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O cristianismo não é uma religião imposta por colonizadores.

Seguir Jesus não exige que eu rejeite a cultura da minha família. Deus ama a minha latinidade.

Footprints in the sand.
Christianity Today February 12, 2026
The Washington Post / Contributor / Getty

Minha avó é a pessoa mais piedosa que conheço. Passei grande parte da minha infância sob seus cuidados, e se há algo que me lembro bem daquela época, é das suas orações.

Ela orava enquanto cozinhava. Orava enquanto limpava a casa ou dobrava a roupa lavada. Orava por mim e por minha irmã, quando nos colocava para dormir e nos contava histórias da Bíblia como se os personagens fossem pessoas que conhecíamos. Ela aprendeu a ler sozinha, estudando as Escrituras, e levava a sério o que Jesus disse, quando afirmou que uma pessoa deveria ir para o seu quarto para orar (Mateus 6.6). E tinha no quarto dela um pequeno banquinho, no qual se ajoelhava e intercedia pela família ou por quaisquer outros fardos que carregasse diante do Senhor.

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Há uma lenda na família que conta que, certa vez, meu avô provocou um defeito no carro, só para impedir que minha avó fosse à igreja com os filhos. Minha avó orou, entrou no carro, ligou-o, e lá se foi para a igreja. Ela era — e ainda é — uma mulher de fé.

Desde a infância, ela me ensinou sobre Jesus e demonstrou o que significava segui-lo, mesmo quando era difícil fazê-lo. Nossa família não é perfeita, evidentemente, mas minha avó continua sendo meu modelo de serva piedosa.

Minha avó é mexicana-americana, e tem a pele morena da cor da terra. No final da adolescência, eu odiava ser mexicano. Por causa de uma lenta e gradual exposição a microagressões raciais, eu me convenci de que ser mexicano significava ser um cholo (alguém como um gangster), usar drogas, roubar — ser um criminoso. Mas, em 2008, já adulto, eu me mudei para Kansas City e me juntei a uma igreja multicultural, onde conheci muitos amigos latino-americanos que amavam a Cristo e eram cheios do Espírito Santo.

Eu havia passado por uma crise de fé, seguida por um retorno à fé, por meio de um poderoso encontro com Deus, e esses novos amigos me lembraram da fé da minha avó. Eles me mostraram que eu podia amar e seguir a Jesus sem sentir vergonha da minha ascendência. Ainda que seguir a Jesus significasse eliminar tudo o que fosse contrário à vida e aos ensinamentos dele, o que havia de melhor na cultura mexicana, aquilo que já estava em sintonia com o Espírito, podia se manifestar.

Mas isso não pôs fim às minhas dúvidas sobre o ponto de interseção entre a minha fé e a minha cultura. Eu estava devorando as Escrituras e descobrindo que suas histórias e seus ensinamentos embaralhavam grande parte dos pressupostos políticos e culturais que eu havia absorvido em ambientes cristãos compostos predominantemente por brancos. Mas, ao me reconectar com a minha latinidade — ou seja, com a forma de ser da minha cultura, algo que eu havia abandonado na adolescência —, comecei a notar o modo como muitos cristãos ao meu redor falavam sobre os latino-americanos. Alguns insistiam, de forma totalmente antibíblica, que nós, latinos, éramos mais propensos a cometer pecados sexuais do que os brancos, enquanto outros minimizavam as atrocidades cometidas pelo colonialismo espanhol nas Américas Central e do Sul, para dizer que, ao menos, meus ancestrais receberam dessa época o evangelho.

Quando estouraram os protestos motivados por questões raciais e de policiamento nos Estados Unidos, no verão de 2020, eu estava cansado. Ser um cristão teologicamente conservador no Meio-Oeste americano significa viver cercado sobretudo de pessoas politicamente conservadoras (pessoas de direita), sendo que as minhas próprias convicções políticas são mais à esquerda. Compartilhávamos a mesma fé, mas, devido ao momento que a cultura atravessava, tudo o que eu dizia sobre política parecia ser facilmente descartado sob os rótulos de “teoria crítica da raça” ou do “politicamente correto”. Foi quando comecei a pensar em me mudar para a Califórnia.

Comecei a assistir a vídeos e a palestras acadêmicas sobre descolonização nas redes sociais. No início, foi empolgante. Eu sentia que finalmente estava encontrando pessoas que lidavam sem rodeios com as realidades do colonialismo e da supremacia branca, de maneiras com as quais eu me identificava intelectual e emocionalmente. A ideia de desvincular minha fé e minha cultura das abrangentes suposições de uma superioridade cultural ocidental ou europeia me intrigava, assim como aprender sobre a história sem ignorar as atrocidades coloniais cometidas no Novo Mundo e me curar de um racismo internalizado.

Mas, conforme eu assistia a esse tipo de conteúdo, ouvia cada vez mais pessoas dizerem coisas como: “O cristianismo nos foi imposto pelo colonizador, de modo que uma pessoa não pode se descolonizar e continuar sendo cristã”. Quanto mais eu ouvia isso, mais incomodado ficava.

Eu estava a ponto de jogar fora a água do banho colonial ― junto com a banheira, o sabonete e tudo mais. Contudo, eu não conseguia abandonar Jesus. Eu já tinha passado pela minha crise de fé. Já tinha desconstruído e reconstruído minhas convicções. Já tinha decidido seguir a Jesus, depois que Deus veio até mim inesperadamente. Mas, junto com essa volta à fé da minha avó, eu também havia voltado à cultura dela. Eu havia rejeitado a suposição que encontrara entre muitos cristãos brancos, ainda que ela fosse inconsciente, de que a cultura colonial europeia e seus derivados eram superiores à latinidade.

E estava atravessando um turbilhão. Numa manhã de domingo particularmente tumultuada, sentei-me na igreja anglicana (a ironia não me escapa) com os olhos fechados e a cabeça encostada no banco à minha frente. Disse a Deus: “Não sei mais como fazer isso”. E Deus me respondeu com o que talvez seja a coisa mais próxima que já tive de uma visão.

Eu me vi em uma praia, e Jesus caminhava em minha direção. Conforme ele se aproximava, notei que sua pele era morena como a da minha avó. Estendendo a mão, ele disse: “Venha, siga-me”. Peguei sua mão e nos abraçamos, um abraço apertado como os que meus tios me dão. Naquele momento, eu soube que Jesus não estava me chamando a rejeitar a cultura da minha família. Ele amava a minha latinidade. Amava minhas raízes, minha ancestralidade. Ele estava me chamando para segui-lo como chicano.

Esse não é um convite exclusivo, feito só para mim. Deus moldou a cada um de nós dentro da nossa cultura, e ele diz a todos nós as mesmas palavras: “Venha, siga-me”. Certamente, como cristãos, todos compartilhamos as mesmas Escrituras, a mesma história da igreja e o mesmo Senhor, e temos muito em comum entre nossas culturas. Mas a nossa não é uma fé homogeneizante. Jesus não nos pede para abandonar nossas culturas de origem, mas sim para submetê-las ao seu senhorio.

Quando Jesus chamou seus primeiros discípulos, ele nunca lhes pediu que deixassem de ser judeus — contudo, a identidade judaica deles agora passaria a ser moldada em Jesus. Da mesma forma, à medida que os gentios convertidos se juntavam à igreja primitiva, o apóstolo Tiago, sob a direção do Espírito Santo, determinou que os cristãos judeus não deveriam “criar dificuldades para os gentios que estão se convertendo a Deus”, exigindo deles, além da conformidade com a ética divina, mudanças culturais que Deus não exigia (Atos 15.19-20). Jesus estava encontrando-se com os gentios em seu próprio contexto cultural, como gentios que eram.

Contudo, assim como aqueles cristãos gentios tiveram que abandonar a idolatria, os cristãos latino-americanos não podem trazer para o reino de Deus práticas de bruxaria ou orações à Santa Morte, que são uma herança asteca (idolatria à “Santa Morte”). Mas isso também não significa que devamos abandonar tudo. Todas as etnias e grupos étnicos foram contaminados pelo pecado; mas Jesus é aquele que nos cura, a todos nós. Deus é o Pai “de quem toda família, nos céus e na terra, recebe o nome” (Efésios 3.14-15, grifo meu).

A descolonização ainda tem seu papel na busca por justiça; eu, porém, quero ser identificado mais pelo que afirmo — o evangelho e a beleza da minha cultura — do que pelo que condeno. Penso em como as culturas latino-americanas colocam a mesa de jantar no centro da vida comunitária, o que simboliza a acolhida tanto dos membros da nossa comunidade quanto dos estrangeiros. Penso na compreensão amplamente difundida entre os povos nativos sobre a relação familiar da humanidade com as plantas e os animais, um modo de viver que traz ecos da visão moral de Gênesis 1 e 2.

Penso na minha avó, que cantava hinos de louvor em espanhol, que orava enquanto cozinhava arroz com feijão, que nunca teve vergonha de ser mexicana e que sempre demonstrou fé e fidelidade em um mundo difícil e conflituoso. Todos esses aspectos [culturais] podem ser trazidos para a nossa devoção a Jesus.

E assim serão. No fim, quando Deus tiver curado tudo aquilo que nos divide, por meio de Jesus, Ele trará “a glória e a honra das nações” — de todas as nações — para a Nova Jerusalém (Apocalipse 21.26). E então, todos nós ofertaremos a glória de nossas respectivas culturas ao nosso Pai.

Joshua Bocanegra mora em Kansas City, Missouri. Ele serve no Estuaries, um ministério dedicado a discipular líderes comunitários de maneira rigorosa, cheia do Espírito Santo e integralmente saudável.

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