Não estavam ardendo os nossos corações dentro de nós?

A misteriosa obra divina que consola e oculta.

Christianity Today May 9, 2024
Óleo sobre tela: Stream in the Woods, Elizabeth Bowman, 2023.

Naquele mesmo dia, dois deles estavam indo para um povoado chamado Emaús, a sessenta estádios de Jerusalém. No caminho, conversavam a respeito de tudo o que havia acontecido.

Lucas 24.13-14

Uma coisa que adoro na Bíblia é sua tendência de lançar luz e obscurecer simultaneamente, de consolar e confundir ao mesmo tempo. Encontramos esta dinâmica singular em ação justamente no mesmo dia em que Jesus ressuscita dos mortos, quando o Evangelho de Lucas chama a nossa atenção para o caminho de Emaús. Mostrando dois discípulos anônimos de Jesus em meio a uma conversa, Lucas os descreve como pessoas que estão em estado de perplexidade, pois começaram a ouvir rumores sobre a ressurreição de Jesus. Enquanto caminham pela estrada, os dois processam os pesados acontecimentos dos últimos três dias e as estranhas possibilidades que esses novos relatos contêm. Embora eles não fizessem parte do grupo dos Doze discípulos originais, pareciam ser suficientemente próximos do círculo interno para terem recebido a notícia inacreditável de que Jesus estava vivo.

Então, as coisas ficam interessantes: “Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e foi com eles” (Lucas 24.15, ESV in totum). O Jesus ressurreto interrompe a discussão, mas eles não o reconhecem. Lucas atribui a cegueira deles a uma intenção divina; Jesus não se revela. Ele simplesmente caminha com os dois em sua longa jornada, incógnito, discutindo o que se passava em suas mentes.

Deve ter sido uma longa conversa, durante os cerca de doze quilômetros que separavam Jerusalém de Emaús. Em média, as pessoas caminham a um ritmo de cinco quilômetros por hora, o que significa que Jesus viajou com eles durante cerca de duas horas e meia. Ele acaba enveredando o diálogo para uma longa e completa lição bíblica. E argumenta, com base nas Escrituras, por que eles não estavam enganados sobre quem esperavam que Jesus fosse. Em algum momento da viagem, uma luz começou a penetrar nos corações desta dupla lúgubre.

De repente, a revelação de Jesus ocorre num piscar de olhos — resumida em meros dois versículos curtos. Quando finalmente chegam a Emaús, Jesus dá a entender que vai mais longe, mas os dois insistem para que ele fique, e ele fica. Os três sentam-se à mesa e Jesus toma o pão e o abençoa. Ele parte o pão e dá a eles. Então, eles o reconhecem. E Jesus desaparece.

Jesus desaparece no exato momento em que os dois discípulos o reconhecem — é um consolo doce e passageiro. Eles são tomados por tamanha alegria que decidem fazer a caminhada de 12 quilômetros de volta a Jerusalém na mesma hora, na escuridão da noite e na luz da fé.

O que devemos fazer com essa história? Observe os dois discípulos tristes. Ao saírem de Jerusalém, estão desorientados e decepcionados, carregando o pesado fardo do abandono. Enquanto um grupo maior espera para ver se a ressurreição de Jesus é uma realidade, Jesus primeiro se revela àqueles dois que se sentem sozinhos, desencorajados e sem esperança.

E, no entanto, de certa forma, Deus ainda está empenhado em se ocultar. “Verdadeiramente tu és um Deus que se esconde”, diz o profeta Isaías (45.15). Talvez a graça, em parte, só funcione em secreto. Talvez haja algumas realidades e feridas que nos tornam tão frágeis, que qualquer outra coisa, além do cuidado paciente e oculto de Deus, nos desintegraria como uma folha seca, devolvendo-nos ao pó que somos. Quaisquer que sejam os motivos, podemos confiar que nosso Salvador está próximo. O Grande Médico cuida de nós com gentil atenção e precisão, e com uma paciência lenta que nos permite a mais profunda cura.

Neste ponto, acredito que nos é dada uma visão de nossa própria história. Nesta passagem, temos uma visão da situação sob o ponto de vista de Deus — sabemos o que realmente está acontecendo, mesmo que os discípulos não saibam. Embora não tenhamos o privilégio de ter esta perspectiva em nossa vida cotidiana, ainda assim hoje sabemos de algo que eles não sabiam naquela altura. Os dois discípulos pensaram que estavam a caminho de Emaús, quando, na verdade, estavam a caminho de uma mesa: a mesa onde o Jesus que vive alimentou seus corações famintos, curou suas feridas mais profundas e os fez arder com o perplexo consolo da Ressurreição. E esta mesma mesa também espera por nós.

Para refletir:



Você acha que teria ficado [em Jerusalém] com os outros discípulos, para saber mais dessa notícia bárbara? Ou acha que teria seguido em frente, como esses dois discípulos? Por que teria ficado ou por que não teria?

Tudo fica claro em retrospectiva, especialmente no que diz respeito à nossa vida com Deus. Houve momentos em sua vida em que Deus se ocultou, apenas para revelar a si mesmo ou a seu plano bem mais à frente da sua história?

Jon é cantor e compositor, reside em Austin, Texas. Ele escreve música devocional, compõe trilhas sonoras para filmes e tem dois álbuns lançados.

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