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Nesta Páscoa, quem perder a esperança a encontrará

Editor in Chief

A verdadeira esperança é mais do que palavras de consolo, palpites ou previsões.

Illustration of a silhouette of a pile of debris with a flower growing from it.
Christianity Today March 27, 2026
Illustration by Ben Hickey

Certa vez, precisei ajudar alguém a perder a fé. Ou mais ou menos isso.

Essa pessoa, uma mulher, vinha de um contexto que pregava a teologia da prosperidade, no qual usavam a admoestação “tenha fé” para manipulá-la a doar mais dinheiro para aquele ministério. Diziam a ela que a sua falta de fé era a culpada por sua enfermidade e pobreza. Em certo momento, depois de ouvir essa mulher se lamentar por sua falta de fé, eu disse: “Por que não deixamos a fé de lado por um instante e simplesmente confiamos em Jesus?”

Confiar em Jesus é, evidentemente, o que a Bíblia chama de fé. E, na plenitude dos tempos — ou seja, no momento certo —, eu lhe disse isso. Mas, antes que pudesse compreender a realidade pela qual podia viver, ela precisava abandonar a ilusão com a qual fora enganada. Quando parou de se preocupar com o quanto de fé tinha e voltou-se para Cristo, ela começou a, de fato, exercer a fé. Ultimamente, tenho me perguntado se essa mesma situação não se aplica também à maioria de nós, mas em relação a outra palavra tão importante que perdeu seu significado: a esperança.

Meus irmãos e irmãs cristãos evangélicos amam a palavra esperança quase tanto quanto um pastor que é pego em adultério ama a palavra graça. Em quase todos os círculos e situações nos quais tenho a oportunidade de falar, uma das primeiras perguntas que as pessoas fazem é: “O que lhe dá esperança?” ou “Onde você vê sinais de esperança?”. Quando as pressiono para que definam o que realmente querem saber com aquela pergunta, elas acabam descrevendo aquilo que buscam como uma espécie de segurança mensurável — isto é, buscam palavras tranquilizadoras, ditas por alguém que tenha autoridade, dizendo que tudo ficará bem.

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Se eu fosse mais corajoso, simplesmente lhes responderia: “Uma geração perversa e adúltera pede um sinal milagroso, mas nenhum sinal será dado, exceto o sinal do profeta Jonas” (Mateus 12.39). Mas sou feito de uma fibra mais mole do que a de Jesus; então, normalmente dou alguns indícios de coisas boas que estão por vir. Quando faço isso, porém, estou lhes oferecendo palpites ou previsões, e não esperança.

Por definição, quaisquer estatísticas que eu pudesse apresentar sobre a venda de Bíblias ou a frequência às igrejas, por exemplo, não poderiam ser vistas como esperança, mesmo que esses números fossem muito melhores do que na realidade eles são. Mas o apóstolo Paulo nos diz: “Contudo, esperança que se vê não é esperança, pois quem espera por aquilo que está vendo?” (Romanos 8.24).

Apesar de tudo, o que queremos é essa segurança visível, quantificável, palpável, não é mesmo? E suponho que todos a queiram; talvez, porém, os cristãos evangélicos a desejem mais do que a maioria das pessoas. Mesmo aqueles cristãos que rejeitam o evangelho da prosperidade caem facilmente numa espécie de “providência da prosperidade”, se não em sua própria vida, pelo menos na igreja. Quando a igreja está crescendo e prosperando, parecemos pensar que isso prova que vale a pena crer no evangelho. De alguma forma, mesmo aqueles que creem que o chamado para Cristo é o chamado para vir e morrer a cada dia ainda acham que reivindicar saúde e riqueza é algo aceitável, contanto que seja para a missão, e não apenas para si mesmos.

O problema, porém, é que esse tipo de esperança decepciona. Quando instituições visíveis e ideias articuláveis ​​desmoronarem — e elas desmoronarão um dia —, aqueles que pensavam que esperança significava progresso, uma trajetória ascendente, sentem-se enganados e desiludidos. Mas se esse tipo de esperança barata tem tanto apelo para a nossa fragilidade humana, como podemos superá-la? Talvez a Páscoa seja um bom período para nos lembrar de que o Nosso Senhor já nos mostrou o caminho para longe da falsa esperança e em direção ao que é real.

Os relatos que os apóstolos fazem da ressurreição nos dão esperança em meio ao que parece ser a mais absoluta falta de esperança ou desespero. Talvez ninguém tenha descrito isso de forma mais incisiva do que Lucas, em seu relato dos viajantes a caminho de Emaús. Eles encontraram um estranho, que nós sabemos (embora eles não soubessem) ser o Jesus ressuscitado. Lucas escreveu que “o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles”, convidando-os a expressar sua esperança frustrada (24.15). Ao descrever a crucificação, o peregrino Cleopas disse: “Contudo, esperávamos que era ele quem traria a redenção a Israel. Hoje é o terceiro dia desde que tudo isso aconteceu.” (v. 21).

Nesse momento, um Jesus que fosse mais parecido comigo teria levitado em uma explosão de glória, dizendo: “E agora, o que vocês acham de mim?”. Mas esse Jesus já teria feito isso no tribunal de Pilatos ou no palácio de César. Graças a Deus, esse não é o Jesus que temos. Em vez disso, Jesus voltou para onde sempre voltava: para as promessas que se encontram na Palavra de Deus. E “começando por Moisés e por todos os profetas, explicou‑lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras” (v. 27). E, a seguir, ele se revelou — assim como faz conosco — ao partir o pão.

Depois, ele se foi. “Então, os olhos deles foram abertos e o reconheceram, mas ele desapareceu” (v. 31).

A fé, a esperança e o amor permanecem, mesmo depois que todo o resto desmorona, escreveu o apóstolo Paulo (1Coríntios 13.13). A própria fé, como diz a Bíblia, “é a confiança daquilo que esperamos e a certeza das coisas que não vemos” (Hebreus 11.1). É essa parte do “não vemos” que nos perturba — especialmente nessa era tecnológica em que esperamos controlar tudo. A Ressurreição, porém, não “evolui” como as máquinas, para se tornar melhor e mais forte. Jesus realmente se uniu a nós na morte. A esperança parecia ter desaparecido, exceto pela palavra de Deus, em Cristo, de que Ele cumpriria as promessas da sua aliança.

Cristo ressuscitou — e ressuscitou fisicamente, corporalmente, de fato. Com base no relato que recebemos de testemunhas, nós, pelo Espírito, cremos. Por ora, porém, vemos a morte por toda parte. Enquanto escrevo isto, crianças na África estão agonizando, enquanto a AIDS devasta seus corpos. Entre o momento em que digito isto e o momento em que você vai ler, é provável que alguma tragédia horrível esteja nas páginas dos noticiários — um tsunami, um terremoto, alguma revolta civil, uma epidemia. Acreditamos que a igreja prevalecerá contra as portas do inferno, mas acreditamos nisso porque Jesus nos disse, não porque algum placar de vitórias nos mostre isso.

Meu impulso é correr para o tipo de esperança que pega atalhos para evitar o sofrimento, a perseverança e o caráter por meio dos quais a verdadeira esperança é gerada (Romanos 5.1-5).

Mas a esperança genuína não nos decepciona, escreveu Paulo, “porque o amor de Deus foi derramado no nosso coração por meio do Espírito Santo, que ele nos deu” (v. 5). O mesmo Espírito que ressuscitou Cristo dentre os mortos é o Espírito que nos leva a gemer interiormente, enquanto esperamos (8.23). E nesse gemido, às vezes profundo demais para ser expresso em palavras, o Espírito cria um anseio diferente, de modo que “se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos.” (v. 25).

Não é isso que eu naturalmente quero. Quero uma esperança que venha acompanhada de sinais visíveis. Mas esse tipo de esperança não tem seu foco no Cristo ressuscitado que está à direita do Pai. Esse tipo de esperança não consegue sobreviver ao trajeto do carro funerário até o cemitério. E isso significa que, se eu realmente quiser ter esperança, preciso parar de pedir sinais e me lembrar do sinal de Jonas. Esse sinal é suficiente. O sepulcro em Jerusalém ainda está vazio. Ele ressuscitou, como disse que faria. Essa é a verdadeira esperança — o tipo de esperança que, assim como nossa vida, precisamos perder antes de podermos encontrar (Mateus 16.25).

Provavelmente alguém me perguntará esta semana: “Afinal, onde está a esperança, então?”. E eu, mais uma vez, tentarei dar à essa pessoa motivos para não se desesperar. Apontarei para a geração mais jovem, para o que está acontecendo na igreja global, para todos os tipos de estatísticas, anedotas e previsões otimistas. Mas, talvez, o que eu precise de fato seja que alguém me chame de lado depois, e me diga que tudo isso é conversa fiada do evangelho da prosperidade. Talvez eu precise que essa pessoa me lembre que, mesmo que nada de otimista esteja acontecendo, Jesus, ainda assim, ressuscitou dos mortos. Talvez essa pessoa possa me lembrar do hino que canto desde criança, mas que sempre esqueço: minha esperança está firmada em nada menos do que o sangue e a justiça de Jesus. Todo o resto é areia movediça.

Talvez essa pessoa possa até me dizer: “Vem cá, por que não deixamos a esperança de lado por um instante e simplesmente confiamos em Jesus?”.

Russell Moore é editor-chefe e colunista da Christianity Today, além de apresentador do podcast semanal The Russell Moore Show, da CT Media.

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