Culture

‘O Agente Secreto’ nos lembra que precisamos aprender com o passado

O filme, indicado ao Oscar, destaca a importância da memória e de compartilharmos nossa história com a próxima geração.

Kleber Mendonça Filho aceitando um prêmio pelo filme O Agente Secreto

Kleber Mendonça Filho aceita a premiação de O Agente Secreto como Melhor filme internacional no Independent Spirit Awards em 15 de fevereiro de 2026.

Christianity Today March 13, 2026
Amy Sussman / Staff / Getty

Nasci poucos anos depois do fim da ditadura.

Enquanto a jovem democracia brasileira lutava para se consolidar, na década de 1990, aprendi sobre o que havia acontecido na ditadura na escola, em filmes e em músicas. Mas, às vezes, eu também perguntava à minha avó sobre o golpe militar de 1964 e a repressão da dissidência pelas duas décadas seguintes. A resposta dela era sempre a mesma: “Não me lembro muito bem”.

Nessa época, minha avó, uma mulher divorciada, criava três filhas enquanto trabalhava longas horas para lhes proporcionar uma vida decente. É totalmente compreensível que a política da época seja apenas uma vaga lembrança para ela.

Mas tenho pensado muito sobre a questão da memória recentemente, depois de assistir ao intrigante filme O Agente Secreto, lançado no final do ano passado e dirigido pelo cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho.

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Mendonça Filho, um filho do Nordeste, frequentemente explora em seus trabalhos essa região subvalorizada. Minha própria cidade, Recife, chega a ser quase uma personagem por si só neste filme. Nascido também em Recife, o diretor — apelidado de KMF — criou raízes profundas na cidade e construiu sua carreira contando histórias ambientadas na região, num ato que é, ao mesmo tempo, de protesto e de homenagem.

É um protesto porque as indústrias cinematográfica e televisiva do país estão concentradas ao longo do eixo Rio-São Paulo, o que em geral significa que as histórias sobre o Nordeste e o seu povo são contadas a partir da perspectiva de forasteiros. E é uma homenagem porque Recife há tempos é uma cidade de enorme importância para o Brasil, especialmente em termos culturais. A capital nordestina foi moldada por influências holandesas, portuguesas, indígenas e africanas. É o lar da primeira sinagoga das Américas e foi de onde partiram alguns dos primeiros judeus que, mais tarde, chegariam a Nova York.

O Agente Secreto conta a história de Marcelo, um especialista em tecnologia interpretado por Wagner Moura, indicado ao Globo de Ouro de melhor ator. E demonstra o quão longe a ditadura chegou, e como não deixou nenhuma comunidade livre de seu toque.

Depois de ter se mudado de Recife para São Paulo, por motivos de trabalho, Marcelo volta à sua cidade natal em 1977, durante os anos da ditadura militar. A cena de abertura define o tom do filme: um cadáver jaz abandonado em um posto de gasolina de beira de estrada, no interior do país. Ninguém — nem mesmo o frentista do posto — sabe exatamente o que aconteceu. Marcelo para no posto para abastecer e, intrigado, tenta descobrir mais sobre o caso. Mas não consegue. Dois policiais chegam, veem o corpo e não fazem nada. Em vez disso, estão mais preocupados em intimidar Marcelo e o extorquem, antes que ele possa seguir viagem.

O personagem de Moura continua sua jornada, caminhando por ruas e pontos turísticos familiares de Recife. Os espectadores têm a constante sensação de que cada personagem está sendo observado e que todos guardam segredos que talvez nunca venham à tona. KMF não teme esse desconforto. Sua narrativa nem sempre é fácil de entender ou imediatamente legível. Ela desafia o público. O Agente Secreto carrega um peso e uma incerteza que resistem a uma descrição mais precisa.

Talvez o que cause maior desconforto em quem assiste seja a sensação de que O Agente Secreto está sendo narrado por alguém que não conhece a história toda — ou que, como minha avó, se esqueceu de partes cruciais dela.

O esquecimento, aliás, é um dos temas centrais do filme. Marcelo fora buscar seu filho no Recife, pois se preparava para fugir do país, enquanto um poderoso empresário do Sudeste o persegue. Nunca descobrimos exatamente por que Marcelo está sendo perseguido; ele próprio parece não saber ao certo como sua vida chegou a esse ponto. Nos momentos finais do filme, encontramos Fernando, o filho de Marcelo, agora mais velho e trabalhando em um centro de doação de sangue.

Quando questionado sobre o pai, ele parece ressentido — como se tivesse esquecido tudo o que o pai sofreu para escapar da morte.

A memória é um tema muito relevante em nosso mundo atual, já que democracias ao redor do mundo parecem tentadas a retroceder para ditaduras e autocracias. Aqui, no Brasil, nossas memórias da ditadura ressurgem frequentemente, de várias maneiras, em especial nos últimos anos. Somos uma democracia jovem.

E a memória é, de fato, uma defesa poderosa. O filósofo hispano-americano George Santayana escreveu em seu livro de 1905, A Vida da Razão, que “aqueles que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo”. Muitos já ouviram essa famosa citação pelo menos uma vez na vida, e alguns podem citá-la de cor. Mas quantos de nós sabem o nome completo de seus bisavós? E de seus trisavós? Quantos de nós estão dispostos a transmitir histórias dolorosas, que não refletem a nós nem a nossas sociedades da maneira que gostaríamos?

Quando perdemos o contato com a nossa própria história, estamos em perigo. E se nós, como indivíduos e como sociedade, não aprendermos com os erros do passado, inevitavelmente vamos repeti-los — não porque queiramos, mas porque somos criaturas caídas, que vivem em um mundo que constantemente nos confronta com nossa própria capacidade para o mal.

A verdade é que, muito antes de Santayana colocar essas palavras no papel, Deus já havia dito o mesmo.

Em Eclesiastes 12.1, Deus chama seu povo a se lembrar dele nos dias da sua juventude. Em Salmos 105.5, o salmista os exorta a se lembrarem das maravilhas e dos poderosos atos que Deus realizou em seu favor. Em Isaías 46.9, Deus ordena ao seu povo que se lembre das coisas passadas, das coisas muito antigas. Ao longo das Escrituras, lembrar não é meramente a preservação da memória; é uma ordem para aprender, para permitir que o que aconteceu no passado molde a maneira como caminhamos em direção ao futuro, buscando o que é bom, verdadeiro e belo.

A prática cristã da Ceia do Senhor carrega um significado espiritual imensurável e também é profundamente formativa nesse aspecto. Toda vez que repetimos o mesmo ritual, treinamos nossa mente para lembrar que Jesus Cristo morreu, ressuscitou e voltará. “Façam isto em memória de mim” (1Coríntios 11.24), disse Jesus a seus discípulos. Ele sabia que seus seguidores teriam memória curta, teriam lembranças que muitas vezes o rejeitariam e se precipitariam para o pecado e o vício.

Quando o povo de Deus se esquece do que Ele disse ou fez, a questão não se trata de perder informações simplesmente; trata-se de rejeitar, de forma ativa, suas instruções. Em Juízes 3, quando os israelitas “se esqueceram do Senhor, o seu Deus” (v. 7) e adoraram aos Baalins e a Aserá, eles rejeitaram o primeiro mandamento dado em Êxodo 20: “Não terás outros deuses além de mim” (v. 3).

Nós nos tornamos aquilo que aprendemos e aquilo que deixamos de aprender. Hoje, somos a soma daquilo que conseguimos lembrar e praticar, consciente ou inconscientemente.

Se Ainda Estou Aqui, de Walter Salles — outro filme brasileiro que deixou sua marca no Globo de Ouro do ano passado — coloca uma lupa sobre o sofrimento de uma família durante a ditadura militar, O Agente Secreto vai além, removendo essa lente e nos forçando a confrontar a sociedade como um todo, uma sociedade que tem dificuldade de se lembrar.

O Agente Secreto conta a história de um pai que faz tudo o que pode para salvar a si mesmo e ao seu filho, mas acaba caindo nas mãos de seus perseguidores; também conta a história de um filho que segue em frente com a sua vida e se esquece do que realmente aconteceu; e conta ainda a história de uma sociedade condenada a enfrentar repetidamente os mesmos vilões, pois se esquece de seu passado. Em meio a esse mar de esquecimento, que nós, cristãos, possamos ser um povo que se engaja no ato radical de se lembrar: recordando tanto o mal, que nos cerca e nos tenta, quanto a bondade de Deus, que escreve as páginas da nossa história e nos conduz adiante.

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Mariana Albuquerque é gerente de projetos das Traduções da CT.

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