A noite escura veio sobre nós, enquanto o sol ainda estava alto no céu. Era um sábado. O telefone tocou. Eu atendi. E assim, de repente, fez-se noite. Palavras e mais palavras, como respingos de fuligem da mais negra escuridão, escorreram do telefone e me sufocaram.
Era um chamado que outros pais também já receberam. Pais sobre quem dizemos: “Ah, coitados desses pais. Estou de coração partido por eles”. Só que não era para outros pais. Não desta vez. E ali estava eu, com meu coração esmagado e reduzido a cacos, que jazia inerte, embora teimasse em permanecer vivo dentro do meu peito.
Luke morrera em uma queda. Uma frase gramaticalmente simples. Um fato devastadoramente horrendo. E, deste lado da ressurreição, a cada ano que passa, ele continuará com 21 anos.
Ele morreu em uma trilha, enquanto estudava no Chile. Nas semanas em que esperamos o traslado do seu corpo para casa, no período entre seu funeral em nossa cidade e seu segundo funeral e sepultamento na Academia Naval dos Estados Unidos, e nos meses seguintes, eu levantava bem cedo e caminhava por quilômetros no escuro. Orando os salmos. Chorando rios de lágrimas. Lançando milhões de porquês para o trono da graça celestial.
Dia após dia vivi essa tortura, sem saber, a princípio, que o Espírito de Deus estava fazendo o que vinha fazendo desde a origem da vida: estava realizando sua obra, a mais bela das obras, em meio à escuridão. A criação de todas as coisas pelo Senhor começou na escuridão. “Haja luz”, disse ele, e houve luz. A criação de cada um de nós, por suas mãos, começou na escuridão do útero. “Haja nascimento”, disse ele, e houve nascimento.
Dentro de mim, a voz que falava inicialmente num sussurro, mas com um volume cada vez maior, pronunciou estas duas palavras: “Haja esperança”. E houve esperança.
Nosso Pai realizava sua obra dentro de mim, na minha escuridão. E, quando o meu presente estava encoberto pela sombra da morte, ele me ensinou a tomar emprestada a luz do passado. Há esperança, porque o jovem cujo corpo sepultamos fora unido, pelo batismo, ao corpo vivo de Jesus, que também foi sepultado e ressuscitou triunfante, com o pé no pescoço da morte, por nós.
O Senhor me ensinou a confiar também na luz do futuro, pois, por mais feroz que seja o rugido do lamento da noite, ele geme derrotado, quando começa o riso da aurora. E então se descortina a aurora da ressurreição. Ela brilhou durante a primeira vinda de Jesus, o primeiro advento, quando ele saiu do sepulcro emprestado; e essa mesma aurora da ressurreição dissipará todo resquício de noite em sua segunda vinda.
Aprendi que lágrimas e sorrisos podem coexistir em uma alma que está repleta de esperança naquilo que Jesus fez, está fazendo e ainda fará por nós. Nunca mais serei o mesmo, e sou grato por isso. Em meio a feridas e lágrimas, na escuridão e na dor, aprendi que “nem mesmo as trevas serão escuras para ti”, ó Cristo (Salmos 139.12), pois tu és a Luz do Mundo.
Chad Bird é bolsista residente na organização 1517. É coapresentador do podcast 40 Minutes in the Old Testament [40 minutos no Antigo Testamento] e autor de vários livros, entre eles Untamed Prayers: 365 Daily Devotions on Christ in the Book of Psalms [Orações indomáveis: 365 devocionais diários sobre Cristo no Livro dos Salmos].