Church Life

Lendo a Bíblia em um ano: perseverar é mais importante do que ler rápido

Planos de leitura de Gênesis a Apocalipse em doze meses são populares, mas a maioria dos cristãos se aproxima de Deus e de sua Palavra em um ritmo mais lento.

An open Bible
Christianity Today January 15, 2026
Emmanuel Phaeton / Unsplash

Em um único dia ― no dia 1º de janeiro do ano passado ―, mais de 3 milhões de pessoas se inscreveram em planos anuais de leitura no aplicativo YouVersion. Milhões de outras pessoas baixaram podcasts com o mesmo tema; nos Estados Unidos, o The Bible Recap [Recaptulando a Bíblia]foi o programa mais popular de todos os gêneros no dia de Ano Novo de 2024, e o The Bible in a Year [A Bíblia em um ano], com o Padre Mike Schmitz, não ficou muito atrás.

As vendas de Bíblias impressas também estão em alta no geral, e o período próximo ao Ano Novo é provavelmente o mais popular para comprar títulos como The One Year Chronological Bible [Bíblia cronológica em um ano] ou The Bible Recap 365-Day Chronological Study Bible [Resumo Bíblico: Bíblia de estudo cronológica de 365 dias]. Cada capítulo possui uma caixinha para o leitor assinalar sempre que a leitura programada para aquele período for finalizada.

Esse anseio das pessoas de ler a Bíblia toda em um ano é uma boa notícia, certo? Olha, sendo bem sincera, mais ou menos.

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Os planos de leitura da Bíblia em um ano oferecem um caminho claro para um envolvimento diário com as Escrituras. Em termos ideais, eles nos ajudam a criar hábitos duradouros. Além disso, esses planos encorajam os leitores a irem além de seus livros favoritos e, por fim, encararem livros mais desafiadores. Quem consegue cumprir o plano com sucesso sente-se realizado. Só mencionamos coisas boas sobre esses planos de leitura!

Eles, porém, estão longe da perfeição, e dada a sua crescente popularidade, é essencial considerarmos algumas de suas desvantagens:

  • Priorizam quantidade em detrimento da qualidade, muitas vezes levando a uma compreensão superficial e a baixos níveis de retenção do que é lido, além de minimizarem o papel da meditação na Palavra e da oração na assimilação das Escrituras.
  • Eles nos ensinam a ler rápido as Escrituras, mas de forma isolada, em vez de a lermos lentamente, em comunidade, junto com a igreja.
  • Impõem ambições humanas a uma Palavra viva — uma Palavra que tem seus próprios propósitos, os quais vão além dos nossos.
  • Os participantes se veem tentados pela arrogância da autossuficiência, quando conseguem acompanhar o ritmo [proposto pelo plano], bem como tentados a sentir vergonha, quando ficam para trás.

Ler rápido e superficialmente é melhor do que não ler nada. Mas, na minha experiência, essa última hipótese [não ler nada] é frequentemente o resultado de planos anuais de leitura frustrados, que raramente são concluídos. Como líder ministerial, voluntária na igreja e professora de Bíblia, já vi inúmeras pessoas começarem a ler Gênesis em janeiro — colegas, mulheres mais velhas, membros de pequenos grupos. E posso contar nos dedos de uma mão o número daqueles que de fato chegaram a Apocalipse em dezembro.

Na maioria dos casos, a falha em cumprir o ritmo de leitura proposto pelo plano levou essas pessoas a desistirem por completo da leitura diária da Bíblia. Talvez elas teriam parado de dedicar tempo às Escrituras de qualquer modo, qualquer que fosse a estratégia adotada — sim, isso é possível. Mas a escala e o ritmo desses planos de leitura em um ano me parecem particularmente problemáticos.

A YouVersion não divulga a proporção dos que concluem com sucesso esses planos de leitura anuais, e a quantidade de downloads de podcasts não são informações particularmente confiáveis (a maioria dos que iniciam planos de leitura também se inscrevem em podcasts, o que significa que essas pessoas baixam todos os episódios em seu celular, quer elas os ouçam ou não). Em 2014, porém, a Bible Gateway compartilhou suas estatísticas dos programas de leitura anual da Bíblia com a Christianity Today.

Naquela época, a participação no plano atingiu seu pico em 1º de janeiro e caiu 30% já na primeira semana. No final de fevereiro, o tráfego para acessar o plano de leitura havia caído um terço e, em maio, caiu pela metade. Esses números só são ligeiramente superiores à porcentagem de pessoas que tentam perseverar em quaisquer outras das típicas resoluções de ano novo.

Por que tantas pessoas desistem de ler a Bíblia em um ano? Há muitos motivos. E dois deles se destacam.

O primeiro são os próprios níveis de leitura atuais. Considere os dados: mais de 50% dos adultos nos EUA não terminaram de ler sequer um livro no último ano, e 22% não terminaram de ler um livro nos últimos três anos. Menos de 9% dos adultos americanos leem poesia. (Ora, um terço da Bíblia é poesia). Aproximadamente 20% dos norte-americanos têm algum tipo de dislexia que prejudica sua capacidade de ler com destreza e grandes quantidades de páginas, e 54% dos adultos têm um nível de alfabetização que fica abaixo da sexta série (a Bíblia NVI é traduzida em um nível equivalente ao da oitava série). Já no Brasil, de acordo com uma pesquisa recente sobre a cultura da leitura em declínio e o avanço do ‘analfabetismo funcional’ no país, o número de não leitores representa 53% da população e 36% dos entrevistados admitiram ter alguma barreira de habilidade, como falta de concentração ou compreensão limitada.

De acordo com a Fundação Nacional para as Artes [National Endowment for the Arts], “a leitura em si é uma habilidade progressiva que depende de anos de educação e prática”. Se as pessoas não cultivarem o hábito da leitura, não podemos esperar que sejam leitores competentes da Bíblia.

Podcasts e Bíblias em áudio ajudam nesse sentido, mas não são uma solução mágica. Exceto para pessoas com dificuldades de leitura, ouvir algum conteúdo em áudio provavelmente não resultará em melhor compreensão e retenção do que ler um texto impresso. E o áudio não lida com questões relacionadas a crises como a diminuição da capacidade de atenção e ao declínio da capacidade de pensar de forma crítica.

Ora, se os norte-americanos e os brasileiros não são muito bons de leitura, e a Bíblia é um livro difícil de ler, como vão ler a Bíblia em um ano? E ainda mais ler três capítulos por dia, todos os dias? O crente médio está fadado ao fracasso logo de início.

Esses planos de leitura em um ano costumam funcionar para quem tem o hábito de ler. No caso dessas pessoas, a dificuldade do plano é um desafio, mas não um salto gigantesco. Eu, particularmente, já li a Bíblia em um ano por três vezes — mas ler é a minha profissão, e eu já havia lido a maior parte das Escrituras ao menos uma vez, antes de tentar ler a Bíblia toda. Mesmo assim, lê-la em um ano foi difícil (e eu nunca alcancei a famosa meta de ler “apenas 20 minutos por dia”). O que nos leva ao próximo motivo pelo qual a maioria das pessoas falha nesse propósito.

O objetivo estabelecido pelos planos de ler a Bíblia em um ano é simples — mas, para alcançá-lo, a maioria dos leitores precisa desenvolver o hábito da leitura diária. E, infelizmente, esses planos de leitura em um ano não são estruturados de forma a otimizar a criação desse hábito.

Segundo cientistas comportamentais, criamos um hábito quando definimos metas pequenas e fáceis, e vamos aumentando essas metas gradativamente, ao longo do tempo. Esse é o princípio central do livro de grande sucesso Hábitos Atômicos. Como escreve o autor James Clear: “Em vez de tentar fazer algo extraordinário já de início, comece pequeno e melhore gradualmente. Ao longo do caminho, sua força de vontade e sua motivação aumentarão, o que tornará mais fácil manter o hábito para sempre.”

A obra de Clear também enfatiza a importância de tornar os hábitos algo agradável, priorizando sistemas em vez de resultados: “Quando você se apaixona pelo processo, em vez do produto, não precisa esperar para se permitir ser feliz. Você pode se sentir satisfeito sempre que seu sistema estiver em funcionamento”.

Planos de leitura em um ano dividem a Bíblia em grandes partes iguais, em vez de começar com partes menores. E chegam rapidamente a alguns dos livros mais complexos da Bíblia, como Levítico. Além disso, oferecem pouco treinamento ao longo do caminho para ajudar os leitores da Bíblia a se tornarem melhores leitores — é impossível abordar todo o conteúdo e oferecer assistência substancial com apenas 20 minutos por dia.

Em minha experiência lendo a Bíblia com estudantes universitários cristãos, a maioria das pessoas precisa parar a cada dois ou três versículos e ler alguma explicação. Eles podem precisar de ajuda com o vocabulário teológico. Podem ter dúvidas sobre o caráter de Deus. Podem se perguntar o que está acontecendo, sempre que seus valores entrarem em conflito com aquilo que estão lendo.

Mas a maioria das perguntas deles são de simples compreensão: Quem é aquele mesmo? O que ele fez? O que ele está dizendo? Por que ele disse isso? Ignorar esses esclarecimentos por pressa de prosseguir na leitura significa perder a oportunidade de ter até mesmo uma compreensão superficial do que está acontecendo. Será que podemos dizer que lemos a Bíblia, se nem entendemos o que ela quer nos dizer?

Já vi muitos jovens se apaixonarem pela leitura da Bíblia, mas ler rápido não é o caminho para que isso aconteça.

Planos de leitura rápida e com grandes metas esgotam a força de vontade e enfatizam excessivamente a importância da meta estabelecida (ler a Bíblia inteira rapidamente), em vez de fomentar a verdadeira motivação para ler a Palavra. Os leitores não se sentem satisfeitos ao longo da caminhada, pois geralmente sentem que estão ficando para trás em relação a suas metas.

Às vezes, sentar e ler um livro inteiro da Bíblia, de uma só vez, ou talvez ouvi-lo ser lido em voz alta por outra pessoa dessa maneira, como faziam os primeiros cristãos, é uma ótima ideia. Mas a palavra-chave aqui é às vezes.

Digamos que você queira ler mais as Escrituras este ano. O que provavelmente funcionará melhor [para alcançar esse objetivo]?

Como a capacidade de atenção é curta e o hábito de ler ainda está sendo formado, os novos leitores da Bíblia devem começar aos poucos e ir devagar. Leia um salmo por dia. Leia um dos evangelhos em um ritmo adequado. Em vez de ler superficialmente todo o Sermão do Monte em um dia só (que seria o dia 259 de um plano de leitura em um ano), e seguir logo em frente, leia o texto em porções digeríveis, reservando tempo para pesquisar suas dúvidas e considerar aplicações práticas.

Como a maioria das pessoas ainda não desenvolveu o gosto pela leitura da Bíblia, os novos leitores devem integrar a leitura bíblica a atividades que realmente apreciam, e devem celebrar suas conquistas. Leia a Bíblia no café da manhã. Leia-a com alguém de quem você gosta — um amigo, seu cônjuge. Leia-a na varanda. Leia-a logo após o exercício, enquanto estiver com a energia liberada pela endorfina. E, então, recompense a si mesmo por sua fidelidade em cumprir seu compromisso. Compre um marcador de texto novo ou um bolinho na sua padaria favorita. Ouça aquela música que você adora e que só ouve quando alcança uma meta estabelecida. Faça sua oração com um salmo de celebração.

Como a leitura é algo difícil para muitos e a Bíblia é um livro especialmente complexo, os novos leitores devem sempre buscar mestres — não apenas vozes online, mas pessoas reais, de carne e osso, que possam responder às suas perguntas em tempo real. Isso pode incluir encontros semanais com um mentor ou um estudo bíblico feito em uma igreja local.

Cultivei meu gosto pelas Escrituras com o meu avô. Eu o acompanhava em estudos bíblicos e ficava observando sua expressão facial, enquanto ele explicava as partes mais complexas para membros da igreja que queriam aprender mais. Ele irradiava paixão e alegria. Eu queria amar a Bíblia como ele a amava. E, com o tempo, consegui.

Aprendi a ter disciplina na leitura da Bíblia em um salão de convivência da igreja, estudando Daniel em mesas de plástico brancas. Eu era uma jovem mãe em meio a uma dúzia de pessoas aposentadas. A dedicação delas ao estudo da Bíblia me inspirou a ser dedicada também. Quanto mais o estudo avançava, com mais e mais fidelidade eu lia a Bíblia.

Ao longo dos anos, passei a apreciar os planos de leitura de livros inteiros oferecidos pela YouVersion ou pelo BibleProject. Li livros da Bíblia junto com comentários bíblicos recomendados. Li a Bíblia em grupo, usando os estudos mais recentes de Beth Moore ou de Priscilla Schirer. E li a Bíblia com meus filhos.

Mas nada funcionou tão bem quanto simplesmente escolher um trecho para ler, deixar minha Bíblia aberta nele, me sentar todos os dias com um café fresquinho e me permitir ler o quanto eu quisesse, fosse muito ou pouco. Alguns dias, isso significava ler dez versículos. Outros dias, ler um livro inteiro. Quando falho em minha leitura, não fico arrasada nem envergonhada. Não há capítulos para recuperar. Há apenas um café quente e fresco, o lugar no sofá em que gosto de sentar e um livro que amo ler, na presença de um Deus sobre quem amo ler.

Quando os leitores conseguem desenvolver com sucesso tanto o apetite quanto a disciplina necessários para ler a Bíblia, então é hora de considerar lê-la por completo. A paixão e o hábito guiarão o caminho.

Estabelecer pequenas metas e ler lentamente não é um método que agrade a todos. Parte da razão pela qual os planos de leitura em um ano são tão populares é porque oferecem um caminho rápido para o objetivo desejado de “ter lido” a Bíblia toda.

Esse desejo muitas vezes está relacionado, ao menos em parte, à aquisição e à realização, assim como acontece com uma lista de desejos (visitar todos os parques nacionais, comer em todas as pizzarias da cidade, viajar para todos os continentes) ou com o desejo de capturar todos os Pokémons.

Talvez o primeiro passo para a igreja de hoje seja esquecer as conquistas, os pontos ganhos a cada tarefa e o “x” que assinalamos na lista de metas a cumprir, e aprender a amar o jogo —crescendo no amor e no conhecimento do Senhor, não importa quanto tempo isso leve.

J. L. Gerhardt lidera meditações bíblicas no Deep Water. Slow Reading. [Águas Profundas. Leitura Lenta.] Ela é autora do audiolivro autobiográfico The Happiest Saddest People [As pessoas tristes mais felizes].

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