Certo domingo, o ministério infantil da minha igreja disse que estava à procura de voluntários. “Temos roteiros e vídeos que você pode utilizar, e todo material estará pronto para te auxiliar”, afirmava o e-mail. “Não é necessário ter uma preparação prévia”. O plano de aula que recebi, sobre a história de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, em Daniel 3, continha perguntas “quebra-gelo”, passagens bíblicas e um link para um vídeo que ensinava sobre a passagem. Até mesmo as palavras da oração estavam escritas e prontas para que eu as recitasse.
No entanto, eu decidi formular o meu próprio plano de aula. “Imite um macaco! Cante ‘Baby Shark’ como se fosse um cantor de ópera”, eu disse para o grupo de crianças entre 9 e 11 anos que eu estava ensinando, no início da aula. Logo depois, eu lhes perguntei: “Alguém já pediu ou mandou você fazer algo que vai contra a Lei de Deus?”. Contei-lhes a história de quando eu era criança e, durante minha aula de caratê no Japão, meu professor pediu para eu me curvar diante de um altar. “Apesar de estar com medo de contrariar a ordem do meu professor, como eu acreditava em Jesus, escolhi não me curvar, mesmo que todo mundo da minha turma tenha se curvado”. Diante do meu desafio de fé, as crianças sorriram e seus rostos expressavam surpresa e perplexidade.
Depois de participarem de uma brincadeira para testar a confiança um no outro, e experimentar na prática como pode ser a sensação de ter fé em alguém, eu compartilhei alguns pontos sobre como nós devemos corajosamente colocar em prática nossas crenças e obedecer a Deus. Em seguida, fiz-lhes perguntas como estas: “Vocês querem ir brincar na minha casa neste domingo, em vez de irem para a igreja?, e “Vocês querem brincar com esse jogo no qual fingimos ser sacerdotes do mal que adoram outros deuses?”
Eu não fiz nada que fosse particularmente inovador ou entusiasmante. No entanto, as crianças da minha classe estavam atentas e engajadas na aula — para surpresa dos meus colegas professores de Escola Dominical, os quais observavam que as crianças não demonstravam aquele mesmo nível de interesse, quando assistiam a vídeos sobre a Bíblia.
Há anos tenho ensinado e liderado ministérios infantis em várias igrejas estadunidenses, e estou assustado com a quantidade crescente de igrejas que dependem de vídeos com lições gravadas para a escola dominical. Isso talvez seja, em parte, influência de uma mudança motivada pelos cultos virtuais — que abrangeu os cultos infantis —, durante a pandemia da COVID-19. Antes de 2020, quase 50% das congregações ofereciam cultos online, mas essa quantidade pulou para 75% em 2023. Algumas megaigrejas têm canais no YouTube para conteúdos infantis com animações bíblicas e acumulam milhares de visualizações. Um vídeo específico, que retrata a história da vida de Jesus, tem mais de 3 milhões de visualizações.
Embora eu não esteja sugerindo uma rejeição total do uso de telas ou de tecnologia na igreja, basear nossas escolas dominicais exclusivamente em vídeos parece transmitir um entendimento bíblico limitado a respeito do papel, da função e do processo do ensino.
Ensinar as Escrituras através de vídeos curtos, que não convidam seus espectadores a uma interação social ou ao pensamento dialógico, reduz o papel do “professor” a alguém que está primordialmente (ou unicamente) preocupado em comunicar conhecimento bíblico. No entanto, as Escrituras nos lembram que ser alguém que ensina a Bíblia para os pequeninos é algo que vai além de meramente transmitir fatos e verdades sobre a Palavra. É dever do professor assumir o papel integral de repassar a fé, de ser exemplo de maturidade espiritual e de modelar o que é ser um discípulo de Jesus.
Certamente existe uma enormidade de recursos audiovisuais bíblicos voltados para crianças. Alguns currículos de escola dominical infantil optam pelo estudo que segue o cânone bíblico do início ao fim; outros organizam-se por tópicos. Ainda outros, como o BibleProject, oferecem reflexões robustas sobre partes importantes da Bíblia por meio de gráficos apresentados em menos de dez minutos, enquanto outros incluem jogos e prêmios.
Alguns vídeos são produzidos pelas próprias denominações, para assegurar que estejam teologicamente alinhados e complementem os esforços da equipe do ministério infantil e dos voluntários. Isso diminui o tempo gasto com o preparo das lições e faz com que as barreiras para a entrada no ministério infantil sejam menores. Outros vídeos têm como objetivo aumentar a dose de entretenimento para as crianças incorporando piadas bobinhas, como forma de supostamente impedir que os pequenos achem que igreja é uma coisa chata.
Porém, existem desvantagens gritantes em depender somente de conteúdos em vídeo. As crianças podem se desengajar do ponto de vista cognitivo e social. É fácil para elas se desligarem e se transformarem em meros receptores passivos de informação, enquanto assistem a algo em uma tela, uma vez que nesses casos elas não precisam estar engajadas com o conteúdo. Um vídeo não convida as crianças a lerem passagens bíblicas, não propõe questionamentos sobre o conteúdo nem as desafia a resumir o que aprenderam naquela lição.
Embora seja raro vermos nos Evangelhos Jesus ensinando diretamente crianças, elas com certeza estavam presentes em seus sermões. Quando alimentou a multidão de cinco mil pessoas, a Bíblia explicitamente afirma que entre as pessoas que comeram do pão e dos peixes havia homens, mulheres e crianças (Mateus 14.21). Da mesma forma, a multidão de quatro mil também incluía crianças (15.38).
Nessas passagens, o papel de Jesus como mestre não é o ponto central da história. Em vez disso, ambas as histórias mencionam como ele viu a multidão e teve compaixão dela, e isso o moveu a alimentar aquelas pessoas — inclusive as crianças. Por mais jovens que sejam, as crianças dessas narrativas bíblicas aprendiam sobre Jesus por meio de sua interação com ele. Em sua experiência, elas o viam como aquele que dá e provê, como aquele que atende necessidades físicas, como a fome, com uma solução prática e comunitária. Essas duas narrativas afirmam que o papel de um mestre não se resume apenas a fornecer conhecimento, mas também envolve ter um engajamento tangível e real com seus aprendizes.
Jesus também não se agradava com o ensino à distância para crianças. Em uma história que aparece em todos os evangelhos sinópticos, as pessoas levaram crianças e bebês para que Jesus orasse por elas (Mateus 19.13; Marcos 10.13; Lucas 18.15). Quando os discípulos repreenderam as pessoas por isso e tentaram afastar as crianças,o próprio Jesus chamou as crianças, impôs as mãos sobre elas e as abençoou (Marcos 10.16). Jesus também instrui seus seguidores: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam, pois o reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas” (Lucas 18.16).
Esta história demonstra de forma poderosa a importância da maneira como Jesus ministra às crianças, através de palavras e obras. Elas não devem ser simplesmente uma audiência distante, que escuta de longe os ensinamentos de Jesus. Cristo deseja interagir diretamente com elas, compartilhando seu amor e sua compaixão.
As Escrituras mostram que um mestre deve seguir a Deus e exibir os atributos de Cristo para todos os que estão ao seu redor. O apóstolo Paulo critica quem é “mestre de crianças” e ensina a Lei mas não vive o que professa (Romanos 2.17-24). Líderes cristãos recebem seu papel de liderança na igreja não apenas por seu domínio do conhecimento, mas também pelo seu caráter cristão (1Timóteo 3.1-13).
Quando o ministério infantil cria uma dependência cada vez maior de conteúdo audiovisual digital para adoração, ensino e oração, devemos nos perguntar se realmente estamos ajudando os pequeninos a experimentarem e a seguirem Jesus. Embora ter conteúdo em vídeo para o ministério infantil com certeza proporcione conveniência e praticidade, nós não deveríamos ignorar as consequências significativas que as igrejas podem sofrer, quando dependem completamente de vídeos para a escola dominical.
Qual é a maneira mais tangível que podemos adotar para comunicar e demonstrar o amor de Cristo para os corações e as mentes dos jovens que estão nos bancos das nossas igrejas? O texto de 1João 3.18 diz: “Filhinhos, não amemos de palavra nem da boca para fora, mas em ação e em verdade.” Nós podemos estar presente para eles, orar por eles e sermos exemplos vivos do amor de Deus.
Esse modelo encarnacional de ministério infantil é desafiador e requer um investimento de tempo significativo. O ideal seria que um professor de escola dominical comece estudando e refletindo, em espírito de oração e com cuidado, sobre a passagem das Escrituras e o que ela comunica. E só então pode começar a pensar em formas criativas que ajudem as crianças a participarem do processo de aprendizado.
Em vez de usar orações prontas, podemos orar inspirados pelo amor e pelo cuidado genuíno pelas crianças da classe. Podemos perguntar sobre a vida de cada uma e atentamente escutar seus relatos. Podemos convidá-las a ler versículos bíblicos em voz alta em uma Bíblia impressa comum, em vez de utilizar uma Bíblia para crianças. Podemos desafiá-las a pensar sobre a motivação que está por trás de cada história que elas lerem na Bíblia. Podemos cultivar espaço para que elas fiquem admiradas, imaginem e façam suas perguntas encantadoramente inocentes.
Alguns dos momentos mais propícios para o ensino que já presenciei são orgânicos e fogem do planejado. Durante uma escola dominical na qual eu ensinava sobre Daniel 3, perguntei às crianças: “Seu eu der 100 dólares para vocês, diriam ‘eu odeio Deus’?”. Um dos garotos, em tom de brincadeira, disse que “sim”. Eu fiz uma pausa e respondi: “Fico triste em ouvir isso, porque nós sabemos que, na Bíblia, um dos discípulos de Jesus, chamado Judas, fez exatamente o mesmo, ao virar as costas para Jesus por causa de dinheiro”. O menino pareceu surpreso, provavelmente porque ele não esperava que eu respondesse a sua afirmação, e também porque o que eu disse o fez perceber as sérias implicações de suas palavras.
Não sei qual foi o efeito de longo prazo dessa minha resposta sobre aquela classe de escola dominical, mas, naquele momento, eu fiz algo que uma aula gravada em vídeo não poderia fazer: respondi a um comentário espontâneo e, talvez, tenha ajudado as crianças a perceberem o quanto nós somos semelhantes aos personagens sobre os quais lemos na Bíblia.
Kaz Hayashi é professor-associado de Antigo Testamento e estudos bíblicos e teológicos na Bethel University/Seminary e membro da Every Voice [Toda Voz], uma organização que cultiva a diversidade na educação teológica cristã.