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Nossos hábitos físicos e espirituais caminham juntos

As disciplinas espirituais também abrangem disciplinas físicas

A man sitting by a window.
Christianity Today February 5, 2026
Andrik Langfield / Unsplash

Há dez anos, eu vivia o pior momento da minha vida em termos de saúde.

Eu era um ex-missionário que tinha me tornado advogado do mundo corporativo. Tinha a cabeça cheia de boa teologia, mas meu trabalho na área de fusões e aquisições, em um escritório de advocacia internacional — aliado à criação de dois filhos pequenos — havia me deixado completamente exaurido. Eu sofria de crises de pânico constantes e de insônia, daquelas que me levavam a pensamentos suicidas e me impediam de dormir, a menos que eu tomasse remédios para dormir ou ingerisse bebidas alcoólicas.

Hoje, não sou mais essa pessoa. Agora, comando um escritório de advocacia; tenho quatro filhos pequenos; escrevo livros. Minha vida certamente não é menos complicada, mas as crises de pânico são uma lembrança distante e, sem dúvida, estou na melhor forma física da minha vida.

Para que eu não pareça presunçoso, quero deixar algo claro: foi Deus que me salvou. Ele me salvou quando eu estava perdendo o controle de tudo e não sabia mais o que fazer. No entanto, Deus sabia, e usou a graça das disciplinas espirituais e físicas para mudar tudo na minha vida.

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Tudo começou com uma típica conversa de Ano Novo da qual ainda me lembro até hoje. Sentei-me com dois dos meus melhores amigos e pedi que me ajudassem a manter alguns hábitos diários e semanais no ano novo.

Uma década depois, ainda estou refletindo sobre por que hábitos são algo tão espiritual — inclusive os relacionados à saúde. E aqui estão quatro coisas que aprendi.

A primeira é que você é, em grande parte, os seus hábitos. De Aristóteles a James Clear, a maior parte da humanidade já deixou claro o que define a nossa vida: nossos hábitos. De acordo com um estudo, cerca de dois terços das ações diárias não são escolhas que fazemos conscientemente; são fruto do hábito.

Isso é particularmente importante quando se trata de nossos maus hábitos. Veja os meus, por exemplo: ficar checando meus e-mails constantemente em casa; comer coisas que me fazem mal; ser grosseiro com meus filhos. Todos nós sabemos que deveríamos ser melhor do que isso.

Mas a parte do nosso cérebro que sabe o que fazer melhor não é a parte que age por hábito. É por isso que nos tornamos como eu era: alguém com uma cabeça boa e péssimas rotinas.

O problema é que, quando sua mente vai para um lado e seus hábitos para o outro, seu coração tende a seguir os hábitos. E hábitos rapidamente começam a se tornar espirituais.

A segunda coisa que aprendi é que os hábitos impulsionam a adoração. Estamos vivendo um tempo de ressurgimento da liturgia. Liturgias são aqueles elementos de um culto que repetimos, porque queremos ser moldados à imagem do Deus que adoramos. Mas repare na semelhança entre os hábitos e a liturgia: ambos são coisas que fazemos de forma repetitiva; ambos nos moldam.

A grande diferença é que a liturgia admite que se trata de adoração. Em nosso dia a dia, porém, nossos padrões de comportamento muitas vezes encobrem aquilo que adoramos. Contudo, isso não significa que não estejamos adorando. A única questão é o que estamos adorando.

A terceira coisa que aprendi é que o corpo é espiritual. É impossível falar de hábito sem falar da aspecto corpóreo, pois estamos falando de uma função cerebral de nível inferior. O impacto do hábito é algo muito diferente do impacto do conhecimento intelectual. Uma coisa não se transfere automaticamente para a outra. É preciso pegar o conhecimento e colocá-lo em prática. E é aí que a transformação da vida como um todo começa a acontecer. Jesus ilustrou isso de forma muito vívida para nós (Mateus 7.24-27).

Os cristãos de hoje tendem a ficar nervosos neste ponto, porque pensamos que, quando falamos sobre o corpo, estamos saindo do âmbito da espiritualidade. Mas não é assim que a Bíblia vê o mundo. Deus criou nosso corpo. E chamou-o de bom. Ele nos salvou por meio do corpo de seu Filho. Ele vai ressuscitar nosso corpo para uma nova vida. Como C. S. Lewis disse em Cristianismo Puro e Simples, de nada adianta tentar ser mais espiritual do que Deus.

É justamente por isso que as disciplinas espirituais são tão físicas e que as disciplinas físicas são tão espirituais. Somos nós que dividimos o mundo em sagrado e secular. Bem, para falar a verdade, somos nós e o Inimigo. Deus não faz isso. Ele é muito claro sobre isso: nosso corpo é sagrado — e nossos hábitos também.

A quarta coisa que aprendi é que as disciplinas físicas são disciplinas espirituais. Isso significa que a maneira como nos alimentamos e nos exercitamos é algo tão espiritual quanto a maneira como jejuamos e oramos. Sou uma prova viva disso. Posso afirmar que disciplinas espirituais, como orar de joelhos pela manhã e priorizar as Escrituras em vez do celular, mudaram completamente minha vida há dez anos. Mas sou um advogado e eu não estaria dizendo a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade, se não dissesse que respeitar minhas horas de sono, adotar uma dieta saudável e praticar exercícios físicos regularmente foram hábitos que transformaram minha saúde mental tanto quanto as disciplinas espirituais.

Isso acontece porque a ansiedade nunca é apenas um problema psicológico; sempre é também um problema de hábitos. (E o inverso também é verdadeiro, aliás.)

Mas eu costumava me preocupar que isso [o que fazemos com nosso corpo fisicamente], de alguma forma, significasse que eu estava admitindo que as soluções “do mundo” para a minha saúde mental eram melhores do que as soluções de Deus. Não sei em que ponto do caminho eu havia me esquecido de que toda verdade é de Deus. Não sei em que ponto deixei de perceber que tudo o que é biológico também é teológico. Não sei por que não dei tanta importância ao imperativo “glorifiquem a Deus com o corpo de vocês” (1Coríntios 6.20) quanto dei à ordem “façam discípulos de todas as nações” (Mateus 28.19).

Mas o fato é que realmente não dei a importância devida. Eu, assim como todos os demais, era um produto destes nossos tempos modernos e gnósticos, e havia limitado o cristianismo a um projeto intelectual. Mas até mesmo pessoas que amam a mente, como Abraham Kuyper, disseram que Cristo clama “Meu!” sobre cada centímetro quadrado do universo. E isso inclui o nosso corpo também.

Quando consideramos tudo isso em conjunto, percebemos que nossos hábitos físicos têm um enorme impacto espiritual sobre aquilo que a Bíblia chama de “coração”. Em outras palavras, o corpo ensina a alma. Com isso, quero dizer que Deus não só usa o conhecimento que temos dele para moldar nossos hábitos; Ele também usa nossos hábitos para moldar o conhecimento que temos dele.

Por exemplo, exercitar-se com moderação não só é bom para a nossa saúde, mas também treina nosso coração a respeitar a disciplina de todos os tipos. Para amar melhor nossas famílias e para ter autocontrole, os cristãos devem considerar alguma forma de exercício, por mais limitada que seja, como sagrada e útil para a vida cristã.

Da mesma forma, adotar uma dieta simples e saudável não é bom apenas para a nossa saúde física e mental. É fundamental para interromper certas idolatrias cotidianas, como a gula e a vaidade. Os cristãos devem considerar uma dieta saudável algo fundamental para cuidar do corpo, para amar o próximo, bem como para se recusar a amar qualquer coisa mais do que a Deus.

E o ritmo do sono é algo tão formativo espiritualmente quanto um ritmo de descanso sabático é formativo fisicamente. Os cristãos não podem ser pessoas que pregam um evangelho de paz enquanto vivem na agitação de um trabalho incessante. Saber colocar um fim no dia de trabalho ou tirar um dia de folga sabático são maneiras essenciais de proclamarmos a verdade do evangelho — e maneiras essenciais de desfrutarmos da verdade do evangelho. Na cruz, Jesus proclamou “está consumado”, e ele o fez em parte para que você pudesse desacelerar e tirar uma soneca.

Se eu pudesse voltar no tempo uns dez anos e encontrar comigo mesmo em meio à minha crise de ansiedade, eu encorajaria aquela versão de mim mesmo dizendo: “Abrace hábitos saudáveis ​no novo ano! Deus criou o seu corpo. Cuidar dele não precisa ser vaidade. Para amar a Deus e ao próximo é necessário cuidar de sua saúde mental. Então, cuide dela, por amor.”

Neste ano, quero encorajar você a fazer o mesmo. Nosso corpo carrega a imagem de Deus, e Deus é amor! Não devemos idolatrar o nosso corpo, mas também não devemos ignorá-lo. Devemos refletir a imagem de Deus através do nosso corpo ao cuidarmos dele, por amor a Deus e ao próximo.

Seus hábitos não vão mudar o amor que Deus tem por você. Mas o amor que Deus tem por você deve mudar os seus hábitos.

Justin Whitmel Earley é advogado, palestrante e autor; ele é de Richmond, Virgínia. Também é o CEO da Avodah Legal e autor de diversos livros best-sellers, entre eles Habits of the Household [Hábitos da Família] e, mais recentemente, The Body Teaches the Soul [O Corpo Ensina a Alma].

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