Ideas

É preciso uma igreja inteira para educar uma criança

CT Staff; Columnist

A criação de filhos hoje em dia pode ser uma tarefa solitária e exaustiva. Na igreja, porém, criar filhos é uma responsabilidade compartilhada.

A baby crib mobile with stars and houses hanging from it.
Christianity Today February 12, 2025
Illustration by Elizabeth Kaye / Source Images: Getty

Quando descobri que estava grávida do nosso filho caçula, soube que precisávamos finalmente nos decidir por uma igreja.

Minha família havia se mudado para Pittsburgh há cerca de um ano, e demoramos mais do que esperávamos para encontrar uma igreja. Chegamos no verão de 2021, no período pós-pandemia, quando muitas congregações ainda não tinham voltado a funcionar com sua plena capacidade. A maioria já tinha voltado a ter cultos presenciais, mas nem todas já tinham retomado as atividades do ministério infantil. Com meninos gêmeos de 2 anos de idade, um ministério infantil estruturado era essencial, se quiséssemos prestar atenção no sermão.

Então, passamos seis meses tentando frequentar determinada igreja (uma congregação grande e mais antiga, onde é difícil conhecer pessoas), depois mais seis meses frequentando outra (essa era pequena, e os cultos eram na hora do jantar, o que era sinônimo de queijo e biscoitos por todo o banco da igreja). Então, visitamos uma terceira igreja — onde, finalmente, o ministério infantil havia sido retomado — e, dois meses depois, descobri que estava grávida.

Já estávamos inclinados a nos juntar a essa [terceira] igreja de qualquer maneira, mas, quando me deparei com aquele teste de gravidez, a decisão foi tomada. Eu me sentia como se estivesse correndo para um abrigo, enquanto via uma tempestade se aproximando no horizonte. Havia mesmo alguma opção? Nós tínhamos que nos comprometer [com uma comunidade]. Não poderíamos ter aquele bebê sem uma igreja.

É evidente que há pessoas que não contam com uma igreja, e só posso supor que elas são mais corajosas do que eu. Não consigo sequer imaginar passar por esses primeiros meses com um recém-nascido sem o apoio de uma congregação local. Não é só pelas marmitas que as irmãs trazem, embora certamente sejam uma bênção [pois garantem que você não terá que cozinhar por uns bons dias]. É por saber que há dezenas, senão centenas de pessoas fisicamente próximas que se importam que você teve um bebê — pessoas que vão ajudar nossa família, de forma tangível e espiritual, este ano e nos anos que virão.

Elas vão ajudar não porque sejam parentes ou mesmo boas amigas. Algumas delas você mal conhece. Elas vão ajudar nas grandes e nas pequenas coisas porque, juntas, elas e você são a igreja. Elas farão isso de maneira informal e de maneira institucional, mas também se comprometerão a ajudar — explicitamente, publicamente, diante de Deus e diante umas das outras — e treinarão umas às outras, de geração em geração, sobre como cumprir essa promessa.

Em algumas igrejas, esse compromisso acontece durante o batismo infantil. Em outras, os cristãos dedicam os bebês e só os batizam mais tarde. Em ambos os casos, a declaração da congregação tende a ser a mesma: prometemos apoiar essas crianças e suas famílias em suas vidas e na fé. Nós as acolhemos na comunidade e nos comprometemos ativamente a cuidar delas.

Isso pode não parecer lá grande coisa, se você é um cristão de berço. Isso não é apenas o que se pressupõe que todos façam? Não é o comportamento esperado? Deixa eu te contar uma coisa: isso é, sim, algo de extrema importância. Sempre foi algo importante, mas é particularmente significativo em uma cultura como a nossa, onde a criação de filhos em geral parece uma tarefa solitária e exaustiva, onde é socialmente admissível opinar para que crianças mais novas e com comportamento indesejável sejam banidas de muitos espaços públicos, onde cada vez mais se espera que o trabalho de criar os filhos recaia exclusivamente sobre os ombros dos pais.

Preciso fazer uma pausa aqui para destacar que o Ocidente atual é extremamente inconsistente em seu modo de pensar e de falar sobre crianças (antes mesmo de entrarmos na política por trás de tudo isso). Temos uma aversão a crianças ao lado de uma graciosidade pró-criança. Temos taxas de natalidade em queda e práticas parentais cada vez mais elaboradas e exigentes.

Alguns bolsões da cultura são mais pró-criança e pró-pais do que a média. Ainda assim, parece claro que a média se moveu em uma direção decididamente solitária e mais “hostil à família”. Como observou a colaboradora do The Atlantic, Stephanie Murray, a norma cada vez mais aceita é que seus filhos são problema seu, são um projeto pessoal que deve ser mantido fora do caminho de todos os demais, até que tenham idade suficiente para serem confiáveis, úteis e comportarem-se de modo apropriado.

O problema com essa visão é que não é assim que a criação de filhos ou o amadurecimento funcionam. Criar filhos é direito e responsabilidade principalmente dos pais. Mas também é “um esforço fundamentalmente social”, escreve Murray, no qual todos têm algum papel — um papel ao qual cada vez mais adultos estão “essencialmente renunciando”, em nossa sociedade em que a confiança anda cada vez menor, onde a criação de filhos é vista como um estilo de vida opcional, cujas consequências devem ser suportadas por aqueles que o escolhem.

Crescer e amadurecer também é um esforço social. As crianças fazem parte da sociedade e só aprendem a interagir com outras pessoas estando perto de outras pessoas, especialmente se forem outras pessoas que se importam o suficiente para corrigi-las e ajudá-las a levantar quando caem. Quando a “aldeia” renuncia ao seu papel, os pais não são os únicos que se sentem sozinhos e à deriva.

Na igreja, porém, você não pode renunciar a esse papel. Você o afirma verbalmente a cada novo bebê. Nas dedicações e nos batismos, nós, deliberadamente, acolhemos as crianças e acolhemos seus pais enquanto pais, juntos, na vida cristã. Ao nos comprometer a ajudar os pais a “instruir a criança no caminho em que deve andar” (Pv 22.6), nós também nos treinamos no que significa ser comunidade.

Muito tem sido escrito recentemente sobre o crescente interesse secular nos benefícios práticos do cristianismo: como a igreja pode encorajar o bom comportamento, promover amizades e estabilizar a sociedade. Com essa conversa vieram advertências contra a instrumentalização da nossa fé — isto é, vantagens sociais à parte, o que de fato importa é se o cristianismo é verdadeiro, se Jesus realmente é Deus, se ele realmente derrotou o pecado, a morte e o diabo (Hebreus 2.14-18), se realmente podemos esperar que ele voltará e completerá sua obra de redenção do mundo. Não vamos à igreja para ter uma comunidade e ganhar marmitas (e, se fazemos isso, provavelmente não o faremos por muito tempo).

No entanto, nem a comunidade nem as marmitas são irrelevantes. Não “queremos que as pessoas se juntem às igrejas pelas vantagens sociais”, como escreveu recentemente para a CT o teólogo Brad East, mas o “Senhor e a sua família são unidos”. Não temos que desvencilhar nossa lealdade a Jesus do fato de desfrutarmos dos benefícios de sua igreja. Na verdade, não deveríamos nem ao menos tentar fazer isso. Ambos são inseparáveis. A igreja não é um prédio, como minha mãe sempre me disse; ela é um abrigo resistente em todos os tipos de tempestades.

Bonnie Kristian é a diretora editorial de ideias e livros da Christianity Today.

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