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A odisseia dos programas globais de saúde sob o novo governo Trump

Recursos cancelados. Recursos renovados. Novos documentos mostram a extensão dos cortes históricos feitos pela atual administração e quais programas foram salvos.

A mother holds the severely malnourished arm of her one-year-old in a hospital in Sudan.

Rem Abduli holds the wrist of her one-year-old daughter suffering from severe malnutrition in a hospital in Sudan in 2024.

Christianity Today April 28, 2025
Guy Peterson / AFP

Nota da edição da CT em português: este artigo foi traduzido porque trata de medidas tomadas pelo governo estadunidense e contém detalhes da política externa e interna dos EUA que têm repercussão e impacto global, pois trazem informações importantes sobre a USAID e sobre financiamentos a certas iniciativas que foram afetadas ao redor do mundo. 

Após anos atuando como missionário e, depois, como pastor, Mark Moore abriu uma fábrica de pasta de amendoim, a Mana Nutrition, em Fitzgerald, uma pequena cidade no estado da Georgia.

É uma organização sem fins lucrativos que produz alimento terapêutico pronto para o consumo (RUTF, na sigla em inglês). O produto é feito à base de pasta de amendoim e é destinado a crianças do mundo inteiro que sofrem de desnutrição severa. Com uma fórmula que mistura amendoim, leite, vitaminas e açúcar em pó, é um produto não perecível e embalado de forma a facilitar a distribuição.


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A desnutrição é a causa de quase metade das mortes passíveis de prevenção de crianças de até cinco anos. Com o uso de alimento terapêutico pronto para o consumo, 90% das crianças com desnutrição se recuperam em apenas algumas semanas.

A USAID tinha contratos com a Mana para a produção de milhares de toneladas da pasta de amendoim para lugares como Sudão e República Democrática do Congo, que estão enfrentando crises alimentares. Depois do início do mandato de Trump, o contrato com a Mana foi interrompido, para que fosse feita a revisão de 90 dias, por parte do governo, de toda a ajuda externa promovida pela USAID. Logo em seguida, o contrato foi retomado como “ajuda para salvar vidas” isenta [no sentido de ter sido avaliada como neutra, imparcial].

Depois, o contrato foi completamente rescindido.

E, mais uma vez, retomado novamente.

O dramático desmantelamento da ajuda humanitária dos Estados Unidos, ao longo das últimas semanas, colocou organizações inteiras em uma montanha-russa de vida e morte. A maioria não teve seu sustento restaurado.

Para iniciativas cristãs sem fins lucrativos que trabalham para salvar vidas, as decisões em torno de quais programas permaneceram e quais serão cortados são inexplicáveis.

Diversas organizações tiveram de demitir e, depois, recontratar empregados; tiveram também de implorar ajuda de doadores para fundos emergenciais; e ainda tentar manter a confiança de parceiros locais que se sentiram traídos.

“Não havia motivos para detonarem essa medida tão destrutiva [do governo estadunidense] que temos visto nas últimas seis semanas”, disse Randy Tift, um veterano da USAID que liderou uma série de reformas internas na agência, durante o primeiro mandato de Trump. “As decisões tomadas não foram compreendidas pelo time [da USAID]”.

Em uma vigília recente, motivada pelos cortes de financiamento dos programas e que ocorreu no Capitol Hill [local em Washington onde fica a sede do governo dos EUA e abriga o Capitólio dos Estados Unidos, o Senado, a Câmara dos Representantes e a Suprema Corte], Tift — hoje um consultor-sênior na Accord Network, que é uma coalizão de organizações cristãs dedicadas a trabalhos de assistência humanitária e desenvolvimento — disse que aqueles na USAID que não estivessem agindo de forma correta poderiam ter sido “facilmente encontrados e eliminados” da organização [e, dessa forma, não haveria razão para o desmantelamento da USAID].

Ele lamentou “a destruição de colaborações eficazes e insubstituíveis na área de desenvolvimento, como, por exemplo, o monitoramento de doenças infecciosas […] sistemas de alerta precoce para o problema da fome […] programas pleiteados por líderes religiosos, e que nós apoiamos, para mudar práticas como o trabalho infantil forçado e outros tipos de violências diárias cometidas contra pessoas pobres, e que sabemos que podem ser solucionadas.”

Depois do congelamento e da revisão de quase todos os contratos da USAID, o Secretário de Estado Marco Rubio recentemente anunciou a rescisãode quase 80% dos contratos, entre os quais estão muitos que foram firmados com grupos religiosos que proviam ajuda para salvar vidas.

No final de março, muitas organizações religiosas ainda estavam recebendo a notícia de que seus contratos haviam sido rescindidos.

“É difícil quantificar o impacto da perda de confiança de nossos parceiros locais ao redor do mundo”, disse Michael Cerna, CEO da Accord Network.

Apenas umas poucas organizações viram seus contratos serem renovados, mas, mesmo nesses casos, a interrupção abrupta [dos contratos para o governo Trump fazer a sua revisão] desmantelou toda a infraestrutura de ajuda.

Alguns sistemas de dados para rastreamento de questões de saúde não são mais financiados, por exemplo. Medicamentos para HIV podem continuar sendo financiados, mas os funcionários especializados e treinados para o tratamento do HIV e suas complicações podem ter sido cortados. Um funcionário sem treinamento consegue aplicar um simples refil de algum medicamento antirretroviral (ARV), mas ele não saberia o que fazer no caso de um paciente com HIV que chegasse com alguma complicação no fígado.

Na última semana de março, a administração Trump enviou uma planilha com 281 páginas para o congresso estadunidense, detalhando quais são os contratos ativos e os cancelados da USAID, como foi mostrado em primeira mão pelo The New York Times. Ao todo, 5.341 contratos foram cancelados e 898 mantidos, de acordo com os detalhes enviados para o congresso, os quais a CT revisou.

No final de fevereiro, o contrato da Mana Nutrition estava entre os milhares de contratos da USAID que receberam notificação de rescisão. Isso significou que a Mana não poderia nem ao menos entregar o alimento terapêutico que já havia sido produzido. (A Mana não é oficialmente uma iniciativa religiosa, mas Moore a define como uma iniciativa “que tem ligações com a fé”, que tem laços com a Igreja de Cristo).

A atenção dada pela mídia ao caso da Mana fez com que o apresentador de podcast e ator Jon Favreau [que trabalhou em filmes como Homem de Ferro, Chef, Mandalorian, entre outros] fizesse um post no X [antigo Twitter] afirmando que o Departamento de Eficiência Governamental, liderado por Elon Musk [dono do X], estava matando crianças de fome. Musk respondeu Favreau com um palavrão e afirmou que ele mesmo verificaria o caso.

Logo depois, a Mana teve o seu contrato renovado, ao menos pelos próximos meses.

“Eu senti um senso de culpa por ter sobrevivido”, disse Moore. “O terremoto aconteceu, e nós ainda estamos de pé”.

Mas, mesmo para uma organização que teve seu contrato renovado, parar e depois retomar as atividades não foi nada fácil. A Mana funciona em larga escala, fechando contratos com produtores de amendoim e de leite com meses de antecedência, para que os produtos sejam enviados para o Congo neste verão.

A empresa está trabalhando para cumprir os contratos renovados, enquanto espera o pagamento de 20 milhões de dólares do governo federal, para contratos já executados e concluídos a partir de dezembro passado.

Embora seu contrato tenha sido renovado, os pagamentos continuam congelados. A equipe reduzida da USAID está sobrecarregada gerenciando projetos, disse Moore.

A Mana gasta 200 mil dólares por dia em ingredientes para as próximas remessas, disse Moore. Ele sabe que tem a opção, que está muito longe de ser a ideal, de obter uma linha de crédito em um banco apresentando como garantia o contrato federal. Os contratos atuais da organização sem fins lucrativos vão até maio.

Se os contratos que tratam de produtos para a desnutrição forem rescindidos novamente, disse Moore, “temos uma grande e incrível instalação para a produção de pasta de amendoim — e podemos mudar o foco e passar a fazer pasta de amendoim para animais de estimação ou algo assim menos nobre”.

Enquanto isso, com os atrasos na cadeia de suprimentos, ele não tem certeza de como todo o alimento terapêutico (popularmente conhecido como “plumpy’nut”) que está em processo de produção será enviado a seus destinos.

Ele se reuniu com a World Vision e a Samaritan’s Purse, na tentativa de encontrar maneiras de estabilizar as cadeias de suprimentos nos países em que a Mana está trabalhando.

Outros cortes afetarão o trabalho da Mana nos próximos meses. Por exemplo, há clínicas nas quais os médicos prescreviam o alimento terapêutico produzido pela Mana e que estão fechadas. A USAID financiou um sistema de alerta precoce para a fome ao redor do mundo, a fim de que os grupos soubessem para onde direcionar as remessas; mas não está claro se esse programa continuará funcionando.

Por falar nisso, Moore não teve como não deixar de lado sua persona de empresário e retomar seu papel de pastor

“Os discípulos disseram a Jesus: ‘Manda essas pessoas embora, Senhor. Elas estão com fome — deixe que comprem algo no mercado para comer’”. “Jesus respondeu: ‘Devemos alimentá-las’. […] Acho que acreditamos mais no mercado do que em nossa fé”.

Com base na revisão que fez da planilha enviada pela USAID ao Congresso, a CT verificou que entre as muitas organizações religiosas que tiveram seus contratos rescindidos estavam grupos que forneciam tratamento para HIV/AIDS por meio do President’s Emergency Plan for AIDS Relief (PEPFAR) [programa emergencial do governo estadunidense para o combate à AIDS]; tratamento para tuberculose, tratamento para malária e outros cuidados gerais de saúde.

Todos os subsídios da USAID para escolas e hospitais estadunidenses no exterior foram cancelados. Hospitais cristãos, como o Cure International, foram afetados por essa medida.

Os recursos para tuberculose foram cortados em 56%; e para malária, em 36%, segundo a análise do Center for Global Development (CGD) [Centro para o Desenvolvimento Global]. Setores como planejamento familiar, ensino superior, infraestrutura, abastecimento de água e saneamento, além de saúde materna e infantil foram quase totalmente zerados, de acordo com a análise do CGD.

Entre os contratos rescindidos estava uma grande parcela dos recursos que seriam enviados ao Uganda Protestant Medical Bureau [Departamento Médico Protestante de Uganda], para tratamento e cuidados do HIV. Uma fonte africana disse à CT que, com o corte desses recursos, algumas clínicas missionárias em Uganda tiveram de fechar as portas.

Ucrânia, Etiópia e República Democrática do Congo sofreram os maiores cortes de recursos de ajuda, segundo o CGD. A Libéria teve o maior corte em termos percentuais de sua economia.

Os especialistas entrevistados pela CT não conseguiram discernir a lógica adotada pelo governo para fazer o corte ou a preservação de programas. 

Na Nigéria, um grande programa de tratamento de tuberculose foi preservado. Nas Filipinas, onde a tuberculose é um problema muito sério, o programa de tratamento foi zerado.

No final de fevereiro, a administração Trump enviou uma mensagem oficial, na qual pedia explicações dos beneficiários de subsídios sobre como os programas financiados pelos EUA atendem a três critérios: tornar a América “mais segura, mais forte e mais próspera”. A mensagem afirmava que o objetivo da ação era aumentar a conscientização, colocando “a soberania acima do globalismo” e evitar “uma mentalidade de bem-estar global”.

Os beneficiários dos subsídios precisam aderir a certos protocolos. Por exemplo, eles precisam afirmar: que estão seguindo a Mexico City Policy [política do governo estadunidense que bloqueia financiamento federal para organizações não governamentais que promovam aconselhamento ou encaminhamento para aborto; que promovam a descriminização do aborto ou que expandam os serviços na área], que têm políticas antitráfico e que não há em seus projetos “elementos DEI” [ligados a diversidade, equidade e inclusão] ou elementos de “justiça ambiental”. Esses beneficiários também devem declarar se seus projetos incluem planos de transição para deixarem de contar com a assistência estrangeira dentro dos próximos cinco anos.

As organizações não sabem dizer se suas respostas a essas perguntas desempenharam algum papel na renovação dos subsídios.

Continua sendo uma questão jurídica em aberto saber se o poder executivo pode ou não cortar recursos unilateralmente, mas o congresso, atualmente controlado pelos republicanos, até agora não contestou as decisões de Trump de interromper esses subsídios. A questão do fechamento da USAID pelo governo Trump ainda está tramitando nos tribunais.

Um grupo menor de organizações religiosas teve o financiamento da USAID restaurado. Mas a montanha-russa tem sido exaustiva até para essas organizações.

Partners in Hope [Parceiros na Esperança], um centro médico cristão de importância vital, que relata supervisionar o tratamento de HIV para 207 mil pacientes no Malawi, perdeu seus recursos do PEPFAR quando, ao assumir o governo, Trump interrompeu de maneira geral os recursos enviados pela USAID.

Há um mês, Partners in Hope recebeu uma notificação de que, após a revisão, seus contratos foram rescindidos. O hospital teve que demitir 1.100 membros de sua equipe. Foi um golpe devastador.

A African Mission Healthcare [Missão Africana para Cuidados de Saúde], uma fundação que tem laços profundos com o hospital Partners in Hope, interveio, oferecendo ajuda financeira para manter aberta a clínica para tratamento de HIV para 5.700 pacientes.

Então, no final de março, os contratos do Partners in Hope para cuidados e tratamento de pacientes com HIV foram renovados. O centro médico tentará iniciar o complicado processo de recontratação de funcionários, quando o envio dos recursos for retomado.

“Estamos satisfeitos pelo fato de o governo dos EUA enxergar o valor do Partners in Hope e desse tipo de cuidado. Tem sido uma montanha-russa de altos e baixos, e agora esperamos que os recursos cheguem rapidamente”, disse Jon Fielder, um médico especialista em HIV de longa data que lidera a African Mission Healthcare (AMH). “Esperamos que todos esses subsídios para cuidados e tratamento sejam ativados. A AMH teve de intervir para manter a clínica aberta, mas outras clínicas não tiveram parceiros assim.”

Outros funcionários da organização disseram à CT que demitir e recontratar funcionários é um processo que muda de complexidade de país para país — e transita entre questões ligadas a impostos, indenizações e leis locais. Em alguns países, as leis exigem um ano inteiro de indenização [para o empregado que foi demitido], o que significa que, se uma organização sem fins lucrativos tiver seu contrato renovado, ela pode ter que pagar um salário de indenização [ao demitido] e ter de contratar outro trabalhador para fazer o mesmo trabalho.

A PIM, uma maternidade cristã na Costa do Marfim que trata milhares de mães e crianças com HIV, é outra organização que recebeu um aviso de rescisão total de seu contrato no final de fevereiro.

Kip Lines, chefe do braço internacional da Christian Ministry Fellowship (CMF), a organização missionária dos EUA que sustenta a PIM, disse que ficou com o coração partido quando viu a rescisão. O contrato deveria ir até setembro de 2028.

Como muitos outros grupos, após a interrupção e a rescisão, a organização da Costa do Marfim estava lutando para conseguir medicamentos antirretrovirais, a fim de continuar o tratamento do HIV. A CMF Internacional começou a arrecadar fundos de doadores nos EUA para a compra de antirretrovirais, mas não sabia quanto tempo essas doações de emergência durariam.

Então, na semana em que esta reportagem estava sendo escrita, o financiamento PEPFAR da PIM foi restaurado até setembro deste ano. Em uma publicação no Facebook, Lines agradeceu a indivíduos e a igrejas por tê-los ajudado a dar continuidade ao tratamento durante os dois meses em que os recursos foram cortados.

“Por favor, continuem orando por aquelas pessoas do nosso governo que estão avaliando e tomando decisões sobre quais programas financiarem”, escreveu Lines no Facebook. “Sei que muitos programas não receberão as boas notícias que recebemos.”

Dois meses após o congelamento dos recursos, com a incerteza contínua, os médicos disseram à CT que veem o mês de abril como um momento crítico para as organizações sem fins lucrativos de saúde global cujo financiamento foi cortado. As equipes se foram, os suprimentos estão diminuindo e o dinheiro que chega dos apelos de arrecadação de fundos de emergência pode estar minguando.

Enquanto isso, a Mana Nutrition não tem certeza de quando receberá seus recursos e se seu alimento terapêutico chegará às bocas daqueles que sofrem com a fome. Mas sabe que agora tem pasta de manteiga de amendoim para crianças desnutridas a caminho do Sudão do Sul.

“Estamos determinados a enfrentar a tempestade”, disse Moore. “Mas essa é uma grande tempestade.”

Reportagem adicional da Harvest Prude.

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