Theology

Cristãos, sejam tardios para postar e comentar

Uma igreja que reage depressa a controvérsias está proclamando a cultura, e não a Palavra de Deus.

Uma ampulheta deitada de lado com flores crescendo dentro dela.
Christianity Today March 25, 2026
Ilustração de Elizabeth Kaye / Imagens: Getty, Unsplash

Era uma terça-feira comum, quando uma declaração apareceu nos noticiários. Eu não me lembro da data exata. Era uma terça-feira, como tantas outras. De repente, uma notícia de última hora: um tiroteio. Logo depois, uma decisão da Suprema Corte norte-americana. Alguns instantes depois e a nova discussão era sobre a queda recente de um pastor. Em poucas horas, a internet estava fervilhando.

Não demora muito para vermos as primeiras reações aparecerem. Posições são declaradas. Silêncios são catalogados. Linhas são traçadas. Na manhã de quarta-feira, os lados já estão definidos, com os justos e íntegros de um lado e os coniventes do outro. Na semana seguinte, o algoritmo já aposta em algo novo, deixando para trás os destroços de costume: laços de amizade desgastados, nuances simplificadas e aquele gosto amargo de ter acabado de realizar algo que se parece com a fidelidade cristã, mas não transmite essa sensação.

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A maioria de nós provavelmente já viu esse cenário se repetir um milhão de vezes. Como pastor, eu já vi isso de perto e pessoalmente. Já me sentei em reuniões nas quais a equipe de líderes da igreja debatia se havia necessidade ou não de publicarmos declarações sobre controvérsias ou tragédias nacionais. Não nos faltava convicção, mas sabíamos que o que quer que disséssemos seria julgado por aquilo que não foi dito.

Começamos, então, a perceber que o nosso relógio não está realmente medindo o tempo; ele está medindo suspeitas. Eu tenho observado cristãos ponderados, que leem a Bíblia e que buscam o Espírito reduzirem o trabalho de discernir as coisas à velocidade da postagem de notícias. Eu mesmo já fiz isso. Confundi urgência com obediência, deixando o relógio ditar quando eu deveria falar e deixando a multidão determinar o que eu deveria dizer. Um belo dia, porém, abri minha Bíblia em Êxodo 34 e encontrei um Deus cujo comportamento, segundo ele mesmo descreve, é lento.

Imagine a cena por um momento. Moisés já vira as pragas tragarem um império. Ele vira o mar se abrir e se fechar novamente. Ele subira uma montanha envolta em nuvens e trovões. E, ainda assim, ele pede mais: “Mostra-me a tua glória” (33.18). Essa é uma das orações mais audaciosas das Escrituras. E o que acontece a seguir não é o que poderíamos esperar. Não houve tempestade. Não houve nenhum terremoto. Nenhum fenômeno cósmico destinado a impressionar os sentidos. Deus respondeu com uma descrição. Ele passou diante de Moisés e declarou seu nome: “Senhor, Senhor, Deus compassivo e misericordioso, tardio em irar-se e cheio de amor e fidelidade” (34.6).

Se você já leu a Bíblia o suficiente, deve ter percebido algo. Israel retorna a este momento reiteradamente. Essa descrição ecoa através dos livros de Salmos, Jonas, Joel, Naum e Neemias. Sempre que o povo precisa se lembrar de quem Deus é, eles retornam a isso. E uma das primeiras coisas que Deus diz sobre si mesmo é que ele é tardio em irar-se. A expressão em hebraico é erekh appayim, que literalmente significa “longo de narinas” [ou lentidão para a ira]. A imagem é terrena e humana. O Deus de Abraão se apresenta como alguém que respira fundo antes de responder, e respira lentamente enquanto outros explodem de raiva.

O estudioso Paul R. House escreveu que esta descrição de Deus pode servir como uma lente interpretativa para toda a história do Antigo Testamento. Uma vez que você a vê, é mais fácil notar o padrão em todos os lugares. Os séculos entre a promessa do Messias e a vinda de Cristo não são um espaço vazio. Eles são evidência da longanimidade de um Deus que, em vez de meramente apagar incêndios, estava formando um povo e construindo uma linhagem da qual sairia o seu ungido. Preso entre esta promessa e o seu cumprimento, Habacuque clamou: “Até quando, Senhor?” (1.2), e Deus respondeu com algo que quase soa como uma contradição: “Ainda que demore, espere-a; porque ela certamente virá e não se atrasará” (2.3).

Em The Justification of God [A Justificação de Deus], John Piper observou que a paciência de Deus não é fraqueza, mas poder. Aquele que poderia encerrar a história a qualquer momento escolhe não o fazer, e essa escolha revela algo sobre quem Deus é. O teólogo japonês Kosuke Koyama passou anos refletindo sobre essa mesma percepção, e chegou a uma conclusão que, a meu ver, nos desarma. “O amor tem sua velocidade própria”, ele escreveu. “É uma velocidade espiritual. É um tipo de velocidade diferente da velocidade tecnológica, com a qual estamos acostumados. […] Ele se move […] a cinco quilômetros por hora”.

Cinco quilômetros por hora é a velocidade de um ser humano caminhando por uma estrada. De Nazaré a Cafarnaum são aproximadamente 42 quilômetros. Nesse ritmo, leva-se um pouco mais de um dia inteiro de trabalho para completar a jornada. Jesus fez essa caminhada. Mas, em todas as suas viagens, ele raramente estava com pressa. Jesus parava diante das várias interrupções. Pessoas estendiam a mão e tocavam seu manto. Um estranho chamava seu nome à beira da estrada, e ele o curava. Koyama chama isso de “o Deus dos cinco quilômetros por hora”.

Essa expressão foi cunhada para ser uma crítica a um mundo embriagado pela velocidade tecnológica. Mas ela atinge a igreja com a mesma agudeza. Como já observei, construímos uma cultura eclesiástica que parte do pressuposto de que o mais rápido é mais fiel e de que quem fala primeiro vence. No entanto, o Deus que criou o universo com a sua palavra escolheu vir ao mundo como um bebê, em um vilarejo sob o domínio do Império Romano, e passou 30 anos na obscuridade, antes de proferir uma única palavra em público.

No meio de Gálatas 5, existe uma palavra para esse tipo de lentidão. Quando Paulo lista o fruto do Espírito, a palavra que ele usa para paciência é makrothumia. É uma palavra composta que significa algo como “longa disposição”, a capacidade de levar muito tempo antes que uma chama apareça. Paulo poderia ter escolhido uma palavra diferente. O grego tinha hupomonē, que significa resiliência sob dificuldade. Mas ele escolheu a palavra que descreve paciência com as pessoas.

A paciência é uma disciplina. Não deve ser confundida com passividade, covardia ou falta de convicção. É simplesmente a recusa em deixar que a pessoa que está nos provocando determine a velocidade da nossa resposta. Dito de outra forma, é a decisão de se inflamar no momento certo, da maneira certa, pelo motivo certo. O comentário bate-pronto, feito no calor do momento, recompensa o imediatismo e trata a reação como coragem. A makrothumia, porém, espera.

Em Gálatas, Paulo não descreve esse tipo de lentidão como um traço de personalidade. É um fruto, o que significa que cresce de forma lenta e silenciosa ao longo do tempo. O Espírito Santo produz longanimidade da mesma maneira que as raízes se espalham pelo solo. E ela deve fluir através de nós, em direção a uma sociedade que precisa desesperadamente dela.

A necessidade, entretanto, não é novidade. A maioria de nós conhece a história da mulher que foi pega em adultério e arrastada diante de Jesus (João 8.1-11). A multidão estava reunida. Os líderes religiosos queriam um veredito de Jesus, e o queriam depressa.

A urgência foi inventada, projetada para forçar uma resposta rápida sob pressão. Condenar a mulher e parecer justo, ou mostrar misericórdia e parecer conivente com o pecado. Jesus, porém, apenas se curvou e escreveu na terra. O escritor do Evangelho não nos conta o que ele escreveu. Comentaristas se perguntam o que foi, há séculos. Mas o silêncio pode ser o ponto principal. Quando Jesus finalmente falou, as palavras foram simples: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar a pedra nela” (v. 7).

Então, os acusadores saíram — primeiro, os mais velhos, seguidos pelos demais. A mulher permaneceu em pé, ali, com a única pessoa que tinha autoridade para condená-la. Mas não o fez.

A paciência aqui parece ser a presença mais poderosa do local, presença que se recusa a deixar que a multidão defina os termos. Séculos depois, o terapeuta familiar Edwin Friedman daria nome a dinâmicas como esta. Depois de estudar famílias, congregações e organizações, Friedman observou que a ansiedade se espalha pelos ambientes rapidamente e, uma vez que se espalha, o grupo se orienta em torno das vozes mais reativas.

A prescrição de Friedman para este problema não era se retirar, mas o que ele chamou de uma “presença não ansiosa e, às vezes, desafiadora”. Essencialmente, o que o grupo precisa é de alguém que esteja conectado aos demais, mas que se recuse a ser governado pela volatilidade à sua volta.

Quando abordamos os Evangelhos com essa nomenclatura em mente, certas cenas começam a parecer diferentes: Jesus dormindo no barco, enquanto os discípulos entravam em pânico. Jesus em silêncio diante de Pilatos, enquanto a multidão gritava. E, claro, Jesus escrevendo na terra, enquanto os fariseus exigiam um veredito. Em cada um desses momentos, ele esteve totalmente presente, mas não se deixou controlar pela ansiedade ao seu redor. Isaías deu nome à postura que está por trás disso: “Na quietude e na confiança reside a sua força” (Isaías 30.15, NIV).

Mas a nossa vida não é apenas pessoal. Ela também é cultural. Em seu livro The Profetic Imagination [A Imaginação Profética], o teólogo Walter Brueggemann alertou que nossa cultura de consumo deprecia a memória e ridiculariza a esperança, “o que significa que tudo deve ser mantido no agora”, seja urgentemente ou eternamente, vendo o mundo presente como nossa única realidade.

Quando a igreja adota esse ritmo, ela se parece com a cultura ao seu redor. O que parece ser coragem torna-se conformidade com a exigência de velocidade dos algoritmos e com a exigência de veredito da multidão. Mas uma igreja que reage na velocidade da cultura não está profetizando para ela. Ela está imitando a cultura.

A filósofa francesa Simone Weil escreveu certa vez que “a forma mais rara e pura de generosidade é a atenção”. Prestar atenção é permitir que uma pergunta permaneça em aberto por tempo suficiente para que a verdade chegue. O discipulado funciona da mesma maneira. Cristãos que sejam pacientes e consigam suportar a tensão, sem ceder aos reflexos tribais, não são formados da noite para o dia. Eles são formados lentamente, em comunidades nas quais a divergência não fragmenta de modo automático os relacionamentos.

As Escrituras sempre souberam disso. Podemos vê-lo não apenas nos silêncios de Deus, mas na sentinela que espera pela manhã e no agricultor que aguarda com paciência a colheita. O fruto não cresce no tempo dos ansiosos. Ele cresce na penumbra, pacientemente, na velocidade das raízes.

Thomas Anderson é o pastor responsável pela formação de discípulos na Grace Community Church em Fulton, Maryland.

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