar naqueles que parecem solitários ou ignorados, entre eles, os visitantes, mães que não trabalham fora ou trabalhadores braçais. Todos somos normalmente impelidos à parcialidade. Mas a igreja, movida pelo Espírito e encorajada pela missão de Jesus, deve ser diferente.

E quando cumprimentarmos alguém na igreja, deveríamos começar não com a pergunta capciosa “O que você faz?”, mas sim, como sugeriu uma mãe que não trabalha fora certa vez, perguntando: “Há quanto tempo você frequenta esta igreja?”. A primeira pergunta implica que a vocação define a pessoa. A segunda abre a conversa para uma história sobre a pessoa e sua trajetória.

Além disso,  fora o momento de culto, precisamos também reformular nosso modo de pensar sobre o valor do trabalho realizado por mães, mecânicos, professores de ensino médio, balconistas e outras atividades ligadas a empregos socialmente menos prestigiosos. Na medida em que realizam essas tarefas para a glória de Deus e servem ao bem comum, cada uma dessas atividades deve ser valorizada e honrada. Há dignidade em trabalhar “de todo o coração” para o Senhor (Colossenses 3.23) e para o bem de uma comunidade, quer você esteja consertando encanamentos ou redigindo leis.

Por fim, para nos arrependermos do pecado da parcialidade, devemos resistir ao impulso de achar que algumas ocupações são superiores, como certos profissionais, executivos e trabalhos ligados ao mundo dos negócios. É apropriado reconhecer o trabalho árduo que alguém dedicou a uma empresa ou a uma clínica médica. Mas esse reconhecimento passa da medida e começa a “fazer distinções entre vocês mesmos”, quando enxergamos essas carreiras como detentoras de uma honra especial em nossas igrejas. Tiago é claro: somos todos iguais perante Cristo.

Nosso coração se deixa moldar facilmente pelas narrativas da cultura. Para nós, é fácil vermos o valor das mães apenas em seus filhos ou ignorarmos homens que exerçam funções que parecem servis ou pouco inspiradoras. Nós, porém, servimos a Cristo, que era um carpinteiro, mas falava no templo. E a mãe dele “guardava todas essas palavras, meditando sobre elas no coração” (Lucas 2.19) — o que significa que ela, como mãe, tinha pensamentos profundos sobre o Filho de Deus, a quem carregou no ventre e criou.

No próximo domingo, vamos tentar dar mais atenção àqueles que têm sido negligenciados na igreja, àqueles que carecem de riquezas e de capital social. Pois somos todos pobres, e todos necessitamos do socorro de Deus. Ele deixou as riquezas do céu e se fez pobre, para nos dar a si mesmo. Aos pés da cruz, somos todos iguais.

Alan Noble é professor associado de inglês na Oklahoma Baptist University. Ele é autor de vários livros; sua obra mais recente, To Live Well [Viver Bem], será lançada no final de abril.

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