Church Life

Os verdadeiros perigos da pornografia 

Christine Emba conversa com Russell Moore sobre como as descobertas da psicologia apoiam os preceitos bíblicos.

A man on his phone in shadow.
Christianity Today December 18, 2025
Harry Prabowo / Unsplash

A ética sexual cristã afirma que as relações sexuais devem ocorrer apenas no contexto do casamento; no entanto, não é assim que pensa a grande maioria dos ocidentais, muitos deles cristãos. O consumo de pornografia está praticamente desenfreado, e não apenas fora da igreja.

Christine Emba, pesquisadora sênior do American Enterprise Institute [Think Tank norte-americano de políticas públicas] e autora de Rethinking Sex [Repensando o Sexo], disse a Russell Moore, em seu podcast, que a pornografia agora molda os desejos das pessoas. Se você é ouvinte desse podcast, acesse o episódio neste link. Para os leitores de plantão, as palavras a seguir são a versão transcrita, editada e revisada do episódio, a começar pela descrição de Emba sobre como a pornografia funciona:

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Existe o ato corriqueiro de quem assiste [à pornografia], porque algo ali atrai essa pessoa, como uma música que fica na sua cabeça. Depois, há a pornografia em si, que ativa nosso instinto sexual, o qual é um dos nossos desejos mais profundos e um dos nossos centros de prazer mais intensos. E, no entanto, a pornografia não trata de relacionamentos reais. Ela sequer tenta demonstrar o que é amor e respeito genuínos pelo outro. Por meio da pornografia, o que fazemos é consumir corpos de outras pessoas.

A idade média da primeira exposição à pornografia situa-se entre os 13 e os 15 anos. Nela, a relação entre homem e mulher que as pessoas observam é frequentemente violenta e repugnante: estrangulamento, tapas, agressões, linguagem obscena, mulheres tratadas como objetos a serem abusados. Isso molda a imagem que esses jovens têm dos papéis do homem e da mulher [nos relacionamentos].

O consumidor de pornografia é alimentado com categorias das quais supostamente gosta ou deveria gostar, e isso faz com que nossa imaginação seja ainda mais canalizada para certas direções. “Clique aqui para ver loiras. Clique aqui para ver mulheres mais jovens. Clique aqui para ver outra coisa.” Mulheres e homens reais, de carne e osso, trabalham nessas produções: “Essas pessoas são objetos para o meu consumo, e tudo o que lhes acontece vale a pena porque [através disso] eu tenho o que quero”. Isso ensina os homens a verem as mulheres como seres criados apenas para satisfazer os seus desejos, para o seu consumo.

Essa compreensão do propósito das mulheres pode transbordar para a vida real e para as interações reais com outras pessoas. As pessoas dizem: “É só pornografia. É só algo que estou assistindo. Não tem nada a ver com a minha vida real.” Mas não é assim que as pessoas funcionam. O nosso cérebro não é programado dessa forma, e muito menos a nossa alma.

Há muito debate sobre a linguagem do vício ser aplicada à pornografia.

A ciência compreende o vício como algo que você não consegue controlar, uma patologia que afeta sua vida de forma negativa. Algumas pessoas têm sintomas de abstinência quando param de consumir pornografia. Mas a pornografia também transforma os usuários de outras maneiras.

Entrevistei um jovem que participava de um programa de estudos autodirigido, em um campus universitário, e não conhecia ninguém. Ele estava entediado e solitário; então, começou a assistir muita pornografia. Ele também queria um dia ter um relacionamento e, eventualmente, se casar. Mas descobriu que não conseguia se sentir fisicamente atraído por alguma mulher de quem gostasse, porque ela não se parecia com o que ele via na pornografia. Eram mulheres de verdade, com defeitos, e ele havia se condicionado a não gostar de mulheres reais. A solução para ele foi eliminar completamente a pornografia e tentar reformular sua compreensão de atração.

Deu certo para ele. Agora ele é casado e está esperando o nascimento do primeiro filho. O primeiro passo foi reconhecer o que a pornografia pode representar. É fácil acessar. Não exige nada de você. Está sempre lá. Para ir a um encontro marcado, você precisa tomar banho, se vestir, sair de casa, conversar com alguém que pode rejeitá-lo, e, nesse caso, ter de encontrar outra pessoa que também pode vir a rejeitá-lo. Isso dá muito trabalho. Minha maior preocupação são os jovens que afirmam que a pornografia “não é o ideal, mas dá para o gasto” — e que isso os impeça de ir além.

Estudos acadêmicos comprovam o perigo?

Pesquisas mostram que homens jovens que assistem à pornografia violenta são menos propensos a intervir em situações em que mulheres pedem ajuda e mais propensos a culpar a vítima, em caso de estupro. Mas é difícil encontrar estudos conclusivos sobre pornografia, porque muitos deles têm motivação ideológica. As empresas cujo negócio é a pornografia querem provar que não há problema. As organizações religiosas querem provar que a pornografia é nociva. Muitos leitores consideram as pesquisas tendenciosas, mas elas podem mostram que nos habituamos a certas coisas. Quando fazemos algo de forma repetitiva, isso se torna banal para nós, inofensivo ou até mesmo parte da nossa própria prática.

Tenho observado um grande movimento na direção de casamentos sem sexo — e não me refiro ao padrão típico de pessoas mais velhas que sofrem com a diminuição hormonal, mas sim a casais jovens. Em quase todos os casos, o motivo é o homem. Eles explicam que o sexo com a esposa parecia estranho e emocionalmente intenso demais depois da pornografia, que para eles nada mais é do que algo que consomem.

A pandemia dificultou os encontros românticos entre os jovens, especialmente para essa faixa etária em que eles aprendem a se relacionar. Isso deixou alguns homens muito mais nervosos e cautelosos em relação a interagir com mulheres. Não era possível sair e se encontrar com alguém, mas a pornografia estava sempre disponível por meio de smartphones.

Ouço muitas jovens relatando que os homens que encontram são influenciados por pornografia. Elas dizem: “Eu estava trocando mensagens com um cara e ele começou a me dizer coisas estranhas e nojentas. Não quero me relacionar com alguém assim”.

Elas também dizem: “Transei com um cara que já de início tentou fazer coisas malucas e violentas comigo”, coisas como estrangulamento-surpresa, algo que se tornou chocantemente comum nos últimos anos e que certamente veio da pornografia. “Um cenário em que homens se comportam comigo da mesma forma como se comportam com pornografia é aterrorizante. Por isso, prefiro simplesmente não me envolver com mais ninguém. Não vou ter um relacionamento. Se isso é o que existe por aí, eu não vou mais namorar”. Isso afasta as pessoas de ambos os lados.

Em que pontos uma pessoa deve prestar atenção para saber se um relacionamento amoroso tem potencial para ser saudável?

Isso pode parecer simplista, mas não é. A pessoa com quem está se relacionando trata você como pessoa — e não como um objeto, como alguém que está ali para satisfazer desejos, mas sim como alguém que está interessado em você como pessoa, em seus pensamentos, em sua sensibilidade?

Fico me perguntando se não seria interessante termos uma espécie de mentoria para os jovens, com orientações de pessoas mais velhas que entendem quais são as normas. É normal que as pessoas não queiram conversar com os pais sobre isso, mas pode ajudar ter uma pessoa mais velha — que pode ser alguém da igreja, um tio ou uma tia que se mostrem disponíveis — para dar uma opinião honesta, algo como: “Isso não me parece normal”. “Você está seguro sobre isso?”.

Nos Estados Unidos, valorizamos muito o individualismo e a liberdade de escolha das pessoas, sem interferências; mas receber essa orientação [de alguém com mais experiência] é realmente importante. Eu não posso simplesmente chegar nas pessoas, do nada, e oferecer orientação sobre relacionamentos e intimidade. Existe sim uma lacuna, um distanciamento entre gerações. Geralmente as pessoas conversam e criam laços de amizade com pessoas da mesma faixa etária, mas seria valioso encontrar maneiras de superar essas barreiras, seja nas igrejas ou individualmente.

A discussão sobre pornografia se relaciona com a discussão sobre smartphones de alguma maneira, no sentido de que as pessoas presumem que o mundo é assim mesmo e que não há nada que se possa fazer a respeito?

Mas nós podemos fazer algo a respeito. A Geração Z, na verdade, é mais favorável a regulamentações sobre pornografia e o acesso a ela do que as gerações mais velhas — é favorável a normas como, por exemplo, a proibição por idade, como a que já foi adotada em vários países. Essa resistência contra a forma como esse tipo de pornografia dominou a internet tem encontrado apoio. Isso provavelmente acontece porque os jovens, em particular, convivem com esse problema a vida toda e já viram como isso os prejudicou.

A verificação de idade e outras medidas semelhantes realmente funcionam?

É cedo para dizer, mas, por exemplo, o Pornhub, um dos maiores sites de streaming de pornografia, decidiu simplesmente não oferecer mais conteúdo pornográfico para alguns estados norte-americanos onde essas leis de verificação de idade foram implementadas. Isso é uma vitória. É verdade que as pessoas podem usar VPNs [sigla em inglês para Rede Virtual Privada, uma tecnologia que criptografa seus dados e mascara o seu endereço IP, o que torna a sua navegação anônima] ou mesmo outros métodos para burlar essas ferramentas de verificação de idade, mas elas representam um obstáculo. Criam uma barreira entre os jovens e os sites pornográficos.

E essa barreira tem seu efeito. Mesmo que algumas pessoas decidam que vale a pena contorná-la, outras não o farão. A lei é um mestre. A restrição de idade e a rotulagem deixam claro que a prática não é inofensiva, mas sim algo sobre o qual se deve pensar duas vezes, algo que só se deve assistir quando se tem idade suficiente — ou talvez nem se deva assistir, de forma alguma.

Isso semeia a ideia de que a pornografia é algo perigoso. E essa é uma ideia importante porque, atualmente, o discurso predominante diz: “Está tudo bem. Vá em frente. Faça o que quiser.” Mas, até agora, esse discurso não ajudou ninguém.

Temos quase um consenso, pelo menos na sociedade norte-americana em geral, de que pornografia infantil é algo errado. Certo?

Sim; porém, muitas vezes, o argumento central parece girar em torno apenas do abuso cometido contra as crianças envolvidas, o que com certeza é uma das principais razões pelas quais a pornografia infantil é algo errado. Porém, com o uso de IA permitindo a geração de imagens artificiais — o que impede que uma criança de carne e osso seja abusada —, não se tornará mais difícil argumentar que a pornografia infantil é algo errado? Muitos dirão que é um crime sem vítimas [se forem usadas imagens geradas por IA].

Embora esse último argumento exista, espero que as pessoas possam ir além dele. É horrível e assustador. Você pode condicionar sua atração. Eu me sinto extremamente desconfortável quando ouço coisas como “não há problema em se condicionar a gostar de material que envolve abuso sexual infantil, desde que você não vá além disso [de assistir]”.

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