Após o assassinato de Alex Pretti [enfermeiro morto a tiros pelo ICE, serviço de imigração dos EUA], Blake Guichet, uma influenciadora cristã popular, reagiu à onda emocional das redes sociais. Uma de suas postagens no Instagram declarou franca resistência ao que “a internet diz para você… carregar”.
“Estranhos sem rosto não têm o direito de dizer se você é uma boa pessoa ou não por causa daquilo que você posta ou deixa de postar”, escreveu Guichet — embora, não por acaso, como relatou Elaine Godfrey no The Atlantic, Guichet tenha feito sete postagens após a morte de Charlie Kirk.
O suposto afastamento de Guichet do discurso público sobre política, uma tática adotada por outros influenciadores como ela, reflete a resignação que muitos de nós sentimos neste momento cívico. Nossa sensação de impotência aumenta e somos tentados a limitar nossa esfera de cuidado e compaixão, e chegamos até mesmo a acreditar que, ao fazê-lo, estamos imitando Jesus, que, segundo a postagem de Guichet, “se retirou, quando as multidões exigiam mais”. Para evitar a sobrecarga emocional e o rancor partidário, somos tentados a abandonar a preocupação em público em prol de uma fidelidade em privado.
Isso pode, em alguns casos, representar uma sabedoria sensata em relação aos limites da capacidade humana. Mas, recuar diante de questões sociais graves também pode ser uma forma perigosa de autoproteção. De William Wilberforce a Harriet Beecher Stowe, de Dietrich Bonhoeffer a Martin Luther King Jr., vemos arrebatadores exemplos de fé cristã que encorajaram a divergência pública — e até mesmo a resistência — contra o mal evidente.
A pergunta que fica é: será que o nosso momento é como o deles? E, se for, será que a coragem deles será também a nossa?
O problema atual não é, como argumenta Guichet, a dimensão do sofrimento global, mesmo que sucumbamos à compulsão da busca por notícias sensacionalistas e ao peso emocional das tragédias globais. O problema não é que as redes sociais exijam respostas rápidas, nem é o crivo moral dessas respostas. O problema sequer reside na superficialidade performativa do discurso na internet, que é mais voltado à mobilização da base do que à persuasão dos que não estão convencidos.
Embora seja sensato evitar a ira online, nós, como seguidores de Jesus, não podemos fechar os olhos para os mais pequeninos dos nossos próximos, a quem amamos como um ato de adoração (Mateus 25.45). E fazer isso pode indicar que falhamos na concepção de um engajamento público significativo — com o amor, em nome de Cristo, demonstrado não apenas de “palavra nem de boca”, mas “em ação e em verdade” (1João 3.18).
Neste momento particularmente tenso que o meu país [os Estados Unidos] vive, um problema ainda mais disseminado é a resignação diante da difícil situação dos refugiados, dos requerentes de asilo, dos imigrantes em nosso meio, e de todos aqueles que estão sendo detidos e deportados sem o devido processo legal. A lógica do olhar voltado para o nosso próprio umbigo, para a nossa família e para as quatro paredes do nosso lar prospera em uma sociedade de abastados e desfavorecidos. Os abastados desfrutam de um privilegiado isolamento do trauma sofrido pelos desfavorecidos: separação familiar, prisão e o medo palpável de retornar a seus países de origem. São esses desfavorecidos que precisam da nossa voz.
Muitos influenciadores cristãos, figuras públicas como Guichet, podem dar-se ao luxo do idílio de uma vida doméstica tranquila, algo que homens como C., M. e S., três dos meus alunos das aulas de inglês como segunda língua (ESL), que ministro na igreja, não podem. Esses homens, solicitantes de asilo da África Ocidental (cujos nomes estou omitindo), entraram nos Estados Unidos por meio de um processo que era legal na época [em que aqui chegaram]; mesmo assim, foram detidos recentemente, após terem comparecido, em cumprimento à lei, às suas entrevistas para imigração. Não se sabe se e quando seus respectivos casos serão julgados pela justiça.
Eles são imigrantes cumpridores da lei, com autorização para trabalhar. Sem culpa alguma de sua parte, seu status legal foi revogado. Seus rostos representam muitos outros, entre os quais estão os de pelo menos 10.000 haitianos, que buscaram refúgio e trabalho em Springfield, Ohio, a apenas 90 minutos da minha casa. Essa comunidade trabalhadora, injustamente difamada por alegações infundadas durante a última eleição presidencial, ficará vulnerável à deportação, se os tribunais permitirem que o governo suspenda as medidas de proteção, como fizeram no caso dos portadores do TPS (Status de Proteção Temporária) oriundos da Venezuela.
Essas não são crises que estão acontecendo lá longe, em lugares distantes. Elas assombram o meu quintal, por assim dizer. Devo ignorá-las?
Quando um próximo como eu não defende essas e outras pessoas em alta voz e publicamente, quando não denuncia a campanha agressiva do nosso governo para aterrorizar imigrantes, em vez de lhes garantir o devido processo legal, nós, cristãos, não podemos acreditar que representamos o coração de um bom governo ou do Deus a quem os salmistas oram: “‘Porque os pobres são explorados e os necessitados gemem, agora me levantarei’, diz o Senhor, ‘e os protegerei dos seus opressores’” (12.5). Os cristãos precisam recuperar sua voz profética coletivamente.
Quando não desafiamos claramente o silêncio dos cristãos que se disfarça de virtude, não amamos com coragem suficiente. Este não é um argumento partidário, embora seja claramente político. Se a política é a forma como falamos sobre a nossa vida cívica, sobre a administração da nossa “casa”, todos têm a responsabilidade de manter essa casa em ordem.
O adjetivo “performativo” ganhou destaque após o assassinato de George Floyd e os protestos subsequentes. Em 2021, o dicionário Merriam-Webster adicionou uma nova definição ao termo “performativo: “algo que é feito ou realizado para exibição”. Com razão, rejeitamos a performatividade em nome de Jesus, que denunciou os líderes religiosos de sua época por seus flagrantes pecados de hipocrisia. Eles faziam suas orações nas esquinas. Davam esmolas aos necessitados — mas somente quando havia por perto uma banda barulhenta para alardear suas ofertas, para que sua generosidade não passasse despercebida. “Eu garanto que eles já receberam sua plena recompensa”, disse Jesus (Mateus 6.2).
Contudo, podemos interpretar mal a admoestação de Jesus e jogar fora a virtude pública junto com a água do banho performática. Quando Jesus nos chamou a orar e a contribuir em segredo (6.3-6), será que ele proibiu gestos públicos de compromisso com os princípios cristãos? Ao nos alertar contra a falta de sinceridade dos espetáculos públicos, será que ele nos ordenou que recusássemos a nos interessar por qualquer coisa que não fosse nossas preocupações particulares?
Não creio nisso. Embora ações e discursos performáticos sejam suspeitos, a vida pública e o discurso público não o são. Afinal, o próprio Jesus era uma figura pública.
Quando os principais sacerdotes e anciãos finalmente prenderam Jesus, sua prisão foi uma operação secreta — uma ironia que Jesus não pôde deixar de destacar: “Estou eu chefiando alguma rebelião, para que vocês venham prender-me com espadas e varas? Todos os dias eu estive ensinando no templo, e vocês não me prenderam!” (Mateus 26.55). Jesus nunca foi somente um cidadão comum, e se seu movimento revolucionário deveria ser reprimido, Roma entendia que isso exigiria uma prisão em privado, mas uma crucificação pública, com seu corpo inerte pendurado como um severo aviso imperial.
Da mesma forma, o ministério dos apóstolos também era público. A atenção que despertaram os colocou na mira das mesmas autoridades que condenaram Jesus à morte. No contexto privado das casas, os apóstolos partiam o pão, e em praça pública, eles pregavam e realizavam prodígios e sinais. À medida que reuniam multidões, Pedro proclamava em alta voz e com ousadia o mistério do Deus que se fez carne, deste Jesus de Nazaré crucificado, morto e sepultado, que ressuscitou ao terceiro dia e ascendeu aos céus (Atos 2).
Quando uma repreensão pública levou Paulo e Silas à prisão em Filipos — e os magistrados, de repente, reconsiderando a própria imprudência, imploraram aos presos que saíssem da prisão discretamente —, Paulo ficou indignado. “Sendo nós cidadãos romanos, eles nos açoitaram publicamente sem processo formal e nos lançaram na prisão. E agora querem livrar-se de nós secretamente? Não! Venham eles mesmos e nos libertem” (16.37).
Talvez alguns argumentem que esses exemplos bíblicos se destacam por serem apolíticos. Os críticos poderiam argumentar que o evangelho é uma mensagem de salvação eterna (e é mesmo!) e que nunca encontramos os apóstolos em praça pública, atirando pedras contra as políticas de César. No entanto, como Larry Hurtado argumenta em Destroyer of the Gods [Destruidor de deuses], o simples ato de invocar o nome de Cristo já era uma forma de resistência política.
No Império Romano, esperava-se que seus habitantes participassem de “procissões e oferendas sacrificiais à deusa ou ao deus guardião da cidade”, escreve Hurtado. “Mesmo em atividades comuns, como dar à luz, comer ou viajar, nas reuniões das guildas e em outros grupos sociais, ou nas reuniões formais do conselho municipal, as pessoas normalmente faziam ofertas como expressões de reverência devidas às divindades importantes”. O discipulado, no reinado dos Césares, era sempre um assunto público, uma vez que os cristãos juravam fidelidade a um rei diferente.
Para um exemplo mais recente, olhemos para o século 19. Harriet Beecher Stowe (autora de A Cabana do Pai Tomás) e seus irmãos cresceram em um lar cristão que enfatizava as responsabilidades sociais e políticas de todos os cristãos. Como Obbie Tyler Todd detalha em seu livro recente, Os Beechers, “Todos os filhos de Lyman Beecher tinham certeza de que a família era o alicerce da sociedade americana”. Embora o ativismo público de Stowe contra a escravidão seja mais conhecido hoje em dia, sua irmã mais velha, Catharine, foi uma crítica pioneira e veemente da Lei de Remoção Indígena, que autorizou a remoção forçada de muitos nativos americanos. Os filhos de Lyman Beecher foram criados com o entendimento de que a fé cristã exigia um envolvimento público ativo em prol do bem do seu semelhante.
Isabella, a irmã mais nova de Catharine e de Stowe, uma sufragista, falou sobre a influência do lar de sua infância em seu próprio ativismo social: “Meu interesse por assuntos públicos remonta aos meus onze a dezesseis anos, quando nosso círculo familiar estava sempre discutindo problemas vitais da existência humana, e onde a Constituição dos Estados Unidos, as leis sobre escravos fugitivos, Henry Clay e o Compromisso do Missouri se alternavam com o livre-arbítrio, a regeneração, o céu, o inferno e ‘O Destino do Homem’”. A família Beecher nem sempre concordava em relação às políticas públicas; porém, mesmo divergindo teologicamente à medida que envelheciam, os filhos da família Beecher concordavam que o cristianismo era uma questão não apenas de conversão pessoal, mas também de responsabilidade política.
Meu trabalho como escritora e figura pública começou com a explosão das plataformas de mídia social e, até agora, concordei em grande parte com a recusa de Guichet em “se deixar reduzir à versão deste ano para o quadrado preto no Instagram [usado como símbolo de protesto e solidariedade contra o racismo e a brutalidade policial]”. Contudo, como cidadã desta democracia e do reino de Deus, só posso concluir que o discurso e a ação em praça pública estão se tornando mais necessários, e não menos. O silêncio pode ser um meio de ocultação cúmplice da injustiça.
Não estou sugerindo que nos envolvamos em mais discussões acaloradas nas redes sociais. No entanto, os cristãos devem permitir que sua vida pública e suas palavras instruam o povo de Deus na confusão deste nosso tempo, quando mentiras se fazem passar por verdades e o vício é confundido com virtude. Cada conversa importa agora, enquanto buscamos praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o nosso Deus (Miqueias 6.8). Pronunciar-se em público — e em particular — é importante para todos os nossos semelhantes, especialmente para aqueles que não podem falar por si mesmos.
Jen Pollock Michel é escritora, palestrante e mentora de escrita espiritual no programa de mestrado em escrita criativa da Universidade de Whitworth. Seu livro mais recente é In Good Time [Em boa hora], e seu próximo livro, A Rule for the Rest of Us [Uma regra para o resto de nós], será publicado neste outono.