Theology

5 erros comuns nas pregações sobre a Páscoa

Se quer ajudar as pessoas a enxergarem a Páscoa com novos olhos, comece por tirar essas velhas falácias da sua pregação.

Christ Before Pilate, Mihaly Munkacsy (1880)

Christ Before Pilate, Mihaly Munkacsy (1880)

Christianity Today April 10, 2025
The Bridgeman Art Library

1. Não diga que Jesus morreu aos 33 anos de idade

Essa afirmação comum parece razoável, isto é, se Jesus “começou seu ministério” quando tinha “cerca de trinta anos de idade” (Lucas 3.23) e engajou-se nesse ministério por três anos (João menciona três Páscoas, e talvez tenha acontecido uma quarta), então, faz sentido pensar que ele tinha 33 anos quando foi crucificado. No entanto, praticamente não há acadêmicos que acreditem que Jesus realmente tinha 33 anos quando morreu. Jesus nasceu antes do decreto de Herodes, o Grande, que mandou que “matassem em Belém e nas proximidades todos os meninos de dois anos para baixo” (Mateus 2.16, NVI), e antes da morte de Herodes, que aconteceu na primavera de 4 a.C. Se Jesus nasceu no outono de 5 ou 6 a.C, e se lembrarmos que não contamos o “0” entre o a.C. e o d.C.,então, ele estava com 37 ou 38 anos quando morreu, na primavera de 33 d.C (o que muitos acreditam ser o que realmente aconteceu). Mesmo se Jesus tivesse morrido em 30 d.C (a única data alternativa que pode ser levada a sério), ele teria 34 ou 35, e não 33 anos, na data da sua crucificação. Nenhuma doutrina essencial é afetada por esse equívoco comum. Mas não prejudique sua credibilidade proclamando com confiança no púlpito “fatos” que não são verdadeiros.

The Final Days of Jesus: The Most Important Week of the Most Important Person Who Ever Lived

The Final Days of Jesus: The Most Important Week of the Most Important Person Who Ever Lived

Crossway

224 pages

2. Não explique a aparente ausência de um cordeiro na Última Ceia dizendo apenas que Jesus é o cordeiro da Páscoa definitivo.

Embora seja gloriosamente verdade o fato de que Jesus é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1.29), isso não significa que não houve um cordeiro pascal servido na Ceia do Senhor. Na verdade, é quase certo que houve: “Finalmente, chegou o dia da Festa dos Pães sem Fermento, no qual devia ser sacrificado o cordeiro pascal [pascha]. Jesus enviou Pedro e João, dizendo:

― Vão e preparem a refeição da Páscoa [pascha] para nós comermos” (Lucas 22.7-8; cf Mc 14.12). Mesmo que isso não seja especificamente mencionado nos relatos do Evangelho, comer o cordeiro pascal era uma parte importante da tradição da Páscoa judaica (Êx 12.3). É por isso que os discípulos comeram a refeição juntos como grupo, à noite, dentro dos portões da cidade, e provavelmente a comida foi acompanhada de vinho e consumida antes de partirem o pão e de cantarem um hino. Embora não haja consenso sobre a natureza da Última Ceia, achamos que está claro que Jesus celebrou a Páscoa com os Doze, na noite anterior à crucificação — e Jesus deixa claro que enxergava a si mesmo na tradição da poderosa libertação de Deus, que livrou o seu povo Israel da escravidão no Egito pelo sangue de um cordeiro sacrificial.

3. Não diga que foram as mesmas pessoas que estavam na multidão que adorou Jesus no Domingo de Ramos que clamaram por sua crucificação na Sexta-feira Santa.

Esse tipo de declaração daria um impactante ponto em um sermão para ilustrar a inconstância do coração humano em relação a Jesus, o Messias. Mas algumas ressalvas precisam ser acrescentadas. Em primeiro lugar, não há clareza de que a multidão que proclama “hosana!”, aclamando a entrada triunfal de Jesus, seja a mesma que grita “crucifica-o” diante de Pôncio Pilatos. O primeiro grupo parece ser composto sobretudo por peregrinos da Galileia e pelos discípulos de Jesus, enquanto o segundo grupo parece ser composto em grande parte por habitantes de Jerusalém. Em segundo lugar, ambas as multidões estão expressando paixão com base em mal-entendidos. Quando Jesus entrou em Jerusalém montado em um jumento, a empolgação daqueles que proclamavam “hosana!” era baseada em uma concepção nacionalista e errônea do Messias. E quando Jesus se apresentou a Pôncio Pilatos, diante dos judeus de Jerusalém incitados por seus líderes, os quais estavam falsamente acusando Jesus de blasfêmia, a condenação deles foi igualmente baseada em uma concepção errônea da identidade do Messias. O elo comum entre essas duas multidões não é a inconstância do coração humano, mas sim a falta de conhecimento genuíno e de adoração ao humilde Messias e ao Servo sofredor.

4. Não ignore o papel das mulheres como testemunhas do Cristo ressuscitado.

O número de mulheres e a sua identidade nos relatos da ressurreição podem ser detalhes difíceis de desvendar. Essa é uma das razões pelas quais fornecemos um glossário na obra The Final Days of Jesus [Os Últimos dias de Jesus], para servir como um guia. Algo que gera certa confusão, por exemplo, é que nada menos do que quatro das mulheres compartilham o nome Maria: (1) Maria Madalena; (2) Maria, a mãe de Jesus; (3) Maria, a mãe de Tiago e José; e (4) Maria, a esposa de Clopas (que pode ter sido irmão de José de Nazaré). Além disso, há Joana (cujo marido, Cuza, era o administrador da casa de Herodes Antipas) e Salomé (provavelmente a mãe dos apóstolos Tiago e João).

Ao pregar nesta Páscoa, não encare o testemunho das mulheres como um detalhe incidental. No primeiro século, as mulheres nem sequer eram aceitas como testemunhas em um tribunal judaico. Josefo disse que mesmo o testemunho de várias mulheres não era aceitável “por causa da leviandade e da ousadia de seu sexo”. Celso, crítico do cristianismo do segundo século, zombou da ideia de Maria Madalena como suposta testemunha da ressurreição, referindo-se a ela como uma “mulher histérica… iludida por… feitiçaria”.

Esse pano de fundo importa porque aponta para duas verdades cruciais: primeira, ele é um lembrete teológico de que o reino do Messias vira o sistema do mundo de cabeça para baixo. Nessa cultura, Jesus afirmou radicalmente a plena dignidade das mulheres e o valor vital de seu testemunho. Segunda, ele é um poderoso lembrete apologético da precisão histórica dos relatos da ressurreição. Se esses relatos fossem de fato “fábulas engenhosamente inventadas” (2 Pedro 1.16), jamais teriam apresentado mulheres como as primeiras testemunhas oculares do Cristo ressuscitado.

5. Não se concentre no sofrimento de Jesus a ponto de negligenciar a glória da Cruz na Ressurreição e por meio dela.

Certas tradições cristãs tendem a se concentrar quase unilateralmente no sofrimento de Jesus na Cruz, na dor incrível que ele teve de suportar e em sua humilhação e separação de Deus. Isso pode ser visto em encenações cinematográficas como A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, a reconstituição católica romana de seu caminho para a crucificação na Via Dolorosa (o Caminho das Dores), nas estações da Cruz, e em alguns sermões que eu e você já ouvimos nas igrejas evangélicas que frequentamos (sem esquecer de mencionar aqui muitos de nossos hinos favoritos). Claro, os quatro evangelhos bíblicos, especialmente Mateus, Marcos e Lucas, concordam que Jesus sofreu muito por nós, quando deu sua vida por nossa salvação, para que pudéssemos ter nossos pecados perdoados.

Ainda assim, existe outro aspecto na história da Páscoa. E ele está muito bem sintetizado na declaração de João: “sabendo Jesus que havia chegado o tempo em que deixaria este mundo e iria para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou‑os até o fim” (13.1). Quando introduz não apenas a cena do lava-pés, mas toda a sua narrativa da Paixão, João escreve o seguinte: “Jesus, sabendo que o Pai havia posto todas as coisas debaixo do seu poder, que viera de Deus e voltava para Deus, levantou‑se da mesa…” (13.3-4; cf. 14.28).

Em outras palavras, João se esforça para mostrar que a Cruz não era um beco sem saída, mas sim uma estação no caminho que Jesus fez de volta para casa, para o Pai! É por isso que ele imprime uma nota triunfante ao início da narração da Crucificação: o Pai havia colocado todas as coisas nas mãos de Jesus, debaixo do seu poder, e Jesus estava no caminho de volta para a glória preexistente que ele desfrutava com o Pai (17.5, 24)! Como o escritor de Hebreus colocou, foi “pela alegria que lhe fora proposta” que Jesus “suportou a cruz, ao desprezar a vergonha” (12.2). Nesta Páscoa, vamos nos certificar de não deixar de fora a “glória”, quando contarmos a história do sofrimento de Jesus. Sem dúvida, a Cruz foi gloriosa em si mesma ao demonstrar a perfeita obediência de Jesus, o amor de Deus pela humanidade e a expiação substitutiva dos pecadores pelo Deus-homem. Ali, a obra terrena de Jesus está de fato “consumada” (João 19.30), mas sua obra gloriosa como governante, rei e intercessor de nossas vidas continua até hoje.

Andreas Köstenberger é professor pesquisador sênior de Novo Testamento e Teologia Bíblica no Southeastern Baptist Theological Seminary, em Wake Forest, na Carolina do Norte. Justin Taylor é vice-presidente sênior e editor de livros na Crossway. Eles são coautores de The Final Days of Jesus: The Most Important Week of the Most Important Person Who Ever Lived [Os Últimos Dias de Jesus: A Semana Mais Importante da Pessoa Mais Importante que Já Viveu] (Crossway).

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