Church Life

Calendário litúrgico: seguir ou não seguir, eis a questão.

Que tal se celebrássemos outras datas, além da Páscoa e do Natal?

Christianity Today March 19, 2026
Illustration by Elizabeth Kaye / Source Images: Getty / Unsplash

Esta é a época do ano em que fazemos uma pausa no calendário para celebrar a Semana Santa — relembrando os eventos do Evangelho que culminaram na morte, no sepultamento e na ressurreição de Jesus Cristo.

Durante séculos, os cristãos seguiram um calendário litúrgico que marcava estações e dias especiais em honra a Jesus e ao Evangelho: Advento, Natal, Epifania, Quaresma, Semana Santa, Pentecostes e Tempo Comum (que marca os períodos de tempo entre a Quaresma e o Advento). E embora na teoria a maioria das igrejas não denominacionais esteja familiarizada com essas datas, elas tendem a participar mais ativamente apenas de uma ou duas dessas celebrações ao longo do ano.

Podemos distribuir ramos de palmeira no Domingo de Ramos ou nos reunir para um culto vespertino na Sexta-feira Santa — e quase sempre celebramos o Domingo da Ressurreição com muito mais pompa do que em nossos cultos habituais. Mais para o fim do ano, em dezembro, pode ser que preparemos algo especial para os domingos que antecedem o Natal. Contudo, alguns desses outros eventos históricos da Igreja, como a Quarta-feira de Cinzas ou o Domingo de Pentecostes, por exemplo, com frequência são mais observados por tradições e denominações mais litúrgicas.

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Especialmente para os cristãos das chamadas denominações “low-church” [ou igrejas baixas, que não têm grande preocupação em defender a liturgia histórica e dão pouca ênfase a rituais, liturgia mais complexa e sacramentos], a ideia de seguir o calendário litúrgico gera reações diversas. Como herdeiros tanto da Reforma Protestante quanto do avivamento evangélico, muitos crentes que não pertencem a igrejas históricas se orgulham de não aderir à tradição — a qual, às vezes, é vista como algo criado pelo homem e antibíblico, concebido apenas para os católicos, e até mesmo uma pedra de tropeço para a fé e a adoração autênticas. Não é incomum ouvir esses crentes dizerem que o que têm com Cristo “não é uma religião; é um relacionamento”. Também é comum que tais eventos [litúrgicos] sejam comparados às “festas religiosas” aparentemente depreciadas em Colossenses 2.16.

Assim, na segunda-feira após o fim de semana da Páscoa, a maioria das igrejas evangélicas retoma sua programação normal. Em vez de continuar a organizar encontros congregacionais, eventos especiais e séries de sermões em torno da vida e do ministério de Jesus, começamos a moldá-los segundo outros eventos e feriados determinados pela cultura, como as férias de meio do ano e a Copa do Mundo de Futebol. Nossa vida volta a girar em torno de coisas como trabalho, escola, atividades extracurriculares, hobbies, entretenimentos — e outras prioridades inspiradas por nossos objetivos pessoais ou nossas aspirações profissionais.

Mas, e se, este ano, até mesmo os mais céticos em relação à liturgia descobrissem como o calendário litúrgico pode nos ajudar a viver essas verdades que celebramos durante a Semana Santa — e bem depois dessa semana ter passado também? Como explica Mike Cosper, há benefício em seguir as tradições sagradas da igreja histórica:

Para muitos protestantes, o calendário litúrgico pode parecer uma regulamentação arbitrária, um testemunho da autoridade e da microgestão de Roma; para seus autores, no entanto, ele foi concebido com um olhar pastoral. O calendário litúrgico foi projetado para guiar os fiéis, a cada ano, pela história do evangelho, da encarnação à ascensão. Se permitirmos que preconceitos históricos influenciem exageradamente nossa perspectiva, perderemos de vista a brilhante criatividade pastoral que moldou algumas das iniciativas da igreja.

Nas palavras do pastor Andrew Wilson, “os calendários não são neutros; eles narram uma visão de mundo particular”. Os calendários pelos quais vivemos contam uma história sobre o que valorizamos e como vemos nossa identidade e nosso propósito. A maneira como planejamos nossos anos, meses e dias gera certos ritmos, hábitos e frutos em nossa vida. E, se analisarmos os frutos espirituais que estamos (ou não) produzindo, podemos perceber como nossa rotina e nossa agenda impactam nossa capacidade de nos tornarmos mais semelhantes a Cristo.

A formação espiritual também não é algo neutro — o que significa que, se nossos hábitos não nos discipulam no caminho de Jesus, eles, automaticamente, nos moldam segundo os padrões do mundo. E pesquisas mostram que o mundo está moldando os crentes de muitas maneiras, em geral negativas.

Um estudo do Barna Group revelou que muitos cristãos de hoje estão mais ocupados e distraídos do que nunca. Quase 50% dos cristãos têm dificuldade em encontrar tempo para ter comunhão com outros cristãos porque dizem estar muito ocupados. Essa dinâmica se faz presente em um momento em que 30% dos adultos nos EUA dizem se sentir sozinhos diariamente, e 20% dos cristãos afirmam o mesmo.

Segundo a Lifeway, mesmo que uma pessoa dedique uma hora por dia à leitura da Bíblia e à oração, é provável que passe mais do que o dobro desse tempo nas redes sociais. Alguns afirmam que nossos hábitos de consumo excessivo estão causando uma crescente epidemia de doenças mentais entre adolescentes do sexo feminino — sem mencionar a crescente polarização e a divisão política e racial. Tomando por base somente os últimos anos, vimos que o uso que fazemos das redes sociais está nos impactando negativamente.

Em vez de nos capacitar para vivermos o Evangelho diariamente, a maneira como organizamos a nossa vida pode nos levar a esquecê-lo por completo.

E esse esquecimento do Evangelho não é um problema novo. Seja a nação de Israel, na época dos juízes, sejam os crentes da Galácia, nos dias de Paulo, o povo de Deus sempre teve dificuldade de se lembrar de sua conexão com o mundo criado por Deus. É por isso que, como vemos no Antigo Testamento, Deus organiza a vida de Israel em torno de festivais e festas específicas. É também por isso que, no Novo Testamento, Jesus ordena a seus seguidores que pratiquem sacramentos como a Ceia do Senhor e o batismo.

Esses hábitos espirituais servem para nos lembrar de nossa aliança com Deus e de nossa responsabilidade mútua, de uns para com os outros, como corpo de Cristo. E o calendário litúrgico — que organiza nosso ano todo em torno da Bíblia — é uma maneira importante pela qual os cristãos podem praticar esses hábitos espirituais e resistir à influência formativa da nossa cultura.

Infelizmente, a narrativa que os calendários de muitos cristãos de hoje contam se alinha muito mais com o mundo do que com o Evangelho. A narrativa do mundo gira em torno do individualismo radical e da autorredenção. Como protagonistas dessa história, participamos de uma jornada em busca de liberdade, autenticidade e felicidade. Essa busca por uma vida plena muitas vezes se materializa por meio do desejo de encontrar e maximizar nosso eu verdadeiro, o que nos leva a priorizar o egoísmo e a autossuficiência. Essa narrativa, por sua vez, pode acabar nos levando a abraçar o pecado e a rejeitar a Deus.

A história do Evangelho é drasticamente diferente. Deus é o protagonista, e não nós — e, em nossa jornada, percebemos que, como sua criação, nosso desejo de plenitude só pode ser satisfeito por meio do nosso relacionamento com Ele. Mas esse relacionamento exige que renunciemos aos nossos desejos, que submetamos toda a nossa vida à autoridade de Deus. Em última análise, esse ato de fé nos conecta com o nosso eu verdadeiro, como portadores da imagem divina, e nossa história termina recebendo vida abundante e eterna com Deus.

A cada ano, quando relembramos detalhes da vida de Jesus na Terra, essa lembrança não é apenas intelectual, mas um exercício plenamente encarnado, que transforma a nossa maneira de viver. Por meio de Cristo, somos o povo da aliança, o povo de Deus, e essa realidade molda nossa perspectiva de passado, presente e futuro.

Embora tenhamos uma diversidade de visões sobre o calendário litúrgico, considero útil o modelo sugerido por Robert Webber, pois ele divide o ano cristão em duas seções principais: uma delas ele chama de “ciclo da luz”; a outra, de “ciclo da vida”.

O ciclo da luz destaca a encarnação de Jesus e abrange as experiências do Advento, do Natal e da Epifania, ao passo que o ciclo da vida é comemorado durante os períodos da Quaresma, da Semana Santa, da Páscoa e do Pentecostes. O primeiro ciclo celebra a vinda de Jesus; o segundo aborda o propósito para o qual Ele veio — o sacrifício de doar-se a si mesmo para libertar o mundo de Satanás, do pecado e da morte, e para garantir perdão, cura e vida para todos os povos.

Citando Webber, o uso desse modelo cíclico ajuda a ilustrar como “a igreja é chamada a proclamar continuamente e a encarnar esse mistério central da obra de reconciliação de Deus em Jesus Cristo, à medida que avança no tempo, ano após ano, mês após mês, dia após dia e hora após hora”. Ao recordarmos a vida, a morte e a ressurreição de Jesus ao longo do ano, somos, por nossa vez, levados a responder, vivendo à luz do nosso próprio batismo em Cristo.

Em vez de centrarmos nossa vida em torno de entretenimentos, aspirações pessoais ou atividades escolares dos nossos filhos, podemos permanecer em sintonia com esse ritmo de morrer para o pecado e ressuscitar para uma nova vida em Cristo. Quer essa reflexão seja diária, quer seja feita semanalmente aos domingos, ela nos confrontará com o amor e a graça eternos e transbordantes de Deus e, simultaneamente, nos forçará a lutar contra as maneiras pelas quais nos tornamos acomodados, complacentes demais com o pecado, do qual, para nos salvar, Cristo morreu.

Além disso, a repetição regular da história bíblica que fala de redenção e de restauração lança luz sobre a maneira que usamos nossos recursos e cuidamos do nosso próximo. Essa luz não deixa espaço para complacência nem passividade na forma como usamos nosso tempo e dinheiro, ou ainda como reagimos ao tratamento injusto dispensado a outros seres humanos criados à imagem de Deus. Em vez disso, ela gera uma espiritualidade que floresce e que é enraizada em Deus.

Essa repetição cíclica da mensagem do Evangelho também oferece uma contranarrativa à história contada pelo mundo. Muitas vezes, nós, cristãos, somos atraídos por seu fascínio e tentados a viver por nossas próprias forças, e vemos nossa felicidade pessoal como o objetivo maior de nossa fé. Celebrar os dias santos em nossa igreja, porém, pode nos capacitar a resistir à tentação da nossa cultura.

Por exemplo, o Domingo de Pentecostes — que será celebrado em breve — nos lembra que é somente através do dom do Espírito Santo que somos capacitados a viver no mundo de Deus e a experimentar a vida abundante que Cristo veio nos dar. Esse poder se manifesta por meio de sua obra de santificação e dos dons espirituais que Ele concede. Assim, em vez de buscarmos a onipotência humana, somos levados a abraçar uma fraqueza que destaca o poder de Deus.

O Domingo de Pentecostes, este dia especial, também faz com que nos concentremos de novo na natureza coletiva da nossa fé. Não fomos salvos apenas para um relacionamento individual com Deus, mas também para vivermos na comunidade global da igreja, que abrange todo o corpo de Cristo, desde os tempos antigos. Deus criou a igreja como uma parte essencial e inegociável do seu plano de redenção. O Pentecostes nos ajuda a reafirmar nosso compromisso com essa igreja e a realinhar nossos objetivos de vida à proclamação do evangelho e à restauração do mundo — tudo para a glória de Deus.

Neste ano, na segunda-feira após a Páscoa, encorajo você a continuar integrando o antigo calendário cristão à sua vida pessoal e à vida da sua igreja. Encontre maneiras concretas de se manter alinhado à vida de Jesus — seja por meio de orações, cânticos ou leituras bíblicas.

Embora existam certos aspectos da tradição que podem dificultar nosso relacionamento com Deus, ainda assim o calendário litúrgico é uma tradição cristã de longa data que vale a pena abraçarmos durante todo o ano.

Elizabeth Woodson é escritora, professora bíblica, apresentadora do podcast Starting Place [Ponto de partida] e fundadora do Instituto Woodson. Ela é autora de Embrace Your Life [Abrace a vida] e de From Beginning to Forever: A Study of the Grand Narrative of Scripture [Do princípio à eternidade: um estudo da grande narrativa das Escrituras].

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