Quando eu era mais jovem, minha família viajava para Jacksonville para visitar minha bisavó Alice, também conhecida como Mama. Lembro-me de sua pequena figura, com os tornozelos inchados sobressaindo-se contra a bainha lilás do seu roupão. Ela ficava feliz em nos ver. Suas maçãs do rosto, doces e envelhecidas, roçavam minhas bochechas rechonchudas, enquanto nos abraçávamos. O cheiro da casa lembrava o cheiro da comida da minha mãe, mas era melhor. Mama estava sempre cozinhando antes que alguém ligasse, descascando batatas-doces, como se a quietude do dia parado significasse que alguém, em algum lugar, pudesse estar com fome.
A razão pela qual Mama sabia amar tão bem dessa forma era a mesma pela qual ela arrumava a mesa para as refeições, mesmo com a casa vazia. Mama alimentava as pessoas antes mesmo de saber quem estava vindo [visitá-la]. Naquela época, eu não sabia, mas o que ela estava fazendo era discipulado: ela estava me mostrando o conceito de hospitalidade sem hierarquia.
Mama partiu para estar com Jesus há algum tempo, mas o que ela encarnava nunca me deixou. À medida que fui ficando mais velho, essa imagem do livre acesso me fez lutar com partes da minha vida em que minha fé se confrontava com as realidades do mercado. Como adulto, passei uma quantidade enorme do meu tempo escrevendo, apresentando-me e viajando pelo mundo como artista da palavra falada. Estive em diferentes espaços que engrandecem a presença de Deus: conferências de jovens, eventos de poesia cristã, workshops e festivais. Também ganhei meu sustento ali.
Quando queremos reunir cristãos em grande número, para atividades que envolvam arte, inspiração e enriquecimento espiritual, criamos eventos; e esses eventos exigem uma estrutura financeira (ou seja, ingressos, categorias de público, passes e acesso exclusivo) que torna o encontro viável. É um sistema moldado em parte pelo chamado, em parte pela criatividade e em parte pela economia nua e crua. Levamos em conta coisas como venda de ingressos, orçamento, custos de viagem, cachês pagos a artistas e palestrantes e o custo geral da produção. Os encontros são ministério, de fato, mas os imperativos financeiros continuam em jogo. De que outra forma, afinal, eu seria capaz de pagar a mensalidade da faculdade, alimentação e gasolina?
Ao mesmo tempo, passei a me sentir desconfortável com algumas coisas, especialmente com os ingressos VIP e aqueles ingressos com preços bem altos, que oferecem a um pequeno número de compradores livre acesso aos bastidores do evento e momentos de encontro com os artistas (meet and greets), além de uma série de benefícios dos quais outros participantes não conseguem desfrutar. Músicos cristãos já receberam algumas críticas por oferecerem essas experiências VIP. Mas ingressos desse tipo também são vendidos em conferências e em outros eventos que não envolvem música, que são minha área de atuação e minha principal preocupação aqui.
Embora seja verdade que experiências exclusivas desse tipo possam subsidiar os custos para os demais participantes em geral, nossa busca por gerar receita através desses meios está reforçando desigualdades econômicas já existentes, e isso merece uma reflexão mais crítica.
Conferências e eventos cristãos esporádicos não são a igreja local, e não estou sugerindo que devam ser tratados como tal. Eles não carregam o mesmo peso pactual, não têm presbíteros, responsabilidade pastoral nem o mandato bíblico de um corpo reunido. Eles não são elementos obrigatórios para a formação cristã, nem pretendem substituir os meios de graça que moldam a vida cotidiana dos crentes.
No entanto, mesmo as conferências não sendo a igreja, elas são importantes. Esses encontros moldam a imaginação cristã e o nosso discipulado. E quando esses espaços que nos moldam tornam-se financeiramente estratificados, eles correm o risco de nos discipular segundo uma hierarquia que Jesus nunca modelou (Tiago 2.1-9). Minha preocupação não é o fato de as conferências custarem dinheiro, mas sim o que acontece quando esse custo sutilmente nos separa uns dos outros e determina quem pode pagar para ter acesso a certos locais do evento e quem não pode (e eu sei que alguns não podem, porque eles mesmos me disseram).
Por alguns anos da minha vida, viajei com o Poets in Autumn [Poetas no Outono] (PIA), um grupo de poetas cristãos que se apresentava em várias cidades, por mais de dois meses.
As pessoas vinham para nos ver apresentar algo criativo e piedoso. Apresentávamos poesia, principalmente em igrejas, e as pessoas se reuniam ali não apenas para ouvir poesia, mas para serem inspiradas, desafiadas, entretidas e, de certa forma, discipuladas — mesmo que ainda não estivessem conscientes disso. Vi de perto a beleza desses espaços. Participantes que normalmente não estariam juntos estavam ali, unidos, adorando, enquanto comunidades se formavam nos saguões das igrejas.
O cronograma da turnê incluía uma longa lista de cidades, onde vendíamos ingressos comuns e ingressos VIP. Mas, quando a turnê chegou à minha cidade natal, Filadélfia, meu pastor sênior na época fez algo especial – ele se ofereceu para cobrir os custos de todo o show. Todos os assentos que tínhamos para oferecer às pessoas naquele dia seriam gratuitos. Ele tinha apenas uma condição: deixem que todos venham e tenham a mesma experiência.
As pessoas vieram em massa, não apenas pessoas da Filadélfia, mas de Nova York, Delaware, Virgínia, e até mesmo da Flórida. Naquela noite, o local estava cheio. Muitos foram acrescentados à igreja e encontraram uma comunidade e uma linguagem para coisas que vinham carregando consigo até aquele momento. Não foi perfeito, nem pretendia ser um modelo fixo. Mas é um vislumbre maravilhoso do que aconteceu na Filadélfia, por uma noite, e tudo em consequência da generosidade de uma só pessoa.
Pode ser que algumas igrejas sejam capazes de fazer parcerias com conferências e replicar esse tipo de experiência. No entanto, estou ciente de que isso será uma situação rara. Portanto, aqui está uma opção mais sustentável: talvez o acesso “VIP” não precise desaparecer por completo; talvez ele só precise ser reformulado.
Em vez de fornecerem acesso a palestrantes, mestres, poetas e afins, esses ingressos de preço mais alto poderiam fornecer um serviço. Uma ideia seria honrar os patronos do evento que escolheram gastar mais, em vez de simplesmente recompensar a riqueza. Quando eventos cristãos anunciam a venda de ingressos VIP, eles poderiam dizer às pessoas que esses ingressos subsidiarão os custos para outros participantes ou simplesmente ajudarão a sustentar o ministério. As pessoas que comprarem ingressos VIP, então, não teriam direito a nenhum acesso ou benefício exclusivo, mas, como acontece com as doações de caridade, poderiam receber cartões de agradecimento expressando nossa gratidão.
É claro que existem vantagens e desvantagens. Algumas pessoas só pagam mais se souberem que receberão algo extra em troca. Mas, em contrapartida, se os participantes que compram um ingresso (subsidiado) forem informados de que os compradores de ingressos VIP estão baixando o custo da entrada ou sustentando o ministério por vontade própria, isso incentivaria um maior apreço das pessoas [por esse gesto] e, talvez, um senso de comunidade no público em geral.
Se for para os ingressos diferenciados (VIP) continuarem nos próximos anos, que eles sirvam como a minha Mama servia, para que aqueles que os comprarem saibam que um prato mais cheio alimenta outros também. Os que podem pagar mais investirão mais financeiramente no corpo de Cristo. Este novo modelo permitiria a expansão dos eventos e das conferências, em vez de aumentar o distanciamento econômico entre irmãos. Em outras palavras, o rótulo VIP existiria por um bom motivo: por ser mais generoso.
Jazer Willis é poeta, escritor e teólogo criativo. Ele estuda na Candler School of Theology da Emory University. Seu trabalho explora aspectos como espiritualidade, memória e cultura.