Theology

A devoção cristã é o fundamento da verdadeira caridade

Negligenciamos o pobre e o oprimido não porque amamos muito Jesus, mas porque o amamos pouco.

Unção de Jesus, por Alexandre Bida

Unção de Jesus, por Alexandre Bida

Christianity Today February 25, 2026
WikiMedia Commons / Edits by CT

Certa vez, fizeram um “experimento social” no TikTok: uma jovem do Kentucky ligou para várias igrejas, perguntando se elas comprariam leite em pó para alimentar seu bebê (fictício), que estava faminto. Apenas algumas igrejas concordaram de imediato em comprar. A brincadeira viralizou e tinha como objetivo “provar” que cristãos e outras pessoas religiosas são hipócritas, mesquinhas e não se importam com os necessitados.

No entanto, nada disso ficou realmente comprovado. Por exemplo, teve um pastor que aproveitou, sem hesitar, a oportunidade para ajudar, e foi justamente homenageado. E embora algumas respostas tenham sido, de fato, evasivas, também é verdade que existem bons motivos para uma secretária de igreja não atender de imediato a pedidos de estranhos, logo no primeiro telefonema. O leite em pó para bebês — por ser um produto de longa duração, relativamente caro, urgentemente necessário e sujeito a escassez intermitente — é um item popular no mercado negro e em esquemas para fraudar o SNAP [Nutrition Assistance Program], o programa de assistência alimentar do governo dos Estados Unidos.

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A generosidade dos cristãos e de outros americanos religiosos já é bem conhecida, e vai além da doação de leite em pó para bebês. Embora não estejam livres de hipocrisia, os religiosos e os cristãos têm ditado o padrão em termos de doação. “As evidências não deixam margem para dúvidas: pessoas religiosas são muito mais caridosas do que pessoas não religiosas”, escreve Arthur Brooks em Who Really Cares [Quem realmente se importa], um estudo minucioso sobre ações de caridade nos Estados Unidos. “Em anos de pesquisa, nunca encontrei uma maneira mensurável pela qual as pessoas seculares sejam mais caridosas do que as religiosas.”

Essa generosidade não se limita apenas aos locais de culto. As pessoas religiosas superam as secularistas “em todos os aspectos mensuráveis”, documenta Brooks — entre eles, nas doações para instituições de caridade seculares, no trabalho voluntário e na doação de sangue. Isso é verdade em relação aos cristãos há séculos. Atribui-se a Basílio de Cesareia o mérito de ter pavimentado o caminho para o hospital moderno, e a igreja primitiva era famosa por seu cuidado corajoso para com os enfermos. A profunda valorização dos jovens, dos fracos e dos vulneráveis, inerente à nossa cultura, inegavelmente se baseia nos fundamentos éticos estabelecidos pelo carpinteiro de Nazaré.

Ainda assim, esta percepção continua de pé: a ideia de que os cristãos falam muito e fazem pouco, e estão ocupados demais com seus rituais religiosos vazios para enxergar Cristo nos necessitados. Até mesmo cristãos às vezes cedem a essa linha de pensamento, e questionam se existe alguma tensão entre o culto da igreja e a obra do Senhor. O amor e a adoração a Cristo alimentam nosso impulso de alimentar os famintos? Ou a devoção religiosa a Jesus apenas nos distrai do cuidado para com um mundo caído e repleto de necessidades urgentes?

Certamente, devemos receber de braços abertos os incentivos à ação: a disposição cristã de cuidar dos mais necessitados não pode continuar sendo mera disposição. “A virtude de cuidar dos pobres”, adverte Joseph Bottum em An Anxious Age [Uma Era de Ansiedade], pode se tornar algo bem “menos relacionado a cuidar efetivamente dos pobres […] e bem mais relacionado a sentir que os pobres devem ser cuidados”.

Contudo, é um erro colocarmos adoração e serviço um contra o outro — um erro que diminuirá tanto nosso entusiasmo quanto nosso serviço. Ouvir, orar, aprender e cantar as histórias da misericórdia de Jesus, toda semana, nos confronta com o fato de que o cristianismo não é uma curiosidade histórica. O cristianismo deve ser vivido. 

A devoção cristã não mina a caridade, pelo contrário, ela a fortalece. E ir à igreja não nos distrai do serviço, mas sim nos ensina a servir. Longe de competir com a prática da caridade, a devoção a Cristo é o que mantém seus ensinamentos em nossa vida.

O chamado da igreja à adoração é um chamado à ação. É um chamado para despertarmos da indolência — daquilo que o teólogo Ross McCullough descreve como “o vício de não amar [a virtude] o bastante”. A virtude que os cristãos tradicionalmente prescrevem para combater a indolência é a diligência, cuja raiz latina é diligere, ou “amar”. O amor é um ingrediente indispensável à vida cristã, como diz o apóstolo Paulo em um de seus capítulos mais citados: “Se eu der aos pobres tudo o que possuo e entregar o meu corpo para que eu tenha de que me gloriar, mas não tiver amor, nada disso me valerá” (1Coríntios 13.3).

Quando nós, cristãos, negligenciamos o pobre, o oprimido e o marginalizado, não é porque amamos Jesus demais, mas sim porque o amamos de menos. A comunhão semanal com uma igreja que busca praticar a justiça (Miqueias 6.8) é uma prática e uma fonte de diligência. A adoração a Cristo e as obras de Cristo foram concebidas para caminhar juntas, e qualquer tentativa de separá-las acabará por fracassar.

Esta é a verdade por trás da observação aparentemente desdenhosa que Jesus fez, certa vez, sobre os necessitados: “Os pobres vocês sempre terão com vocês” (Mateus 26.11). A frase, uma referência a Deuteronômio, aparece na história da unção de Jesus em Betânia. Uma mulher quebra um frasco de alabastro que continha um perfume caríssimo e o derrama sobre a cabeça dele — para desgosto dos discípulos.

“Por que esse desperdício?”, perguntam eles. “Este perfume poderia ter sido vendido por alto preço, e o dinheiro ser dado aos pobres” (Mateus 26.6-9). Mas Jesus chama a ação da mulher de “boa ação”. Jesus disse que ela o estava ungindo para o sepultamento, e acrescentou que os discípulos sempre teriam consigo os pobres (v. 10-12).

O que devemos pensar desse episódio estranho? Ele confirma a caricatura da religiosidade insensível? Jesus está justificando o egoísmo cristão?

A passagem citada por Jesus nos aponta para a resposta. Ao invocar um fragmento de Deuteronômio, Jesus estava invocando a passagem toda (uma prática conhecida como “metalepse”), na qual Deus aborda a onipresença da pobreza a fim de ordenar sua reparação: “Sempre haverá pobres na terra. Portanto, eu ordeno a vocês que sejam generosos com os seus irmãos israelitas, tanto com o pobre como com o necessitado da sua terra” (Deuteronômio 15.11). Os alunos do rabino da Galileia conheciam as implicações da citação.

O contexto em Mateus também importa. No capítulo anterior, Mateus 25, Jesus aponta o tratamento dado aos oprimidos como critério para a salvação eterna e a condenação eterna, listando ações como alimentar os que têm fome, dar de beber aos que têm sede, acolher os estrangeiros, vestir os que estão nus, cuidar dos que estão enfermos e visitar os que estão presos. Disse Jesus: “Em verdade lhes digo que tudo o que vocês não fizeram a algum desses pequenos, também não fizeram a mim” (v. 45). Do Sermão do Monte até o final do Evangelho de Mateus, a ninguém é permitido virar as costas e ignorar os humildes.

Mas e o perfume caríssimo derramado em Betânia? Será que a extravagância da adoração oferecida a Jesus prejudica o cuidado com os pobres?

Na verdade é o oposto. Mateus 25 diz que tudo o que fazemos pelos pobres, em última análise, fazemos por Jesus. E, em Mateus 26, o princípio se inverte: quando a mulher faz algo bom para Jesus, ela também o faz para os pobres.

Ou seja, ela não unge apenas o corpo dele para a morte; ela unge o próprio modo de vida dele. Ela unge a comunhão dele com os mais humildes, seu toque naqueles que eram intocáveis. Ela unge o sermão dele, que começa dizendo que bem-aventurados são os pobres em espírito (Mateus 5.3). A adoração dela é dirigida àquele que “sendo rico, se fez pobre por causa de vocês, para que por meio da pobreza dele vocês se tornassem ricos” (2Coríntios 8.9) — não ricos materialmente, mas “ricos em boas obras” (1Timóteo 6.18).

Quando eu estava na faculdade, um amigo meu teve a ideia de iniciar um movimento chamado Culto de Domingo de Manhã. A ideia era convencer os estudantes a pararem de frequentar suas igrejas locais e, em vez disso, passarem as manhãs de domingo no centro da cidade, servindo os moradores de rua. A intenção por trás da ideia era boa, pois ecoava o chamado de Isaías 1.12-17 para pararmos de privilegiar as assembleias solenes em detrimento de buscar justiça para os oprimidos e necessitados.

Mas o “sacrifício vivo” do serviço cristão (Romanos 12.1-2) nunca deve competir com o culto cristão, com a adoração. Pelo contrário, é precisamente no domingo de manhã que aprendemos sobre o amor de Jesus pelos necessitados. E, aliás, nossa congregação de estudantes cristãos no campus já tinha ministérios vibrantes, voltados para os pobres. A obra estava sendo feita; nós só precisávamos nos juntar a ela.

Nem sempre é assim. Muitas igrejas têm sido infiéis à agenda do ministério de Jesus. Nem sempre refletimos a sua terna misericórdia. Mas a adoração fervorosa a Jesus não é o problema aqui. Na verdade, ela é o começo da solução.

Em seus comentários sobre a história de Mateus 26, o teólogo Stanley Hauerwas lembra os cristãos da obra e da adoração de que cada congregação é incumbida:

A riqueza da igreja é a riqueza dos pobres. A beleza de uma catedral é uma beleza que não exclui, mas, na verdade, atrai e inclui os pobres. A beleza da liturgia da igreja, de sua música e seus hinos, é uma beleza dos pobres e para os pobres. … “Sempre haverá pobres na terra” não é uma descrição para legitimar a falta de preocupação com os pobres, mas sim a descrição de uma igreja fiel. Esta mulher, esta mulher anônima, fez por Jesus o que a igreja sempre deve ser para o mundo — um unguento precioso, derramado abundantemente sobre os pobres.

Quando os cristãos se ajoelham diante de Jesus, adotam a sua postura para com os necessitados: uma postura de serviço humilde, devoção e sacrifício. E espelhar a postura de Jesus é preparar-se para carregar a sua cruz.

Brett Vanderzee é ministro de pregação e louvor na The Springs Church of Christ [Igreja de Cristo de Springs], em Edmond, Oklahoma. Ele também é cantor, compositor e coapresentador do podcast Bible & Friends.

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