Quando se espalhou a notícia de que agentes federais de imigração haviam atirado e matado Alex Pretti, cidadão de Minnesota, no último sábado (24/01), em Mineápolis, um grupo de pastores evangélicos hispânicos estava reunido no porão de uma igreja próxima do local.
O chefe de polícia de Mineápolis, Brian O’Hara, deveria estar na igreja para conversar com os pastores sobre os protocolos de segurança em suas igrejas, mas seus planos sofreram uma rápida mudança. Ele precisava ir até o local do homicídio.
“Nossos policiais estão lá fora, agora, tentando manter a ordem em meio à desordem causada pelo governo federal”, disse aos outros pastores o pastor Sergio Amezcua, da igreja Dios Habla Hoy [Deus Fala Hoje], que estava sediando a reunião. Amezcua, que antes apoiava Trump, agora diz que os apoiadores latinos se sentem “traídos”.
Os pastores formaram um círculo e deram as mãos para orar. Uma mulher ali presente chorava baixinho: “Deus, precisamos de ti. Precisamos da tua ajuda.”
“Sabemos que Tu nos vês”, orou ela.
O governo Trump apontou um esquema de fraude envolvendo a comunidade somali como justificativa para o recente aumento das operações de imigração nas Cidades Gêmeas (Mineápolis e Saint Paul); a maioria desses residentes, porém, são cidadãos americanos.
Cristãos que ajudam imigrantes na região disseram à CT que as operações junto aos imigrantes têm tido como alvo principal, na verdade, a comunidade hispânica. Entre as prisões, agentes da Patrulha de Fronteira e do ICE têm detido imigrantes que estão legalmente no país, bem como cidadãos americanos e refugiados com status legal.
Isso tem espalhado temor, entre as minorias raciais nas Cidades Gêmeas, de que o sistema de imigração e de asilo dos Estados Unidos — e até mesmo a própria cidadania — não ofereçam mais proteção suficiente contra detenções degradantes ou violentas.
A tensão é palpável nas Cidades Gêmeas, mas os agentes do ICE não ficam à vista em todos os lugares. Os moradores de Minnesota que monitoram ou protestam pacificamente contra o ICE continuam monitorando a situação, mesmo com as temperaturas congelantes desta última semana. Nos bairros onde o ICE é mais atuante, ouvem-se os apitos inquietantes dos que ficam de plantão, observando os agentes do Serviço de Imigração e alertando os moradores sobre a presença de agentes nas redondezas. Uma evangélica entrevistada pela CT disse que vê os apitos como uma forma de fazer com que as crianças entrem em casa, antes de qualquer confronto violento.
O pastor Héctor Andrade, da Comunidad Cristiana Twin Cities [Comunidade Cristã das Cidades Gêmeas], disse à CT que a maioria das pessoas das igrejas de latinos que ele conhece deixou a região. Mesmo os residentes legais não querem se reunir com outras pessoas em suas casas. Muitas pessoas evitam ir a supermercados, com medo de serem abordadas se saírem de casa. Andrade agora carrega seu passaporte para todo lado.
“Isso que está acontecendo é demais para nós. É avassalador”, disse ele. “Estamos com uma sensação de impotência.”
No andar de cima da igreja Dios Habla Hoy, voluntários carregavam caixas de alimentos, em um frio de 15 graus abaixo de zero, até os carros que aguardavam no estacionamento. Essa igreja, com o apoio de muitos voluntários não cristãos, tem distribuído alimentos, seis dias por semana, para milhares de famílias imigrantes que não saem de casa por medo. Dois dias antes, a igreja treinou 600 novos voluntários para ajudar na distribuição de alimentos, e a lista agora conta com 28.000 pessoas que precisam de comida.
Uma sala da igreja está cheia de fraldas. Outra está abarrotada de papel higiênico. Em toda a região das Cidades Gêmeas, vizinhos também doam, para outras igrejas, suprimentos para imigrantes. As doações também acontecem em restaurantes e cafeterias, em um cenário que parece o de uma comunidade se recuperando de um desastre natural.
Em apenas algumas semanas, as igrejas criaram uma extensa rede informal para a entrega de mantimentos a famílias imigrantes. No sábado (24/01), uma igreja evangélica em Mineápolis entregou alimentos para 60 famílias. Cristãos também estão arrecadando fundos para pagar o aluguel de imigrantes que não podem sair de casa para trabalhar.
Esses voluntários adotaram medidas de segurança para garantir que agentes do ICE não os sigam do local de distribuição de alimentos até as casas dos imigrantes. Devido às crescentes preocupações com a segurança, alguns deles pediram para permanecer no anonimato, quando falaram com a CT sobre esse trabalho de ajuda humanitária.
Um pastor evangélico, que sempre morou em Minnesota e que pediu para permanecer no anonimato, a fim de proteger os seus fiéis, tem levado em seu carro dois membros hispânicos de sua pequena igreja para o trabalho, todos os dias, para que não andem sozinhos. Eles são imigrantes em situação legal. Ele também está levando uma amiga de sua filha para a escola, depois que agentes do ICE apareceram no ponto do ônibus que a leva para a escola, certo dia de manhã.
“As pessoas da comunidade hispânica hoje convivem com uma sensação de perigo, e com razão”, disse ele. “Mas são pessoas que Deus colocou em nossas vidas. O que podemos fazer para ajudá-las?”
Ele é extremamente cauteloso ao transportar seus fiéis: respeita rigorosamente o limite de velocidade e desativa os serviços de localização do seu celular. Ele verifica os arredores, observando se há agentes da imigração, antes de deixar os passageiros saírem do carro.
“Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer nos EUA”, disse ele. “Há um claro chamado para os cristãos nos dias de hoje: ‘O que significa amar o estrangeiro?’”.
A CT confirmou que algumas igrejas de hispanos nas Cidades Gêmeas (Mineápolis e Saint Paul) não estão mais realizando cultos presenciais. A igreja Dios Habla Hoy está de portas fechadas para cultos e só permite a entrada de membros conhecidos. Amezcua disse que a igreja tem cerca de 80 frequentadores agora. Antes, eram 500.
Outra evangélica, mãe de quatro filhos, contou à CT que tem levado seis crianças hispânicas de sua vizinhança para a escola, todos os dias, porque os pais dessas crianças não se sentem seguros em mandá-las a pé ou em deixá-las ir até o ponto de ônibus. Ela também assinou um formulário de Delegação de Autoridade Parental (DOPA), uma declaração que diz que ela cuidaria temporariamente de duas crianças imigrantes, caso a mãe delas fosse deportada. Igrejas por toda a cidade têm ajudado as famílias a autenticar esses formulários de DOPA, e os próprios membros das igrejas estão se inscrevendo para acolher crianças imigrantes, em caso de necessidade.
Além de fazer entregas de alimentos, as igrejas também estão levando imigrantes a consultas médicas, em casos essenciais. No sábado, um voluntário levou uma criança pequena a uma consulta médica, enquanto outros monitoravam a área ao redor do consultório pediátrico, para garantir que agentes do ICE não tentariam levar a criança à força.
Uma agência evangélica local de reassentamento de refugiados, a Arrive Ministries [Ministérios da Chegada], tem coordenado ações com outro grupo, o The Advocates for Human Rights [Defensores pelos Direitos Humanos], oferecendo representação jurídica emergencial para pessoas que jamais imaginariam ser presas: refugiados que estão com a situação legal regularizada e reassentados, muitos anos depois da triagem.
Rebekah Phillips, codiretora executiva da Arrive, disse à CT que a organização está preocupada com os relatos que ouviu de seus clientes refugiados sobre as condições de detenção, nas últimas duas semanas. “São histórias realmente difíceis de ouvir”, disse ela.
A Arrive, que agora funciona a portas trancadas, tem notado um crescente interesse em ajudar, por parte de igrejas da região que nunca estiveram envolvidas com o apoio a imigrantes anteriormente. A equipe informou à CT que, desde o início das operações federais, 35 igrejas que começaram a trabalhar com a Arrive pediram para passar por sessões de treinamento.
“O que o governo está fazendo aqui é algo realmente ruim, monstruoso, e isso vem da boca de um pastor que antes achava que esta administração seria boa para a nossa comunidade”, disse Amezcua, da igreja Dios Habla Hoy. “É um pesadelo do qual queremos acordar o mais rápido possível”.