Em julho de 1980, John Piper, que na época tinha 34 anos, pregou seu primeiro sermão como pastor da Igreja Batista Bethlehem, que fica na zona leste do centro de Minneapolis. Do púlpito, ele via um mar de cabeças grisalhas. Com sua voz de tenor ainda carregada do sotaque sulista da Carolina do Sul, ele disse: “Eu, por mim mesmo, não tenho nada de valor que possa dizer a vocês. Mas Deus tem. Espero em Deus e oro para que eu nunca me canse de proclamar essa Palavra. Pois a vida da igreja depende disso.”
O último sermão de Piper nessa igreja aconteceu em 2013, em um domingo de Páscoa. O pastor de cabelos grisalhos e calvície incipiente, então com 67 anos, olhou para um mar de rostos mais jovens e explicou por que aquele não seria um sermão de despedida típico, com reflexões pessoais: “Tem sido nosso compromisso, durante todos esses anos juntos, pregar não a nós mesmos, mas a Jesus Cristo como Senhor (2Coríntios 4.5). As pessoas não devem vir à igreja para ouvir sobre os sentimentos ou as ideias de um homem, mas sim para ouvir a palavra de Deus”.
“Nossos atos”, escreveu ele certa vez, “são como pedrinhas que atiramos no lago da história. Não importa quão pequena seja a nossa pedrinha, pois é Deus quem governa as ondas [que elas produzem no lago]”. Piper, que se descreve como um leitor lento e “persistente”, encaixa-se com perfeição na série da CT chamada Long Obedience in the Same Direction [Obediência Persistente na Mesma Direção]. O pastor batista norte-americano, que completou 80 anos em 11 de janeiro de 2026, ainda ensina e escreve em tempo integral — e exerce um ministério que tem impactado o mundo todo.
Os pais de Piper, ambos fundamentalistas, foram as pessoas mais felizes que ele já conheceu. Ele cresceu em Greenville, na Carolina do Sul, a uma curta distância a pé da Universidade Bob Jones, instituição em que seu pai, um evangelista itinerante, era membro do conselho. Depois que os pais de Piper se distanciaram da Bob Jones, devido a críticas feitas a Billy Graham, em 1957, Piper ingressou no Wheaton College, na década de 1960. Lá, ele conheceu sua esposa (Noël Henry, que era da Geórgia) e, por meio de um convite para orar na capela de verão, foi curado de uma fobia debilitante de falar em público, que o atormentava desde a infância.
Em um período que esteve internado com mononucleose, Piper ouviu, pela estação de rádio do campus, as exposições bíblicas de Harold John Ockenga e sentiu-se chamado ao ministério. Tempos depois, no Seminário Teológico Fuller, Daniel Fuller o ensinou a ler a Bíblia fazendo perguntas ao texto e rastreando seus argumentos. Quando Fuller disse que Jonathan Edwards era capaz tanto de confundir a mente de um filósofo quanto de aquecer o coração de uma avó, Piper começou a ler obras de Edwards, o pastor-teólogo do século 18, e nunca mais parou, tranformando-o em seu “mestre já falecido mais importante fora da Bíblia”.
Depois de travar uma intensa batalha, refletindo sobre textos da Bíblia, Piper abraçou a soberania absoluta de Deus e as doutrinas da graça. Ele também ergueu os alicerces do hedonismo cristão, termo impactante para descrever a antiga ideia de que somente Deus pode satisfazer os anseios mais profundos da nossa alma. Portanto, glorificamos a Deus nos contentando nele para sempre. Em seu primeiro livro, Desiring God [publicado em português sob o título Plena satisfação em Deus], Piper expressou isso da seguinte forma: “Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele”.
Um doutorado pela Universidade de Munique, e uma dissertação publicada inicialmente pela Cambridge University Press, garantiram a Piper sua entrada no mundo acadêmico. Após seis anos lecionando no Bethel College (atual Universidade Bethel), ele aproveitou um período sabático para escrever uma obra acadêmica minuciosa sobre Romanos 9. Durante esse tempo, ele sentiu o chamado de Deus para o pastorado. Era como se Deus estivesse lhe dizendo: “Eu não serei simplesmente analisado, serei adorado. Eu não serei simplesmente objeto de reflexão, serei proclamado”.
Ao longo das décadas seguintes, Piper escreveu mais de 50 livros e doou cada centavo dos seus direitos autorais para financiar seu ministério sem fins lucrativos, o Desiring God [Desejando a Deus], bem como o Bethlehem College and Seminary [Faculdade e Seminário Bethlehem]. Com o advento da internet, ele disponibilizou gratuitamente todas as suas mensagens em áudio e seus manuscritos de sermões.
A conferência campal OneDay Passion, em 2000, foi um momento decisivo para muitos estudantes que ouviram Piper pela primeira vez. No que ficou conhecido como o “sermão das conchas”, que falava de um casal que se aposentou cedo para colecionar conchas, ele implorou a 40 mil universitários que não desperdiçassem suas vidas.
Piper tornou-se um palestrante frequente não apenas nas Passion Conferences [Conferências Passion], mas também no Together for the Gospel [Juntos pelo Evangelho], no The Gospel Coalition [Coalizão pelo Evangelho] e, posteriormente, na Cross Conference [Conferência Cruz]. Ao longo do caminho, ele se tornou uma figura paterna para o movimento Young, Restless, and Reformed [Jovens, Inquietos e Reformados]. A intensidade apaixonada e a articulação sincera de Piper eram capazes de cativar plateias inteiras, mas seu trabalho em nada se assemelhava ao revivalismo do passado. Ele não era um pregador itinerante, mas sim um pastor de igreja local, que utilizava os meios comuns de graça para o ministério e enfatizava que sua teologia da felicidade provinha do sofrimento, e sua teologia da glória, da Cruz. Ele se esforçava para viver segundo os paradoxos bíblicos de um homem que vive em Cristo: entristecido, mas sempre alegre; de coração quebrantado, mas com ousadia.
A fama não alterou em nada seu estilo de vida. O salário de Piper continuou abaixo dos seis dígitos, a seu pedido, durante praticamente toda a sua carreira pastoral. Há quatro décadas ele mora na mesma casa na cidade, de arquitetura discreta, a poucos passos da igreja. Aos 50 anos, ele e sua esposa adotaram uma menina, depois de terem criado quatro filhos. Suas roupas de loja de departamentos chamam a atenção apenas porque ele usa as mesmas peças em praticamente todas as conferências.
Aos 80 anos, Piper trabalha em tempo integral no seu escritório, em casa, respondendo a perguntas sobre a Bíblia e a vida cristã por meio do podcast Ask Pastor John [Pergunte ao pastor John, que conta com 400 milhões de reproduções dos seus episódios nos últimos 13 anos] e por meio de sua série de vídeos versículo por versículo, Look at the Book [Olhe para o Livro, que já tem mais de 1.300 vídeos até o momento, e cujo alvo é estudar todas as cartas paulinas]. Ele e sua esposa continuam sendo membros fiéis da Igreja Batista Bethlehem.
Numa época frequentemente marcada por escândalos, fracassos e apostasia, Piper não tem esqueletos no armário. Ele fala abertamente sobre seus padrões de pecado e suas fraquezas. Pediu aos anciãos um período sabático e não remunerado de oito meses, afastando-se totalmente do ministério público, para se dedicar a ser um marido e pai melhor, e para lutar contra pecados recorrentes, como o orgulho e a autocomiseração. Para aqueles que são inclinados a colocá-lo em um pedestal, ele aponta seus pés de barro.
Em seu segundo ano como pastor, Piper percebeu que a misericórdia e a soberania de Deus eram os dois pilares de sua vida: “Ambas são a esperança para o meu futuro, a energia para o meu serviço, o centro da minha teologia, o vínculo do meu casamento, o melhor remédio para todas as minhas enfermidades, a solução para todos os meus desânimos. E quando eu morrer (quer seja cedo ou tarde), essas duas verdades estarão ao lado do meu leito e, com mãos infinitamente fortes e infinitamente ternas, me elevarão até Deus.”
Justin Taylor é vice-presidente executivo de publicação de livros e editor da Crossway. Ele editou e contribuiu para diversos livros e mantém o blog Between Two Worlds [Entre dois mundos], hospedado pela The Gospel Coalition.